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Huawei é grave risco à segurança e deve ser barrada, diz ex-espião

Disputa entre Huawei e Trump já é chamara de nova Guerra Fria - Getty Images
Disputa entre Huawei e Trump já é chamara de nova Guerra Fria Imagem: Getty Images

Do UOL, em São Paulo

18/05/2019 13h05

A chinesa Huawei, empresa chinesa líder em equipamentos de telecomunicação, representa um grave risco de segurança para o Reino Unido, e o governo deve impedi-la de participar na construção de redes 5G, disse nesta semana o ex-chefe do serviço britânico de espionagem MI6.

"Espero sinceramente que haja tempo para o governo do Reino Unido reconsiderar a decisão da Huawei", disse Richard Dearlove, chefe do Serviço Secreto de Inteligência de 1996 a 2004.

O ex-espião, que passou 38 anos na inteligência britânica, disse ser muito preocupante que o governo britânico "pareça ter decidido colocar o desenvolvimento de sua infraestrutura crítica mais sensível" nas mãos de uma empresa chinesa. "Não devemos ser influenciados pela ameaça do custo econômico de atrasar o 5G ou ter que se contentar com um provedor menos capaz e mais caro", disse ele, em relatório da Henry Jackson Society.

A capacidade de controlar as comunicações e os dados que fluem através de seus canais será o caminho para exercer poder sobre as sociedades e outras nações
Dearlove

Guerra comercial

Na quarta-feira (15), o governo dos Estados Unidos desferiu os dois mais sérios golpes contra a Huawei. Em questão de horas, a Casa Branca publicou duas medidas que praticamente inviabilizam a gigante chinesa de fazer negócio com empresas norte-americanas.

Esse é o lance mais quente da escalada de ações dos norte-americanos contra a empresa, acusada de ser usada pelo governo chinês para espionagem cibernética, de roubar propriedade intelectual e de ter descumprido um embargo comercial imposto ao Irã.

Fornecedora de itens necessários para construir redes de telecomunicação, a Huawei lidera a adoção de 5G no mundo. A tecnologia móvel de quinta geração é não só a sucessora do 4G mas também a aposta da indústria para conectar todo tipo de dispositivo. As outras concorrentes nesse segmento são Ericsson e Nokia, que devem ser as fornecedoras do 5G norte-americano.

Para a Huawei, a limitação é infundada e pode ajudar a escalar a já grave crise entre EUA e China:

Restrições sem razão infringirão os direitos da Huawei e levantarão outras sérias questões legais

A Huawei também é uma das maiores fabricantes do mundo de smartphones. Apesar de mirar o segmento de telecomunicações da companhia, a decisão da gestão Donald Trump deve também respingar sobre o outro braço de negócios, justamente no momento em que a chinesa está prestes a desbancar a norte-americana Apple do posto de segunda maior vendedora de celular do planeta.

Como a treta China x EUA pode afetar sua banda larga.

Guerra da internet móvel

Por que a Huawei não pode vender?

Um dos golpes contra a Huawei foi desferido por um documento assinado por Trump em pessoa. Sem citar a chinesa, ele proibiu que empresas norte-americanas e agências da administração pública federal comprem seus produtos ou contratem seus serviços.

Em uma ordem diretiva, Trump colocou os EUA em estado de "emergência nacional" para proibir a compra de equipamentos de telecomunicação estrangeiros que coloquem em risco a segurança nacional. Na prática, essa decisão deu à Casa Branca poder para interferir em negócios privados.

A aquisição ou uso irrestrito nos Estados Unidos de tecnologias e serviços de informação e comunicação projetados, desenvolvidos, fabricados ou fornecidos por pessoas de propriedade, controladas ou sujeitas à jurisdição ou direção de adversários estrangeiros aumenta a capacidade de adversários estrangeiros para criar e explorar vulnerabilidades na tecnologia ou serviços de informação e comunicação, com efeitos potencialmente catastróficos e, portanto, constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos
Donald Trump, presidente dos EUA

Como a restrição vale apenas para equipamentos de telecomunicação, está barrada, por exemplo, a venda de antenas de 3G, 4G e 5G da Huawei nos EUA. Em tese, não impacta os celulares, apesar de já haver um veto informal na administração pública aos smartphones da chinesa.

