Topo

Do fone sem fio ao tradutor rápido: veja os gadgets da trama de Bacurau

Bacurau: o sertão poucas vezes foi tão tecnológico no cinema brasileiro - Divulgação
Bacurau: o sertão poucas vezes foi tão tecnológico no cinema brasileiro Imagem: Divulgação

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

23/09/2019 04h00Atualizada em 23/09/2019 14h11

Sem tempo, irmão

  • Western high-tech pernambucano traz aparelhos do presente ou futuro próximo
  • Celulares e substâncias de humor são comuns e têm papel importante no filme
  • Já bloqueador de sinal e tradutor instantâneo, como vistos no filme, ainda estão avançando

Aviso: contém spoilers do filme "Bacurau"

Se você saiu do cinema dizendo que, meu, "Bacurau" é muito "Black Mirror", só que com mais sangue, você não está só. Assim como a série da Netflix, a distopia brasileira dirigida por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles também aponta para o futuro usando como bases questões contemporâneas que já são pungentes. É um jeito de dizer que esse Brasil do futuro, macabro e sombrio, é logo ali. Ou aqui.

Nesse futuro próximo, uma série de gadgets já existentes, alguns não tão desenvolvidos nem tão acessíveis ainda, surgem na tela para mostrar o amanhã (ou hoje?) que se desenha, marcado pela crise de autoridade, a falência da mediação política, a fragilidade do Judiciário e o campo aberto para o delírio armamentista de grupos supremacistas.

Confira, abaixo, os principais equipamentos tecnológicos, paradigmas de ciência e referências à ficção científica usados na trama deste western high-tech com sotaque pernambucano:

Reprodução
Imagem: Reprodução

Tablets e celulares

Desnecessário dizer que esses aparelhos já estão massificados no mundo inteiro, então não chega a ser uma surpresa vê-los no sertão pernambucano. Mas é interessante como a história de "Bacurau" usa a conectividade móvel para fazer a trama andar.

Em uma das cenas, o professor de uma escola da rede pública tenta mostrar aos alunos onde fica Bacurau no mapa. Para isso, usa um tablet que, sem explicação, parece sem sinal. Além disso, vários personagens usam celulares para trocar arquivos de áudio entre si, no que parece ser uma referência óbvia ao WhatsApp.

O smartphone como conhecemos popularizou-se após o primeiro iPhone, de 2007. Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick previam o surgimento do tablet no filme e no livro "2001: uma odisseia no espaço", de 1968. Em 2001, Bill Gates apresentou, em uma feira de computadores de Los Angeles, um protótipo do Tablet PC da Microsoft - um retumbante fracasso comercial. A moda só pegou mesmo a partir dos anos 2010, com o iPad da Apple.

Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2018, divulgada há um mês, o celular se mantém como aparelho mais usado por quem é internauta no Brasil, já que 97% dos usuários conectados fazem uso do dispositivo. Já os tablets representam só 11% na mesma pesquisa. No recorte Nordeste, esses mesmos percentuais se repetem.

Em 2011, o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, instituiu o Programa Aluno Conectado, que distribuiria tablets aos alunos dos segundo e terceiro anos do ensino médio da rede pública estadual. No ano seguinte, foram entregues 156 mil tablets e PCs na rede pública, segundo o governo local. Mas as gestões posteriores não continuaram com o programa.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Substâncias controladoras de humor

Em uma das cenas, o prefeito local distribui uma série de itens de sobrevivência de olho na reeleição, inclusive medicamentos tarja preta para controle de humor. Parece uma piscadela para Aldous Huxley, que no clássico livro de ficção "Admirável Mundo Novo" criou personagens dependentes de uma pílula, o Soma, que equilibrava felicidade e tristeza, concentração e desconcentração, para padronizar os comportamentos socialmente aceitáveis na ficção.

Hoje em dia medicamentos do tipo devem ser receitados com cuidado, para pacientes que sofrem de algum transtorno mental.

Na cena de "Bacurau", a médica interpretada por Sonia Braga faz um alerta à população sobre os perigos daquele tipo de medicalização sobre os corpos dos indivíduos. A ironia é que, antes da "batalha final", os moradores experimentam uma espécie de veneno da coragem, aparentemente fitoterápico, para enfrentar as adversidades.

Reprodução
Imagem: Reprodução

A proliferação das telas

Não é preciso viajar para o futuro para assistir, no interior do Brasil, a um filme em projetado por um caminhão, como fazem os moradores de Bacurau.

Criado em 2013, um projeto de cinema itinerante chamado Cinesolar (porque movido a energia solar) percorre as estradas do Brasil promovendo sessões de filmes nacionais. A tela, porém, não é um dispositivo digital acoplado à estação móvel, e sim montada ao lado, com uma tela. Durante as sessões, a van que leva os equipamentos, das cadeiras ao sistema de projeção, se transforma em cabine de DJ com um sistema próprio de som.

No filme, o veículo serve também como carro de som - o que, bem, já existe desde que alguém resolveu rodar as cidades anunciando pamonhas e ovos da granja com um alto-falante.

Também vemos no começo do filme uma pequena tela no interior de um caminhão-pipa. No filme, o sistema serve não para entretenimento, mas para enviar comunicados de alertas sobre foragidos, com informes de recompensa para delatores.

Isso não é exatamente novo. Em 1986, o Buick Riviera vinha com uma tela sensível ao toque no painel, o Graphic Control Center. Tratava-se de um monitor do tipo "tubo" monocromático de mais ou menos dez polegadas, usado para conectar o rádio e o ar-condicionado.

Aos poucos os equipamentos evoluíram, e hoje é comum ver sistemas de TV a bordo não apenas em carros como em aviões. Embora, vale lembrar, dirigir vendo TV seja proibido, além de perigoso, e só ser liberado para o banco de trás.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Drones

No filme, um drone, em formato de disco voador, cruza os céus do sertão acompanhando, transmitindo em tempo real e com imagem em alta definição, tudo o que acontece na planície.

O drone é uma invenção que está entre nós há mais tempo do que se imagina —há quem atribua aos austríacos, que no fim do século 19 carregavam balões sem tripulantes com explosivos para a guerra, como inventores dessa tecnologia que, hoje, é usada para atacar instalações petrolíferas na Arábia Saudita e colocar o mundo a um fio de um amplo conflito mundial.

O desenvolvimento dos drones está intimamente ligado à indústria bélica. O engenheiro Nikola Tesla já descrevia, em um estudo, o potencial militar de uma frota de veículos de combate aéreos não tripulados em 1915. O primeiro drone moderno, porém, só surgiu em 1951, quando a Ryan Aeronautical Company desenvolveu o Firebee, um drone a jato destinado a servir como alvo aéreo.

O uso intenso de drones foi previsto por Orson Scott Card no romance "O jogo do exterminador", de 1985. Quase 25 anos depois, até a Nasa está mobilizada na criação de um sistema de tráfego aéreo que dê conta do gerenciamento de encomendas por aplicativo. É uma ideia que o dono de uma padaria em São Carlos já tentou implementar, em 2014, antes de ser barrada pela Anac. Já o iFood deve usar drones em parte de sua operação de delivery muito em breve.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Bloqueador de celular

Quando se pensa em bloqueadores de celular, como usado por uma espiã em Bacurau, logo se pensa no bloqueio de comunicação em presídios, um sistema sem a menor garantia de que apenas o sinal de dentro das unidades seja bloqueado.

Mas é possível usar esse tipo de aparelho para outros fins. Em 2013, um professor de engenharia elétrica de São Bernardo do Campo virou notícia ao usar um bloqueador de sinal de celulares na sala de aula para inibir a troca de mensagens entre alunos durante a aula. Para tanto, ele comprou um bloqueador que emitia um ruído que impedia a comunicação entre o telefone e a antena.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Fones sem fio

No filme, os vilões conversam o tempo todo entre eles durante a caçada em Bacurau, com a ajuda de fones de fio. Esse equipamento já existe, mas não exatamente para esse fim —sim, não vamos nos livrar dos rádios tipo patrulha tão cedo.

Atualmente, os Airpods, fones sem fio da Apple, já permitem, por exemplo, transformar o smartphone em um instrumento para ouvir tudo o que dizem ao redor dele. A ferramenta, um dos diversos recursos de acessibilidade presentes no iOS, foi criada para auxiliar pessoas com alguma deficiência auditiva e permite captar o som do entorno e transmiti-lo diretamente para fones de ouvido sem fio.

No Brasil, os AirPods custam cerca de R$ 1.300 para a versão com estojo de recarga, e sua venda tem sido inibida pelo medo de assalto.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Tradutor simultâneo

"Você quer morrer ou quer viver?", pergunta, em um dos momentos-chave do filme, um dos moradores de Bacurau a uma invasora americana que não esperava ser contra-atacada. A pergunta é traduzida simultaneamente por um modelo mais avançado de smartphone. Que, aliás, traz um (até agora) inédito design translúcido no filme.

A invenção de um tradutor simultâneo foi prevista por Douglas Adams em "O Guia do Mochileiro das Galáxias", de 1979. O tradutor do Android já é capaz disso, mas sem tanta rapidez.

Há quase um ano passou a ser comercializado um tradutor de voz inteligente portátil por até US$ 250 (R$ 1.090, fora taxas). Na descrição o vendedor promete que o sistema pode traduzir a gravação de som em texto e transmitir simultaneamente em saída de voz em 40 línguas sem nenhum ruído.

Enquanto isso, o Google promete que, com seu novo fone de ouvido, o Pixel Bud, será possível ter uma conversa em tempo real com alguém que fala outra língua. Com ele, o celular grava a voz do interlocutor e faz tradução imediata no fone de ouvido.

Ficção científica?