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"The Outer Worlds" é aventura fantástica em um futuro nada agradável

The Outer Worlds - Divulgação
The Outer Worlds Imagem: Divulgação

Rodrigo Lara

Colaboração para o START

25/10/2019 04h00

"The Outer Worlds" pode ser muitas coisas diferentes: uma novela sobre o capitalismo interplanetário selvagem, um parque de diversões para testar diversas abordagens para uma mesma situação, ou, no meu caso, um jogo que faz você se importar de verdade com os personagens. E como eu sentia falta disso.

Não só os personagens que acompanham você pelo mundo, mas também aqueles que podemos criar nos mínimos detalhes, tanto de aparência quanto de atributos. A Obsidian, famosa por contar boas histórias - e responsável por "Star Wars: Knights of the Old Republic II: The Sith Lords", "Fallout: New Vegas", "Pillars of Eternity", entre outros - não decepcionou aqui, e ainda conseguiu dar a "The Outer Worlds" uma personalidade que conquista o jogador desde o começo.

Seus melhores amigos

As influências de "The Outer Worlds" são várias, seja na estética, nos temas ou nos cenários. Quem passou horas, por exemplo, em "Fallout", "No Man's Sky" e até "Borderlands" e "BioShock", vai reconhecer traços de semelhança. O que não significa que ele não tenha personalidade: por trás da carinha bonita está um profundo sistema de RPG, diálogos, quests e caracterização de personagens.

Durante a aventura você terá a companhia de outras seis pessoas, cada um com suas histórias, características e habilidades distintas. Vejamos, por exemplo, o Vigário Max - o meu preferido. Por trás da imagem de homem santo, há um cara que tem atitudes nada divinas, mas que ao mesmo tempo não é uma pessoa ruim. E isso se repete com a engenheira Parvati, a médica Ellie e por aí vai.

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Imagem: Divulgação

São personagens complexos, tal qual a natureza do ser humano, e que ficam bem distantes daquele maniqueísmo que normalmente vemos em jogos de videogame. Mais do que pessoas tentando salvar o mundo em uma cruzada do bem contra o mal, os personagens de "The Outer Worlds" estão, acima de tudo, tentando sobreviver. Cada um a seu jeito.

Justamente por isso são cativantes. E, assim como achei o Reverendo Max o mais interessante, é bem possível se afeiçoar pela Parvati. Ou pela Ellie. Ou pelo Felix?

Se considerarmos apenas o nível de construção de personagem, "The Outer Worlds" já seria um game notável. Só que ele vai além.

Você é o mestre desse RPG

Depois de passar por um detalhadíssimo sistema de criação de personagem, no qual você determina não apenas a aparência, mas também os atributos iniciais e também detalhes do passado do seu personagem, você começa a entender o que está rolando nesse mundo.

Basicamente, seu herói só se manifesta por meio de linhas de diálogo escolhidas em menus de múltipla escolha. É aquela velha tática de criar uma conexão mais firme entre personagem e jogador etc e tal que nós bem conhecemos.

Há, porém, uma história comum: você é um sobrevivente de uma nave de colonização que ficou congelado por 70 anos, quando o normal seria bem menos tempo do que isso. Quem te acorda é Phineas Welles, um cientista que está com a cabeça a prêmio. E ele deixa claro que é um milagre você estar vivo após passar tanto tempo em sono criogênico. Pois bem, durante a sua soneca de beleza, você descobre que o mundo - ou melhor, Halcyon - passou por alguns eventos bem bizarros.

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O principal dele é que todo o sistema estelar é controlado por corporações rivais. E elas levaram o capitalismo às últimas consequências, o que, claro, transformou a vida das pessoas em um verdadeiro inferno. Para se ter uma ideia, durante a sua vida as pessoas precisam pagar para terem um enterro digno quando baterem as botas. Suicídio é considerado um crime, já que quem o comete está lesando a empresa onde trabalha - e que, com a sua morte, vai perder mão de obra. E por aí vai.

É claro que há todo um exagero e uma boa dose de caricaturização, mas a alegoria é válida em um momento no qual se discute cada vez mais sobre a finitude de recursos naturais e a relação entre pessoas e trabalho. Bem, pessoalmente, espero nunca chegarmos ao ponto retratado no game.

A sua meta é ajudar Welles a levar adiante uma verdadeira revolta do proletariado, uma virada de mesa na qual as pessoas passariam a ficar sobre as corporações, e não o contrário. E, para isso, viajará por vários planetas de Halcyon em busca de mais justiça para os habitantes.

Quer dizer, ao menos em tese, "The Outer Worlds" se desenvolveria dessa maneira, A questão é que, intencionalmente ou não, a Obsidian deu um ar de RPG de mesa ao game. Ao longo da jogatina, a impressão que se tem é que alguém está "mestrando" a aventura.

