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Blair Witch: intenso e assustador, game expande a mitologia do filme

Assim, de dia, nem parece que você vai morrer de medo - Divulgação
Assim, de dia, nem parece que você vai morrer de medo Imagem: Divulgação

Makson Lima

Colaboração para o START

06/09/2019 15h00

Resumo da notícia

  • No papel do policial Ellis, jogador precisa investigar desaparecimentos na floresta de Burkittsville
  • No seu arsenal, equipamentos da década de 90: walkie-talkie, lanterna, filmadora e um celular com o "jogo da cobrinha"
  • O pastor alemão Bullet é seu parceiro fiel e constante, mas que também corre riscos
  • Fica a dica: apague as luzes e use um bom fone de ouvidos para ter a experiência completa

Anunciado na E3 2019, durante a conferência da Microsoft, "Blair Witch" é uma parceria entre a polonesa Bloober Team (de "Layers of Fear") e a produtora de cinema Lions Gate, dona da marca. E não poderia ter dado mais certo.

Ainda me pego pensando, madrugada adentro, na ideia até então surreal de termos um jogo de tão alto nível relacionado a "A Bruxa de Blair", clássico do terror que completou 20 anos em 2019 e continua sendo um dos grandes redutos de pesadelos para quem resolver adentrar seus domínios.

Desaparecido

Bem-vindos a Burkittsville, e voltem sempre! - Divulgação
Bem-vindos a Burkittsville, e voltem sempre!
Imagem: Divulgação

O filme "A Bruxa de Blair" contou a trágica história de três documentaristas perdidos na floresta Black Hills. Isso em 1994. Já "Blair Witch", o jogo, acontece dois anos depois, leva em consideração o desaparecimento de Heather, Josh e Mike, mas tem como gatilho o garoto Peter, também embrenhado no mato da perdição. Você é Ellis, um veterano de guerra e policial, que se junta ao grupo de busca mesmo sem muito consentimento do xerife de Burkittsville.

Quanto mais você conhecer o material-base da franquia, mais vai tirar proveito do jogo

Não é imprescindível assistir ao filme para curtir o jogo, mas a bagagem torna tudo ainda mais intenso. "Blair Witch" foi criado, em concepção, para atender desde o mais fervoroso fã da bruxa (como este que aqui escreve) até o mais incauto dos jovens. E funciona! Parabéns à roteirista Barbara Kciuk, que foi entrevistada aqui no START, por isso.

Dentro de minha concepção, não faz o menor sentido começar "Blair Witch" sem passar por "A Bruxa de Blair" antes. E quanto mais você expandir tal conhecimento do material-base, indo atrás do deprimente filme de 2016, dos jogos de PC lá de 2000 (esses, sim, vão no específico, aproveitando o gancho até então fresco do maldito Rustin Parr e da maligna em pessoa, Elly Kedward) e fazendo o favor a si mesmo de esquecer a catástrofe "O Livro das Sombras", mais vai tirar proveito do jogo novo. Essa é uma obra absurdamente de nicho, realizada por e para ensandecidos por terror. Tenha isso em mente.

"O celular encontra-se desligado ou fora da área de serviço" - Divulgação
"O celular encontra-se desligado ou fora da área de serviço"
Imagem: Divulgação

Found Footage de Blair

A Bloober Team criou para si um estigma muitíssimo característico. A perspectiva em primeira pessoa, em casamento demente com a manifestação real, concreta, de todos os medos e anseios daquele personagem em específico. Foi assim com o pintor sádico de "Layers of Fear", com o detetive futurista de "Observer" e com o ator ingênuo de "Layers of Fear 2". "Blair Witch" não só se encaixa perfeitamente na proposta, como dá um passo além, incorporando um elemento essencial do filme de 1999: o formato "material encontrado".

"A Bruxa de Blair" popularizou a ideia do "found footage" nascida no clássico absoluto do exploitation italiano, "Holocausto Canibal" (1980) e do maestro Ruggero Deodato. O terror foi o gênero que mais se apropriou do formato, pois o combo "baixo orçamento + ideia tenebrosa" é transgressor, rústico e faz sentido. "Blair Witch" abraça o "found footage" de forma inteligente e menos convencional do que nos foi apresentado no seminal "Outlast", de 2013.

Ellis tem à sua disposição uma câmera de mão, e ela pode, sim, servir para enxergar no escuro, como alternativa à lanterna, mas são as fitas encontradas no mato que compõem uma das partes únicas do jogo. Como estamos falando da busca de um garoto perdido na floresta, os corredores lineares de outros títulos da Bloober não fariam sentido aqui. "Blair Witch" é fragmentado em pedaços fechados, cíclicos e que remetem ao senso de direção bizarro de Black Hills. Você vai se sentir perdido e é isso aí.

