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Na ONU, Bolsonaro finge eficiência, se apropria de ações e culpa outros

                     - ReproduçãoTV BRASIL
Imagem: ReproduçãoTV BRASIL
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

22/09/2020 14h56Atualizada em 22/09/2020 15h03

A propagação de mensagens dúbias que responsabilizam terceiros pelas mazelas do país é prática recorrente do governo Bolsonaro. Na 75ª Assembleia Geral das Organizações das Nações Unidas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) abriu sua fala lamentando as "mortes ocorridas", gesto que evitou ao longo dos meses de pandemia no país e que segue economizando. Em seguida, afirmou ter tratado o "vírus e o desemprego (...) simultaneamente com a mesma responsabilidade". Não é verdade.

O presidente defendeu a volta à normalidade em seu anúncio de 24 de março, no começo da crise sanitária. Naquele pronunciamento à nação (quando citou o seu "histórico de atleta"), ele priorizou a economia sobre as medidas de contenção dos efeitos da Covid-19. Em nenhum momento deu a mesma ênfase à doença que rendeu à economia.

Estimulou atos com aglomerações, apertou a mão de apoiadores, não usou máscara em diversos eventos. Foi por isso que o Supremo Tribunal Federal (STF) garantiu aos governos a autonomia para adotar medidas de proteção à saúde. Na ocasião, em 15 de abril, o presidente Bolsonaro pretendia editar um decreto ordenando a reabertura de todo o comércio. Nesta terça (22), na ONU, o presidente do Brasil se colocou como um distribuidor de recursos aos estados e municípios, que "de forma arrojada implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior". O resto, segundo ele, foi pânico causado pela imprensa, que teria politizado o vírus.

Ao se lançar como um ótimo gestor na pandemia, Bolsonaro ignorou as mais de 137 mil vidas perdidas para a Covid-19, o que faz do Brasil um dos três países campeões em mortes no mundo. Tomou para si as medidas emergenciais, como o auxílio, cujo valor de R$ 600 ele nem queria conceder (valor aprovado pelo Congresso) e agora é obrigado a manter para preservar a sua base de apoio. Botou em sua conta o crédito às micro e pequenas empresas, que demorou meses e contribuiu para o aumento do desemprego.

O presidente também afirmou serem fake news os índices de incêndio e desmatamento na Amazônia - dados oficiais. Elas seriam estimuladas pelo interesse internacional em roubar nossas riquezas, com apoio de organizações sociais brasileiras, um aceno às teorias conspiratórias. Não tem lógica.

Quem propagou informação falsa foi ele próprio, ao dizer que os incêndios acontecem em áreas onde "índios e caboclos queimam seus roçados". Omite a violência no campo contra indígenas e povos da floresta, o estímulo de seu próprio governo aos garimpeiros, grileiros e posseiros (capazes de atear fogo na mata), a frágil saúde indígena a quem ele recomendou cloroquina, o sucateamento do ICMBio. Tenta repetir à exaustão um mantra irreal para que ele seja tomado como verdade. Uma estratégia conhecida.

E nessa toada seguiu. "Na América Latina, continuamos trabalhando pela preservação e promoção da ordem democrática como base de sustentação indispensável para o progresso econômico que desejamos", afirmou, mesmo sendo a sua postura cada vez mais antidemocrática e autoritária.

E fecha seu discurso com "um apelo pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia". Ora, os ataques religiosos têm sido historicamente voltados às religiões de matriz africana. Mais uma vez, a fala de Bolsonaro mostra que ele governa cada vez mais voltado às suas crenças pessoais e menos aos interesses da população em geral.

Um líder que defende o armamento de civis em nome de uma suposta liberdade e desestimula a vacinação em massa contra uma pandemia não está preocupado com a nação. Acena, de novo, aos seus próprios defensores e não abre diálogo com a comunidade internacional. Tenta confundir e enganar o público. Como explica o professor de História da New School for Social Research, Federico Finchelstein, pesquisador de regimes autoritários, em seu livro "Uma breve história das mentiras fascistas", "para aqueles que acreditam no culto de seus líderes, essas mentiras são suficientes; mas esse não é o caso do resto da população. As mentiras e o preconceito matam."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL