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O terror em The Last of Us 2 está onde menos se espera

The Last of Us Part II - Reprodução
The Last of Us Part II Imagem: Reprodução

Makson Lima

Colaboração para o START

05/07/2020 04h00

The Last of Us Parte II é um jogo tenso. Muito, muito tenso. Ainda que haja recursos o bastante para contornar muito dessa tensão também inerente ao gameplay em si (e não só a trama, espumando raiva a cada momento), é perfeitamente possível personalizar sua experiência para fazer dessa tensão o holofote central.

E o terror, de forma direta e visceral, faz parte do pacote como aquele diabo de vermelho e com chifrinhos sussurrando profanidades no ouvido: "vai, Ellie, só mais um - -mata só mais um".

O medo do desconhecido

The Last of Us Part II - Reprodução - Reprodução
É sobre contrastes - a branquidão da neve e o vermelho do sangue
Imagem: Reprodução

"A emoção mais forte e primitiva do homem é o medo, e o medo mais forte e primitivo é o medo do desconhecido", já dizia o escritor de Providence, criador dos mitos mais populares da literatura de horror, Howard Phillips Lovecraft.

E por mais que já estejamos um tanto familiarizados aos horrores do universo de The Last of Us, Ellie, agora transformada em máquina assassina, deixa a segurança de um onírico lar, rumo ao desconhecido.

Houve o gatilho para a aventura acontecer, mais forte e pulsante do que nunca antes, mas o objetivo final encontra-se em terras não desbravadas, cujos perigosos são totalmente enuviados.

Os infectados por cordyceps são, sim, o pano de fundo para feridas mais profundas, mas, como dizia o cineasta George Romero: "sempre pensei nos zumbis como sendo a revolução, uma geração consumindo a próxima."

The Last of Us Part II Zumbi ataca Abby - Reprodução - Reprodução
Momentos antes da desgraça acontecer
Imagem: Reprodução

O desconhecido de Lovecraft, para Ellie, poderia alcançá-la a qualquer momento. Ela sempre soube do real intento de seu protetor, do momento que a mentira foi proferida antes de chegarem a Jackson, culminando no descer daquelas malditas escadas, rumo ao irreversível. Cada degrau, o peso de toda uma vida.

E faz todo sentido quando olhamos The Last of Us Parte II sob a lupa de um microscópio que já contemplou o macrocosmo do horror em suas mais diversas frentes. Quando o medo particular, queimando por dentro, controla suas ações como um títere débil, é quando o terror aflora e se torna produto de seu tempo, e um tanto orgulhoso.

A roteirista Halley Gross, da primeira temporada de Westworld e a grande responsável por tornar The Last of Us Parte II numa das maiores obras de videogame de nossos tempos, sabe disso melhor do que ninguém.

Nada é capaz de nos livrar do terror particular, nem a condição mais perfeita de vida, aquela idealizada em utopia, pois o passado sempre nos alcança e os pesadelos, ranger de dentes, gritos e sussurros jamais nos deixam. O ódio consome e não deixa nada para trás.

The Last of Us Part II ação e reação - Reprodução - Reprodução
Ação mais reação é igual a retaliação
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O significado da "Parte II"

Na brilhante matéria de Sam White para a GQ-Magazine, o diretor e corroteirista Neil Druckmann fala sobre seu filme favorito e como está atrelado ao "Parte II" do título.

O Poderoso Chefão Part II Michael e Vito Corleone - Reprodução - Reprodução
Al Pacino (Michael Corleone) e Robert de Niro (Vito Corleone) em O Poderoso Chefão Parte II
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Não vem à toa, pois trata-se de bem mais que singela homenagem ao capítulo do meio de uma das trilogias mais importantes da história do cinema: O Poderoso Chefão.

Nela, temos duas tramas acontecendo em paralelo: a ascensão de Michael Corleone como sucessor de seu pai, e a vida passada de Vito na Sicília. Vito Andolini se torna Vito Corleone porque os horrores da vida real chegaram até sua família —causa e consequência— e o forçaram a se tornar a força motriz de algo desenfreadamente cruel para uns —ação e reação. Mas só para uns. Pinhead sempre soube: "Anjo para uns, demônio para outros".

O terror lida com contrastes como nenhum outro gênero, o que faz dele um tanto turvo na hora de etiquetar e colocar no lugar devido da prateleira. É sempre "alguma coisa de drama + terror" ou então "aquele tanto de sobrevivência + um punhado de horror".

