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Para onde o mundo vai

Com uso de dados, planos de saúde devem virar "coach" dos pacientes

Pressfoto/ Freepik
Imagem: Pressfoto/ Freepik
Daniel Schultz, Monica Matsumoto e Shridhar Jayanthi

sobre os colunistas

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. É formada em engenharia pelo ITA, doutora em ciências pela USP e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi

Shridhar Jayanthi é agente de patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO). Tem doutorado em engenharia elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de engenheiro de computação pelo ITA. Atualmente, trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

22/11/2020 04h00

Saudável ou não, tratar o indivíduo com todas as suas facetas tem trazido muitas propostas novas no campo de batalha dos planos de saúde.

Existem pelo menos três aspectos importantes. De um lado, manter uma pessoa hígida (saudável) requer olhá-la como um todo. Por outro lado, quando temos alguma enfermidade, ela requer um manejo adequado para diagnóstico e tratamento. O terceiro aspecto, importante a todos os stakeholders, é o custo: quanto mais custo-eficiente em termos de gastos para o paciente, para o médico, para os centros de saúde como hospitais e para o plano de saúde, melhor.

Alguns desafios estão sendo encarados de uma nova forma, e a tecnologia tem colaborado enormemente. Vamos olhar para alguns deles:

  • Exames de imagem, exames sorológicos, laudos dos pacientes, entre outros, ficam "perdidos" quando se passam de um profissional a outro, de um centro de saúde a outro;
  • Nem todos os médicos estão atualizados em novas pesquisas e protocolos, e existe uma variação enorme na direção do atendimento;
  • Nem sempre o manejo do paciente olha para o desfecho clínico. Na avaliação clínica, pode-se olhar para parâmetros como o estágio da evolução da doença, intercorrências ou sobrevida. Do ponto de vista do paciente, pode-se avaliar a percepção de melhora do estado de saúde, doenças correlatas como depressão, ou qualidade de vida.

E onde entra a tecnologia?

Passos importantes são a digitalização dos dados médicos e a portabilidade dos dados. Existem diversas oportunidades para mudar os processos de gestão e aquisição desses dados, e os grandes centros médicos já estão se digitalizando. Fazer isso na cadeia toda não é fácil, envolve atualizar as tecnologias desde o posto de saúde e consultório médico a um centro terciário especializado.

Por incrível que pareça, outro aspecto antes esquecido era o paciente. Pensar no paciente, nas suas necessidades de acolhimento, ouvir esclarecimentos, ter agilidade para marcar consultas e exames, receber a notícia de uma doença, topar um tratamento, entre outras interações. Essa jornada só o paciente percorre. A experiência do percurso pode ser melhorada, especialmente nas relações humanas, que podem ser direcionadas.

Por último, adicionar ao processo métricas de avaliação de desfecho é um passo essencial. Como saber se um tratamento foi bem, de ponta a ponta? Como saber se o paciente tem outras queixas? Como saber se houve melhora ou piora da qualidade de vida como um todo? Esses pontos fazem parte de uma avaliação importante de desfecho clínico e podem ser incorporados na avaliação.

Com toda a digitalização, finalmente pode-se ter volume de dados, e nesse ponto os agregadores de informação têm grande vantagem. Com eles, podemos analisar condutas médicas, protocolos de atendimento, manejo da doença, eficácia de fármacos, entre outros, e saber quais os caminhos mais eficazes com relação a desfecho e também mais custo-eficientes.

Doenças crônicas e medicina do estilo de vida

Nas últimas décadas houve uma mudança rápida do perfil populacional. As pessoas têm uma expectativa de vida maior, e o perfil das doenças hoje são diferentes também. Doenças crônicas como obesidade, diabetes, hipertensão, Alzheimer e transtornos mentais acompanham o paciente durante grande parte de sua vida.

Uma das novas estratégias da medicina é fazer a prevenção, não no estilo check-up com muitos exames, mas com a adaptação do indivíduo a um estilo de vida melhor. Essa é a nova modalidade de medicina do estilo de vida.

Nesse olhar, a alimentação, prática de atividade física, qualidade do sono e gerenciamento do estresse, entre outros estão no centro do palco, como um tratamento a longo prazo. E isso só pode ser atingido com uma orientação interdisciplinar, com nutrólogos, educadores físicos, profissionais de saúde mental... Assim, o futuro da medicina pode estar no "coach" de uma equipe, que tornará a jornada do paciente menos árdua.

Novos atores do setor de saúde suplementar prometem mudar a perspectiva dos usuários de planos de saúde sobre como utilizam seus benefícios.

Como discutimos acima, uma estratégia é o paciente, ao invés de recuperar a saúde, manter-se saudável e assim planejar melhor os recursos necessários para ter assistência garantida até a velhice sem os conhecidos enormes reajustes por faixa etária. É como se houvesse um "coach" de saúde personalizado para suas necessidades.

Sami e Alice estão entre essas health techs. Essas empresas novas no mercado já receberam aporte de dezenas de milhares de reais. Nos Estados Unidos, a empresa Oscar Health, influenciada pelos novos incentivos pagos pelo sistema Medicare, foi a inspiradora desse tipo de modelo.

Uma dessas empresas usa análise de dados para tornar a jornada dos pacientes mais eficiente, definindo, por exemplo, o melhor médico para cada necessidade com base em dados e indicadores. Depois, usa a telemedicina para fazer os atendimentos básicos — eliminando idas desnecessárias a clínicas e hospitais. E por fim, tenta melhorar a conduta dos médicos e hospitais mudando o sistema de incentivos e remuneração.

Outra empresa quer inovar oferecendo experiência digital impecável, um relacionamento forte com os segurados pelo time de saúde e uma rede credenciada de qualidade num modelo de value-based healthcare (assistência médica baseada em valor).

Em vez do tradicional modelo que cobra por cada utilização ou procedimento, esse modelo é monetizado de acordo com algumas métricas que levam em conta o desfecho e a excelência do atendimento.

O acompanhamento dos segurados por um time de saúde personalizado promete ajudá-los a se manter mais saudáveis e a navegar pela rede de atendimento. Para navegar no sistema de saúde, pode-se também ofertar planos modulares, oferecendo personalização para o cliente que poderá escolher os hospitais, laboratórios e médicos que vão compor seu plano.

Com ofertas de modelos diferentes de plano, o paciente pode ter grande influência no mercado e decidir qual plano se encaixa melhor para sua necessidade. Além do atendimento médico, uma vez informado, o paciente vai poder olhar para sua jornada, ter um atendimento custo-eficiente e baseado em evidências científicas. Para isso, precisamos de uma articulação melhor dos indivíduos para que as tecnologias e métricas usadas coloquem de fato os pacientes no centro do atendimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL