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Em tempos de coronavírus, Plague me fez ter mais empatia pela humanidade

Cenário desolador em Plague Inc: o vírus já contaminou quase o mundo inteiro - Divulgação
Cenário desolador em Plague Inc: o vírus já contaminou quase o mundo inteiro
Imagem: Divulgação

Bruno Araujo

Colaboração para o START

05/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Game de simulação de doenças causou controvérsias em 2020, quando a pandemia virou realidade
  • Proposta do jogo é criar vírus e bactérias, evoluindo e promovendo mutações até se espalhar pelo mundo todo
  • Plague Inc. também ganhou um cenário de Fake News: crie a sua própria mentira elaborada para tentar destruir a democracia na Terra

O nazismo foi um movimento da esquerda, a Terra é, na verdade, plana, e os comunistas querem tomar o poder espalhando uma doença que confere ao cérebro humano a textura de um bolo de chocolate.

Essa foi a minha primeira fake news oficial, batizada de "cerebrowniecite", e poderia ser só mais uma tosquice que circula com credibilidade pela internet na era da pós-verdade. Mas com a ajudinha de Plague Inc., jogo que simula pandemias, a arte imita muito a vida e fica extremamente real.

Cerebrownie - Reprodução - Reprodução
Cerebrowniecite: uma fake news na área da saúde, criada por fascistas para derrubar a democracia
Imagem: Reprodução

Pois eu inventei um absurdo, usei dinheiro e influência para fazer o mundo inteiro cair no disparate e encaminhei a sociedade moderna rumo à falência total.

Depois, ainda brinquei de Deus ao contrário e desenvolvi uma bactéria que surgiu na Austrália, chegou aos Estados Unidos em oito meses e, menos de um ano depois, matava milhões de pessoas diariamente em todo mundo.

Isso não é coisa que se fale em voz alta em meio a ondas crescentes de desinformação e em plena crise do coronavírus. Mas o pior é que foi... divertido. E o mais importante: foi uma experiência enriquecedora, chocante e que ensinou muito. Plague Inc. me fez ter mais amor e empatia pela humanidade.

Plague Inc. tem doses de estratégia e simulação. E apesar de poder causar reações opostas, de um lado por alguns cenários mais "zueira" de epidemias de zumbis e vampiros, do outro pela forma calculista com que trata a expansão das doenças, o game chamou a atenção das pessoas certas

Plague Menu - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Virose Tycoon

Lançado primeiro para smartphones em 2012, Plague Inc. tem como objetivo criar e evoluir uma doença (transmitida por vírus, parasitas, e outros agentes), transformá-la num surto global e erradicar a população da Terra.

Você pode gastar pontos de DNA para adaptá-la ao clima e à condição sócio-econômica de uma região que ainda não tenha sido afetada. Ou alterar seus sintomas para torná-la mais transmissível ou letal.

Equilibrar essas variáveis é crítico para se dar bem — ligeiramente mórbido, mas não tem outro jeito de falar. Se a sua enfermidade causar reações muito graves no corpo humano, mas não matar com rapidez, irá chamar a atenção de médicos de todo o mundo e uma cura será pesquisada. Game over.

Plague partido - Reprodução - Reprodução
"Convença um partido político para adotar a desinformação como parte de sua agenda política": uma das opções de "evolução" das fake news
Imagem: Reprodução

Mas se a doença for exageradamente mortal, acabará eliminando o último infectado antes do resto das pessoas serem contaminadas. E aí já era também.

Plague Inc. tem doses de estratégia e simulação. E apesar de poder causar reações opostas, de um lado por alguns cenários mais "zueira" de epidemias de zumbis e vampiros, do outro pela forma calculista com que trata a expansão das doenças, o game chamou a atenção das pessoas certas. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças, agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, chegou a convidar James Vaughan, criador do jogo, a falar sobre como Plague Inc. poderia ajudar a sensibilizar a população em questões de saúde pública.

Tudo muito bem, deve ter pensado o CDC na ocasião, quem sabe esse joguinho de celular não se torne uma maneira pouco ortodoxa de conscientização sobre, sei lá, um dia talvez, lá na frente, se pá, mas melhor não, mas vai que né, uma pandemia terrível que assole o planeta. Hipoteticamente falando, é claro.

Pois bem, esse dia infelizmente chegou. E revisitar Plague Inc. proibido de sair na rua (com razão, vale lembrar), sob a ameaça de um vírus que, segundo a universidade Johns Hopkings, contaminou mais de 846 mil pessoas e matou 41 mil pelo mundo até esta terça-feira (31), pode ser bem desconfortável.