É aquela máxima do terror: apague as luzes e faça uso do headset mais parrudo que puder encontrar

Assistir às fitas e atentar a detalhes, como algo deixado para trás por alguém em cena ou uma árvore derrubada no meio do caminho, gera manipulação da realidade para impulsionar a jornada mata adentro. Além de ser também um tanto macabro (Quem, diabos, gravou isso? O que essas fitas estão fazendo aqui?), exatamente como a riquíssima paisagem sonora do jogo, que faz uso do recurso binaural para tornar a experiência o mais desconfortável e perturbadora possível.

É aquela máxima do terror: apague as luzes e faça uso do headset mais parrudo que puder encontrar.

Bullet, seu maior amigo

O que seria de Ellis sem Bullet, o cachorro? - Divulgação
O que seria de Ellis sem Bullet, o cachorro?
Imagem: Divulgação

As ferramentas à disposição de Ellis em sua busca são limitadas: seu celular, walkie-talkie e mochila, tudo referente à metade dos anos 1990, evidentemente. Sendo assim, não espere nada além do básico do básico, e muita gente mais nova terá seu primeiro contato com aquele dinossauro da comunicação móvel. O sinal é fraco, a bateria está acabando, as mensagens chegam tardiamente, mas o que importa mesmo é o jogo da cobrinha, perfeito para acabar com o estresse de toda tensão inerente a Black Hills. Tem até conquista ligada a isso, e a torrar a paciência do cara da pizzaria.

Outro ponto de destaque no gameplay de "Blair Witch" é Bullet, o pastor alemão e fiel companheiro de Ellis. Treinado, o cão obedece a ordens como "procurar", "ficar" e "rastrear", por exemplo. Seu comportamento é bastante crível, nada mecânico e muito funcional. Seria um jogo completamente distinto caso não estivéssemos na companhia de Bullet. E como estamos lidando com um jogo de horror, repleto de momentos tenebrosos, é claro que temer pela vida não só de Ellis, mas especialmente de Bullet, vai acompanhar você por toda jornada, que tem lá suas cinco horas de duração e oferece diferentes desfechos e formas de abordamos uma ou outra situação, como os fracos confrontos com as entidades presentes na floresta.

Bullet late, rosna ou chora diante do perigo, e o aspecto binaural do áudio serve para situarmos o cão espacialmente, tridimensionalmente. Quando um dos já clássicos totens surgem pelo caminho, impregnam o ambiente e parecem ferir o cão, assim como o ataque dos monstros em "Blair Witch", que pega emprestado o pior do filme de 2016 para desenvolver confrontos tediosos, até certo ponto fáceis de serem evitados ou, caso resolva bater de frente, ainda mais simples: a lanterna dá conta do recado.

Feridas expostas

Não olhe, não olhe, não olhe... - Reprodução
Não olhe, não olhe, não olhe...
Imagem: Reprodução

Além dos decepcionantes monstrinhos de Black Hills, "Blair Witch" tem sua dose de problemas técnicos. Mesmo rodando num Xbox One X, tive que reiniciar o jogo um par de vezes: primeiro pois, após uma cutscene, o personagem simplesmente não se movimentava; em outra ocasião, a sensibilidade da câmera tornou-se tão travada, que me vi obrigado a reiniciar. Muitos são os relatos de inconsistências, especialmente no frame rate, e com relação a perda de progresso.

É engraçado associar tais precariedades a um dos pontos mais fortes do jogo: os traumas passados de Ellis, postos à prova por Black Hills, pela bruxa, como se numa versão distorcida de "Silent Hill". Não só a relação com sua esposa é muito tumultuada (inclusive, cabe a você dar a devida atenção a ela ou não), como suas escaras de guerra são absolutamente latentes, protagonizando momentos arrebatadores. Quando "Blair Witch" transforma sua realidade, distorcendo o fardo, associando-o a recalque, é que temos a explosão psicológica pela qual a Bloober Team passou a ser conhecida. É intenso, perturbador e maravilhoso.

Blair Witch

Divulgação
Imagem: Divulgação
"Blair Witch" cumpre o prometido: expande a mitologia do filme de 1999 e se torna o mais relevante produto dentro da franquia desde o clássico. Envolvente e assustador, ele carece de refinamento técnico, e isso é incontestável, mas como os grandes patrimônios do horror também se fazem por seus deslizes, a bruxa nunca esteve tão bem representada antes no mundo dos games.

Lançamento: 30/08/2019
Plataformas: PC, Xbox One
Preço sugerido: R$ 57,99 (PC), R$ 112,45 (Xbox One)
Desenvolvimento: Bloober Team
Produtora: Bloober Team

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