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Isso significa que você não apenas se surpreenderá com o desenrolar dos fatos, mas também será colocado diante de escolha diametralmente opostas. Suas ações podem definir o destino de cidades inteiras e até mesmo te colocar contra Welles que, em tese, seria o "mocinho" da história.

Da mesma forma, o jogador poderá se portar como um defensor dos fracos e oprimidos ou como um assassino sem escrúpulos. A maioria das situações do game podem ser resolvidas de maneiras diferentes. E, acredite: essas maneiras são as mais variadas possíveis e provocam reações até mesmo dos seus companheiros de jornadas, que podem te elogiar ou, até mesmo, te repreender pelos caminhos tomados.

Seja como for, prepare-se: você terá que ler e muito. Cada interação com personagens mais relevantes traz linhas e mais linhas de diálogos. Quem deixar a preguiça de lado será recompensado com uma história bastante rica.

Um bom jogo de ação

Ah, além de um verdadeiro simulador de interações humanas, "The Outer Worlds" também é um game de tiro em primeira pessoa competente e, nesse ponto, ele supera com larga margem outros trabalhos do gênero da própria Obsidian - oi, "Fallout: New Vegas", estou falando de você.

O armamento se divide em dois tipos principais: armas brancas e armas de fogo. Eu priorizei o segundo tipo, mas nada impede que você crie um personagem do tipo brutamontes, capaz de resolver as coisas de um jeito mais, digamos, olho no olho. Além disso, há as chamadas armas científicas, que causam efeitos bizarros, como diminuir os inimigos de tamanho.

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Permeando esse sistema está o TTD, sigla para Tactical Time Dilation. O jogo explica isso como uma sequela por você ter ficado tanto tempo congelado, mas basicamente esse é um poder que, quando está ativo, faz o tempo passar mais lentamente. É útil, por exemplo, para dar aquele belo headshot no meio de um acalorado tiroteio.

Lembra que eu falei que você ganha a companhia de até outros seis personagens durante a jornada? Pois bem, dois deles ficam ao seu lado durante a exploração do mapa. Além de controlar quais inimigos eles devem atacar, o jogador também pode usar ações especiais de cada um deles.

Conforme você ganha experiência - quase toda ação rende pontos de experiência em "The Outer Worlds" -, sobe de nível e ganha pontos para alocar em atributos. Há também uma espécie "involução contextual", que funciona assim: se você cair de alturas consideráveis por vezes seguidas, por exemplo, poderá aceitar uma penalidade que torna o seu personagem mais fraco para quedas. Em troca dessa característica negativa você ganhará um ponto de habilidade adicional.

Há também uma espécie 'involução contextual', que funciona assim: se você cair de alturas consideráveis por vezes seguidas, por exemplo, poderá aceitar uma penalidade que torna o seu personagem mais fraco para quedas

A jogabilidade agradável se junta ao visual, que chega a ser estonteante em alguns cenários, especialmente aqueles que são a céu aberto. Na versão testada (PlayStation 4), há leves quedas de frames em momentos específicos. Resta saber se é algo prévio ao típico patch de lançamento do jogo ou se é um sinal claro de cansaço do hardware da atual geração.

De maneira geral, "The Outer Worlds" pode ser considerado um verdadeiro "RPG ocidental raiz" e deve agradar tanto novatos quanto quem já se aventurou e gostou de outros games do gênero, como "Fallout" e até mesmo a série "The Elder Scrolls". A ideia de "seja quem você quiser" cai bem em uma narrativa intrincada, que acontece em um mundo distópico e é permeada por personagens complexos e cativantes.

É um game que faz uma proposta ao jogador: em troca da sua paciência para encarar as infinitas linhas de diálogo, "The Outer Worlds" oferece todas as qualidades citadas acima. Me parece bastante justo.

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Resumo

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RPG ocidental "de raiz", "The Outer Worlds" se concentra em contar uma boa história e oferecer possibilidades para o jogador - apesar de os trechos de ação serem bem legais também, coisa meio rara no gênero. É um game recomendado para quem tem tempo: você precisa conversar bastante e prestar atenção na história, provavelmente jogando diversas vezes para testar personagens diferentes. Mas pode entrar sem medo: temos aqui um dos melhores RPGs dos últimos tempos.

Lançamento: 25/10/2019
Plataformas: PC, PS4 e Xbox One (haverá versão para Nintendo Switch no futuro)
Preço sugerido: R$ 119,90 (PC - Windows Store), R$ 122,99 (PC - Epic Games Store), R$ 249,90 (PS4) e R$ 249,95 (Xbox One)
Classificação indicativa: 16 anos (Violência e linguagem imprópria)
Desenvolvimento: Obsidian Entertainment
Publicação: Private Division

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