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Pergunta pro Jokura


Qual foi o 1º vírus de computador? Spoiler: ele veio bem antes da internet

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL
Tiago Jokura

Tiago Jokura é jornalista e, portanto, curioso profissional. Passou os últimos 15 anos respondendo as dúvidas mais complexas e inusitadas dos leitores na mídia impressa ? na tentativa infinita de explicar como o mundo funciona com clareza e bom humor. Agora, continua essa saga aqui no UOL. Mande sua pergunta cabeluda que ele faz questão de pentear.

11/11/2019 04h00

Pergunta de Laryssa Figueiredo, de Itaitinga (CE) - quer enviar uma pergunta também? Clique aqui.

Salve — e proteja seus dados —, querida itaitinguense, que essa história de vírus de computador é mais antiga do que parece. O primeirão é o Creeper (trepadeira, em tradução livre), de 1971. Batizado em homenagem a um vilão do desenho animado do Scooby Doo, o vírus primordial foi desenvolvido pelo americano Bob Thomas. E ele se comportava de acordo com a definição clássica de vírus: um programa que se replica automática e inconvenientemente, sem ninguém solicitar. Ele se espalhava por computadores mainframe DEC PDP-10 — aqueles gigantescos, da altura de uma parede — conectados pela ARPANET, uma versão jurássica da internet.

O Creeper, porém, era inofensivo, incapaz de causar danos aos dados das máquinas ou dos discos que ele infectava. Sua única marca era exibir na tela a frase "I'm the creeper: catch me if you can" ("Sou o Creeper: pegue-me se for capaz"). Apesar da inofensividade, o Creeper estimulou a criação do primeiro antivírus, o Reaper (ceifador), pelo também americano Ray Tomlinson — nada mais, nada menos do que o inventor do e-mail.

Já o conceito de "vírus" apareceu muito antes, embora ainda não fosse chamado assim. Em 1949, o matemático húngaro-americano John von Neumann compilou o conteúdo de palestras que ele ministrou na Universidade de Illinois no artigo "Teoria dos autômatos autorreproduzíveis".

No mundo dos computadores pessoais, por sua vez, essa contaminação só começou em 1982. E o pioneirismo foi, mais uma vez, da Apple. O americano Richard Skrenta tinha só 15 anos quando escreveu as 400 linhas do Elk Cloner e escondeu o programa em um disco de inicialização (boot) usado para ligar computadores Apple II. Nessa época, Laryssa, não era só apertar um botão para o computador ligar e rodar seus aplicativos favoritos: a cada vez que se ligava o computador, era preciso inserir um disco de boot para "dar partida" na máquina.

Para espalhar seu software autorreplicável pelas máquinas de seus amigos, Skrenta plantou a sementinha no computador da escola. Quem inserisse um disco flexível na máquina para rodar qualquer software sem ter dado reboot antes de começar, "pegava" o Elk Cloner. Quando o disco era inserido em outro computador, o vírus se instalava. Ele ficava escondidinho e só se manifestava a cada 50 vezes que o computador infectado era iniciado, exibindo o seguinte poeminha na tela:

"The program with a personality
It will get on all your disks
It will infiltrate your chips
Yes, it's Cloner!
It will stick to you like glue
It will modify RAM too
Send in the Cloner!"

A essa altura da história da computação, o fenômeno era tão novo que ainda nem tinha nome. Foi só em 1983 que o termo "vírus" apareceu pela primeira vez para batizar criações como as de Thomas e de Skrenta. O autor da terminologia foi o então estudante Fred Cohen, da Universidade do Sul da Califórnia. Fred publicou o artigo "Vírus de Computador - Teoria e Experimentos" e demonstrou como um programa escondido poderia se espalhar por outras máquinas rapidamente.

O batismo era o que faltava para o primeiro vírus de alcance mundial aparecer. Em 1986, os irmãos paquistaneses Basit e Amjad Farooq Alvi, donos de uma loja de computadores em Lahore, estavam incomodados com cópias piratas de softwares criado por eles. Para intimidar os copiadores, os paquistaneses criaram e instalaram um programinha chamado Brain em cada disco que comercializavam.

Quando um disco dos Alvi era copiado, o software exibia nome, telefone e endereço dos irmãos na tela para que o proprietário comprasse o produto original. Mas a ética dos Alvi era diferente para softwares de terceiros: os paquistaneses vendiam versões piratas de tudo quanto era software gringo. Bastou um turista estrangeiro de passagem por Lahore comprar um desses discos dos Alvi e repassar para alguém copiar e pronto: o Brain estava solto para dominar o mundo, se espalhando para qualquer máquina em que o disco fosse inserido.

Não demorou para que os Alvi começassem a receber ligações do Reino Unido e dos EUA, com pessoas raivosas alegando problemas em seus hardware, dados perdidos etc. O Brain viralizou tanto que os irmãos viraram até tema de reportagem até no New York Times. A confusão não fez nada mal aos negócios: a lojinha dos Alvi virou o Brain Net, maior provedor de internet do Paquistão, ainda localizado no 730 Nizam Block, Allama Iqbal Town, Lahore, Paquistão — endereço que pipocava na tela de quem rodava os softwares piratas deles.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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