Parece ultrajante, um tanto desmoralizante, mesmo que os monstros sejam por minuto. Mas o terror também é pura subversão, muitíssimo além da mera subjetivação, o que torna esse pequeno ato de rebeldia ainda mais interessante, assim como os mafiosos italianos.

The Last of Us Part II Ellie em vermelho - Reprodução - Reprodução
Ellie também saber fazer uma oferta irrecusável
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E por que fui do clássico de Francis Ford Coppola e Mario Puzo até a trajetória odiosa de Ellie? Porque, em ambos os casos, o fator humano, conquistado com muito esforço e um rastro de corpos e vísceras deixados para trás, se esvai por completo devido à eterna causa e consequência, a cobra que mordisca o próprio rabo num ciclo infinito de ação e reação.

E quase tão obscuro quanto o dito "mito familiar", de indivíduos cujo destino está traçado muito antes de chegarem ao mundo.

O terror lida com essa dificuldade de autoaceitação, auto entendimento, e faz alegoria (os cordyceps) para as camadas mais e mais profundas da psiquê humana/desumana (o ódio).

O terror em The Last of Us Part II

The Last of Us Part II - Reprodução - Reprodução
O clima de terror está presente em boa parte do jogo
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O mestre do terror, Stephen King, o mais prolífero e bem-sucedido escritor do gênero de toda a história, sempre gostou de categorizar o horror. É até contraditório, dada a vastidão das temáticas abordadas pela mente brilhante do Maine, mas vai fazer sentido para entender um pouco mais os horrores em The Last of Us Parte II. Prometo.

"O nojo: avistar uma cabeça decepada cambaleando escada abaixo, e é aí que as luzes se apagam e algo verde e pegajoso espirra em seu braço." O imaginário trazido pela leitura de uma linha dessas é uma constante na úmida Seattle.

Troque as peças (ou os membros) de lugar, ou a cor (e o grau de viscosidade) do líquido borrifado, e podemos começar a encontrar algum sentido no todo. Que fique claro o seguinte: não é sobre tripas ou vísceras, mas sobre sua importância na trama, a ênfase dada.

Quando Abby precisa de medicamentos, nem mesmo os perigosos desconhecidos de um porão infectado por anos e anos, seriam capazes de impedi-la de conseguir. Horror e terror, como dois lados de uma mesma moeda putrefata, são signos de antecipação e resposta, duas partes de um todo.

The Last of Us Part II Horror - Reprodução - Reprodução
Corpos putrefatos em toda a parte
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"O horror: o sobrenatural, aranhas do tamanho de ursos, os mortos levantando e andando por aí, é quando as luzes se apagam e alguma coisa com garras apanha você pelo braço." E quando o próximo se torna o "alguma coisa"? E quando a mão estendida vem com as tais garras?

Ficções sobre o fim do mundo, seja ela repleta de criaturas, desse ou de outro universo, ou de explosões e radiação, sempre oferecem abertura para que o mais horroroso da espécie humana, floresça.

É quando o sobrehumano, e a dita "violência pornográfica", se tornam tão banais que é, sim, o momento para uma autoanálise mais aprofundada (e com o auxílio de um profissional, evidentemente). Quando questionamos o real valor do terror em The Last of Us, é como se assumimos uma normalidade que, mais uma vez, reflete o ordinário de nossos tempos.

The Last of Us violência - Reprodução - Reprodução
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Stephen King, como ninguém, sabe das dificuldades de se assustar pessoas, ano após ano, década após década.

"E o último e pior de todos, o terror: que é quando você volta para casa e percebe que tudo aquilo que você possui, foi substituído por algo parecido. É quando as luzes se apagam e você sente algo logo atrás, você ouve, você sente sua respiração, e quando você se vira, não há nada lá".

Como Ellie poderia continuar a viver em Jackson depois do que aconteceu? Quando Ellie volta para casa, suas coisas estão todas lá. Ou não? O momento mais difícil em The Last of Us Parte II talvez seja o de despedida, quando Ellie assume o seu novo propósito e deixa para trás todas as mentiras reconfortantes, seja na forma de violão, de um moletom sujo ou de uma escultura de cavalo incompleta.

The Last of Us Parte II - Reprodução - Reprodução
O fim do que era familiar
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The Last of Us Parte II é, vez e de novo, um caminho sem volta e, quando se chega ao suposto objetivo final daquele ato ou daquela cena, nada mais é como antes. Nem mesmo quando Johnny Cash, com sua voz cheia de pesar, recita "eu só estou indo para casa". E, honestamente, não há nada mais aterrorizante do que isso, a perda do familiar.

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