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Cientistas flagram pela 1ª vez organismo armando ataque contra bactérias

Conjunto de proteínas batizado de Complexo de Ataque à Membrana (MAC, na sigla em inglês) age nas membranas celulares bacterianas - Divulgação
Conjunto de proteínas batizado de Complexo de Ataque à Membrana (MAC, na sigla em inglês) age nas membranas celulares bacterianas Imagem: Divulgação

Janaina Garcia

Colaboração para o UOL

15/05/2019 04h00

Pode o nosso corpo reunir um conjunto de proteínas tão hábil em destruir bactérias ao ponto de calcular, de maneira meticulosa, como evitar uma agressão ao próprio organismo? Um estudo recém-publicado pela revista científica "Nature" afirma que sim. Por meio de um microscópio poderoso, pela primeira vez cientistas descobriram mecanismos de defesa surpreendentes que o corpo humano desenvolve a fim de se proteger de organismos invasores.

O conjunto de proteínas descoberto pelo estudo foi batizado de Complexo de Ataque à Membrana (MAC, na sigla em inglês) e age nas membranas celulares bacterianas, que se abrem em buracos. Antes do ataque, porém, o grupo dá uma breve hesitada para se precaver de que não está atacando células do corpo.

"Parece que [esses agrupamentos de proteínas] esperam um momento e permitem à sua possível vítima, com isso, intervir caso seja uma das células do próprio corpo, em vez de um germe invasor, antes que promovam o golpe fatal", afirmou o nanotecnólogo Edward Parsons, da University College, em Londres, ao site "Science Alert".

Em pesquisas anteriores, os cientistas da instituição já haviam concebido os resultados do ataque do MAC a uma membrana bacteriana, ao ver os poros resultantes de sua ação. Faltava acompanhar como se desenrolava, na prática, esse processo, o que foi feito a partir de uma superfície bacteriana modelo, desenvolvida em laboratório a partir da Escherichia coli (E coli). Com as proteínas MAC lançadas, todo o processo foi filmado por meio de microscopia de força atômica rápida, um tipo de alta resolução que permite imagens em nano-escala.

Ao todo, para completar o buraco na membrana, exigem-se 18 cópias da mesma proteína. O ponto de partida é a inserção delas na membrana-alvo; em seguida, ligam-se irreversivelmente aos lipídios bacterianos e atuam como uma plataforma para coordenar o restante do ataque.

Fotos do processo de formação de poros - Divulgação
Fotos do processo de formação de poros
Imagem: Divulgação

Antes de o restante das proteínas se acumular, no entanto, a ação tem uma breve pausa - naquele que parece ser o ponto em que uma célula hospedeira saudável poderia responder se o MAC identificasse o alvo errado.

Feita essa pausa, segundo os pesquisadores, o processo fluía com as demais 17 proteínas encaixando-se de maneira ágil e sequenciada perfurando um buraco circular, com apenas 11 nanômetros de diâmetro, na membrana. Enfraquecida a bactéria após essa missiva, temos o colapso de suas células e sua morte.

Para os cientistas, o que parece de fato interessante é essa pausa inteligente que permite ao corpo a possibilidade de acenar e evitar danos às suas próprias células. Eles acreditam que a descoberta possa impactar, por exemplo, na imunoterapia do câncer, em que a resposta imunológica do corpo é aproveitada para combater as células cancerígenas.

Errata: o texto foi atualizado
No depoimento do nanotecnólogo Edward Parsons, o correto é "(...) em vez de um germe invasor", em vez de "(...) em vez de um inseto invasor".

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