Humanidade restaurada

O mal-estar surge sem rodeio, mas não notei de cara por estar desacostumado à lógica do jogo. É que a primeira coisa a se fazer depois de começar uma partida de Plague Inc. é escolher um lugar para iniciar a pandemia. Instintivamente, fui nos países de terceiro mundo. Lamentavelmente, fez sentido. Boa parte deles tem um atributo a favor do jogador, um buff que, ao ser combinado com certos upgrades da doença, aumenta a taxa de contaminação.

Primeiro, o Brasil, muito provavelmente por uma necessidade às avessas de representatividade. Fracassei. Tornei minha bactéria notória muito cedo, e uma cura foi desenvolvida e distribuída em massa.

Depois, a Argentina, num eco imbecil de rivalidade. Perdi de novo. As fronteiras aéreas e marítimas da Nova Zelândia foram fechadas antes que a enfermidade chegasse lá. Onde foi mesmo que vi essa recomendação?

Plague Mapa - Divulgação - Divulgação
A escolha do país por onde começar é importante: clima, fronteiras e aspectos culturas influenciam no grau de contágio da doença
Imagem: Divulgação

Na terceira tentativa, escolhi a Ucrânia, um país mais centralizado no mapa do jogo. O fato da região ser rural, úmida e fria também ajudou. Afinal, são três formas adicionais de transmitir a doença.

A disseminação rolava de maneira ok pela área ao redor, mas deu uma leve empacada conforme se aproximava do Oceano Atlântico. Surge uma janela com uma mensagem que dizia algo como: "países ricos têm remédios melhores. Cogite desbloquear Resistência a Drogas 1 para melhorar sua efetividade por lá". Ah. Entendi o que você está querendo me dizer.

O estúdio Ndemic Creations, desenvolvedor do jogo, afirma que ele não tem qualquer caráter científico ou estatístico. Mas algumas coincidências são tão incríveis que desafiam o bom senso.

Plague Sintomas - Divulgação - Divulgação
Você pode evoluir os sintomas da doença de acordo com as reações ao redor do mundo
Imagem: Divulgação

A impressão é que, em qualquer outro momento da nossa história, essas pequenas regrinhas cruéis ou passariam batido, ou seriam tratadas apenas como condições, ou serviriam somente de um mero lembrete de como "o sistema é foda, parceiro". Mas com o coronavírus batendo à nossa porta, causando milhares de mortes e deixando sistemas de saúde em frangalhos, Plague Inc. fica incontáveis vezes mais intenso e reflexivo.

O estúdio Ndemic Creations, desenvolvedor do jogo, afirma que ele não tem qualquer caráter científico ou estatístico. Mas algumas coincidências são tão incríveis que desafiam o bom senso.

Minha primeira "vitória" veio de uma epidemia que partiu da Austrália. Um país difícil de começar, sem acesso por terra, e com o debuff de ser rico. A doença levou vários meses para chegar a outra área, e felizmente (só que não?) foram os Estados Unidos, do outro lado do mundo. Mas a parada só ficou séria numa região que infelizmente ocupa as manchetes dos jornais desde dezembro de 2019.

Em Plague Inc., a China não tem nenhum debuff. Pior: o país é o maior com o buff de área urbana, tornando-o um prato cheio para a transmissão por roedores. Como a primeira atualização havia sido comprada ainda na Austrália, as duas seguintes fizeram com que a doença se espalhasse como erva daninha pela China e alcançasse rapidamente o território russo e da Europa Ocidental.

Outra coisa que determinou meu primeiro triunfo foi a paciência. Minha terceira bactéria já havia sido identificada pela medicina, mas tinha baixíssima taxa de mortalidade, o que evitou que ela entrasse para a lista de observação da Organização Mundial da Saúde. Evoluí a doença lentamente, acumulando pontos de DNA, até que estivesse espalhada por quase todo o mundo. Só então ativei várias mutações ao mesmo tempo que elevavam drasticamente sua letalidade. Em questão de meses, a humanidade estava erradicada.

Apesar do uso da palavra, a tela de vitória de Plague Inc. não exala esse sentimento. Ícones de risco biológico surgem sobre um fundo vermelho sangue. E embaixo, a frase "BRUT-1 (minha bactéria) eliminou com sucesso toda a vida na Terra".

Plague Inc. não é ciência, mas ele consegue ser cristalino em reproduzir as condições que geram o sofrimento e a dificuldade que vemos diariamente na televisão, nos jornais e na internet

Plague Vitória - Reprodução - Reprodução
Triste vitória: minha bactéria acabou com a vida na Terra
Imagem: Reprodução

É claro que o jogo pode ser curtido numa camada superficial. Pois é divertido acumular recursos, evoluir e ver seus investimentos dando retornos para seu objetivo, seja ele qual for.

Mas o que realmente é interessante, e deve surgir em boa parte das pessoas ainda mais nos tempos em que vivemos, é esse poder civilizatório de Plague Inc. É essa estranheza de ter que comemorar a derrota da raça humana enquanto ela está enfrentando uma batalha duríssima na vida real.