Para a Huawei, são os EUA quem serão prejudicados ao impedir a atuação de empresas estrangeiras em áreas essenciais:

Estamos prontos e dispostos para debater com o governo dos EUA e propor medidas efetivas para garantir a segurança do produto. Restringir a Huawei de fazer negócios nos EUA não tornará os EUA mais seguros ou mais fortes, servirá apenas para limitar os EUA a alternativas inferiores e mais caras, deixando o país atrasado na implantação do 5G e, eventualmente, prejudicando os interesses das empresas e consumidores americanos.

Por que os EUA fizeram isso?

Essa medida foi tomada porque as autoridades norte-americanas suspeitam que a Huawei permita que seus equipamentos sejam usados pelo governo chinês para espionar adversários políticos, como os EUA. Elas acreditam que a empresa e o governo possuem uma conexão que, apesar de nebulosa, é muito próxima. Até abril deste ano, essa era uma cisma sem fundamento. Até que o jornal britânico "The Times" informou que a CIA, a agência de inteligência norte-americana, possuía provas da ligação.

Uma fonte anônima disse ao jornal que a Huawei "recebeu financiamento de agências do aparato de segurança estatal de Pequim". Segundo a publicação, a agência mostrou à Grã-Bretanha que a Huawei recebeu dinheiro do Exército Popular de Libertação, da Comissão Nacional de Segurança da China e de um terceiro ramo da rede de inteligência do estado chinês.

Ainda que o financiamento vindo de órgãos estatais não signifique necessariamente que haja interferência governamental - a própria CIA apoia startups financeiramente --, esse foi o primeiro ponto de contato apontado de fato entre Huawei e governo chinês.

Por que a Huawei não pode comprar?

O segundo dos golpes foi desferido pelo Departamento do Comércio dos EUA. O órgão incluiu a Huawei e 70 de suas afiliadas a uma espécie de "lista negra" do comércio. Com isso, a empresa fica impedida de comprar componentes que tenham alguma tecnologia norte-americana, a não ser que consiga uma licença específica do governo norte-americano.

Essa autorização, porém, não é concedida caso o negócio afete a segurança nacional ou os interesses da política externa dos EUA.

Essa ação do Escritório de Indústria e Segurança do Departamento de Comércio, com o suporte do presidente dos Estados Unidos, coloca a Huawei, uma empresa chinesa que é a maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo, na Lista de Entidades. Isso impedirá tecnologias americanas de serem usadas por entidades estrangeiras de forma que potencialmente mine a segurança nacional dos EUA ou os interesses de nossa política externa
Wilbur Ross, secretário do Comércio

Esse movimento tem o poder de atrapalhar bastante os negócios da Huawei, já que produtos tecnológicos são construídos com uso intenso de componentes vindos de todas as partes do mundo. Isso poderá acontecer ainda que a Huawei, em algumas áreas, tenha se tornado independente de tecnologia norte-americana. Ela já equipa, por exemplo, seus smartphones com chips Kirin, de fabricação própria, enquanto boa parte da indústria se apoia no Snapdragon, da Qualcomm.

Por que fez isso?

Essa decisão teve motivação diferente da ordem assinada por Trump. Ela foi tomada em represália às acusações de que a Huawei cometeu fraude bancária ao violar as sanções comerciais impostas pelos EUA ao Irã e roubou segredos comerciais de uma empresa americana, a T-Mobile.

Em janeiro deste ano, o Departamento de Justiça abriu um processo na Justiça para a Huawei responder a essas alegações, mas ainda não há uma decisão sobre o caso. Segundo as autoridades americanas, a Huawei e suas filiais atuaram por mais de uma década de forma "fraudulenta" para cometer uma série de crimes como fraude bancária, violação de sanções, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça.

Foi a investigação sobre essa situação que levou o Canadá a deter em dezembro do ano passado Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei. Como ela é também a filha do fundador da empresa, esse havia sido até agora o episódio mais preocupante dos esforços movidos pelos EUA contra a Huawei. (Com Reuters)

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