E foi aí que eu parei para lembrar do caminho que me levou até ali, no que precisei fazer para minha bactéria sobreviver, se espalhar e porquê, e bom, concordo que Plague Inc. não é ciência, mas ele consegue ser cristalino em reproduzir as condições que geram o sofrimento e a dificuldade que vemos diariamente na televisão, nos jornais e na internet.

Jogar Plague Inc. em meio ao coronavírus me fez refletir que isso pode acontecer com a gente. Está acontecendo. E eu não quero. Eu amo meus amigos, amo minha família, amo poder fazer o que gosto e amo ter como escrever esse texto. E a gente precisa lutar por isso da forma que podemos. Ficando em casa, protegendo os mais velhos e atendendo as recomendações das autoridades responsáveis.

No tocante da questão

Fake News - Reprodução - Reprodução
No cenário de Fake News, o "inimigo" é a verdade, auxiliada pelas agências de checagem de fatos
Imagem: Reprodução

Como se não bastasse ser uma ferramenta moral e educacional sobre pandemias, Plague Inc. também tem trabalhado com outra ferida recente da sociedade. Desde dezembro de 2019, o jogo conta com um cenário cujo objetivo é criar e espalhar a sua fake news.

São as mesmas mecânicas do jogo tradicional, substituindo mortos, infectados e curados por enganados, ignorantes e informados. Por isso, não espere por nenhuma experiência muito diferente da usual.

Na realidade, é até um pouco decepcionante a falta de ambição de algumas configurações. Isso porque você escolhe um manifesto para sua fake news — tema, grupo que iniciou, motivação e grupo que será culpado — mas ele não influencia em nada o desenrolar da partida e serve só como um flavor seu.

O que realmente pega, e dá um nó na cabeça, são as maneiras que o jogo oferece para expandi-la e transformá-la, eventualmente, na verdade.

Pois eu inventei um absurdo, usei dinheiro e influência para fazer o mundo inteiro cair no disparate e encaminhei a sociedade moderna rumo à falência total.

Plague Macacos - Divulgação - Divulgação
Macacos inteligentes formaram uma colônia no Cazaquistão
Imagem: Divulgação

E apesar da maioria das opções de crescimento não soarem como algo que eu nunca tenha ouvido antes, ver elas de uma forma gamificada, podendo "pagar" para executá-las e vencer o cenário me deixou absolutamente paranoico.

Tudo começa com o boato, o boca a boca. Mas rapidinho evolui para "bots para curtir e compartilhar automaticamente grandes quantidades de desinformação", "equipes de pesquisa para encontrar citações de pessoas influentes que podem ser usadas fora de contexto" e até "partidos políticos para adotar a desinformação como parte de sua agenda política". Aí já é demais. Aí deu gatilho.

Reportagens e denúncias mundo afora já deixaram claro que as fake news são financiadas. Mas Plague Inc. transforma isso em jogo. E os players envolvidos no "por quem" e no "por quê" fazem de pensar nisso um caminho sem volta.

E o cenário foi desenvolvido em parceria com a PoliFact e a Full Fact, agências internacionais de checagens de fatos, então dá pra dizer que os caras sabem bem como é que costuma-se espalhar uma informação falsa.

Assim como no modo de jogo principal, notícias pipocam de tempos em tempos incendiando ainda mais o parquinho. Manchetes como a "cerebrowniecite" já é mais popular que o terraplanismo ou o movimento anti-vacinas realmente não me ajudam a dormir, sabe.

Eventualmente, agências de checagens de fatos aparecem para retardar o progresso das suas fake news. E lá vai você usar de métodos escusos para retardar seu progresso. Um deles, bastante perturbador também, é mudar o culpado em questão. E aí de novo você pensa: eu já vi isso em algum lugar.

Nós

Plague Inc. pode ter surgido oito anos atrás como um "e se..." meio de humor negro e que em certo ponto virou galhofa, incluindo até epidemias de macacos super-inteligentes — uma parceria com a Fox para divulgar o filme Planeta dos Macacos: A Guerra, em 2017.

Mas em meio à avalanche de fake news dos últimos anos e a crise do coronavírus, momentos que decidiram eleições no mundo inteiro e certamente alteraram a rotina da sociedade em definitivo, jogar Plague Inc. é em vários aspectos um baita tratado sobre fake news, em tantos outros uma lição de como surgem e como é possível evitar pandemias, e em todos eles a simples noção de que estamos todos nessa juntos.

A Ndemic Creations também trabalha em um novo cenário que subverte a lógica de Plague Inc. O objetivo agora será salvar o mundo e lutar contra uma epidemia letal que se espalha pelo planeta.

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