Topo

eSport


"Counter-Strike": a trajetória de "Lucas1", novo integrante da mibr

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Gabriel Oliveira

Colaboração para o START, em Santos

02/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Lucas1 começou jogando com o pai e os irmãos em lan houses de Uberlândia (MG)
  • Depois de passar por times de projeção internacional, ele está agora na mibr, principal nome de "CS" no Brasil
  • Em entrevista ao START, pai e irmãos relembram o início da carreira
  • Em torneios amadores, a família Teles chegava a fazer viagens bate-e-volta de até 8 horas de carro

Lucas Teles ainda não tinha nick famoso nem frase de efeito que virava meme. Ele e o irmão gêmeo Henrique tinham só 8 anos de idade e mal conseguiam sentar nas cadeiras da lan house de Uberlândia (MG), mas já mandavam suas balas em "Counter-Strike", sem saber que seriam futuros craques dos eSports.

"Todo mundo queria saber quem eram, porque, para a idade deles, tinham nível bem acima da média", relembra o paizão Charles Fonseca, em entrevista ao START. Hoje com 23 anos, depois de passar por times famosos mundialmente, "Lucas1" já sobra na cadeira e no jogo, e é o mais novo reforço da mibr (Made in Brazil), o maior time de "CS:GO" do país.

Depois de passar por Tempo Storm, Luminosity e Immortals, Lucas1 vai defender a mibr  - Divulgação/mibr
Depois de passar por Tempo Storm, Luminosity e Immortals, Lucas1 vai defender a mibr
Imagem: Divulgação/mibr

Jogando em família

Lucas1 começou a jogar "CS" ainda na versão 1.6, aos 8 anos, por incentivo do próprio pai, o gerente de Tecnologia da Informação Charles Fonseca, de 46. Lucas1 é gêmeo do também pro-player Henrique "HEN1" Teles e tem um irmão mais velho, o empresário Charles "pbf1" Teles, de 26. Em Uberlândia, os quatro passavam os finais de semana jogando em lan houses, onde os jovens se reuniam na época. Não era comum as residências terem computadores com internet banda larga como é hoje.

No início dessa carreira ainda incerta, Lucas viajava até oito horas de carro para participar de competições em busca do sonho de ser profissional.

Dominando o ranking da lan house, a família decidiu se unir em uma equipe, segundo o pai Charles, em um movimento natural, a partir de 2008. "Montamos o time sem pretensões. Era para ficar disputando campeonatos. Como eu me separei da mãe deles, era uma maneira de me aproximar e ficar mais perto".

O Lucas e o Henrique nem conseguiam sentar direito na cadeira de tão pequenos. Eles chamavam atenção na lan house, todo mundo queria saber quem eram, porque, para a idade deles, tinham nível bem acima da média
Charles Fonseca, pai de Lucas1

Unidos pelo Counter-Strike: o pai Charles com os gêmeos HEN1 e Lucas1 - Arquivo pessoal
Unidos pelo Counter-Strike: o pai Charles com os gêmeos HEN1 e Lucas1
Imagem: Arquivo pessoal

Um olho no CS, outro no boletim

Charles sempre incentivou os filhos a jogar, na contramão do que inicialmente faz a maioria dos pais de jogadores. Ele levava os três filhos para as jogatinas e chegou a montar uma mini lan house em casa. Porém, não deixava de cobrar boas notas no colégio.

"Eu os deixava jogando, porque evitava de ficarem na rua e tudo mais. Mas colocava a meta de irem bem na escola. Se tirasse nota vermelha, ficava sem computador. Foi dessa maneira que equilibrei o jogo e os estudos", conta o pai.

Ele lembra que, apesar do parentesco, os adolescentes não tinham medo de chamar atenção dele durante as partidas. "Tínhamos uma relação de muito respeito", diz Charles, para quem o "Counter-Strike" cumpriu o papel de aproximá-lo dos filhos. "Passávamos muito tempo juntos".

Se tirasse nota vermelha, ficava sem computador. Foi dessa maneira que equilibrei o jogo e os estudos
Charles Fonseca, pai de Lucas1

Brasília bate-e-volta

Com o bom nível adquirido em Uberlândia, o time dos Teles começou a participar de campeonatos, inclusive de classificatórias para competições nacionais, em cidades de Minas Gerais, Brasília e interior de São Paulo. O quinto membro da equipe variava - sendo Victor "Osama" Carvalho e Ricardo "ricardolepra" Pereira os companheiros de maior destaque -, mas o núcleo familiar se manteve por muitos anos.

O pai colocava os três filhos no carro e dirigia rumo aos torneios. Muitas vezes, no esquema bate-volta. "Quando começamos a ir para Brasília, eram quatro horas de viagem, jogávamos um jogo, perdíamos e eram mais quatro horas na volta".

Quando começamos a ir para Brasília, eram quatro horas de viagem, jogávamos um jogo, perdíamos e eram mais quatro horas na volta
Charles Fonseca, capitão dos "Teles"

Todas as despesas eram bancadas pelo pai: combustível do carro, taxa de inscrição para os campeonatos e alimentação. "Eles comiam bem, viu", diverte-se Charles, contando que, quando a equipe passou a conquistar títulos, tempos depois, as premiações serviam para cobrir os custos. "O restante eu dividia e eles aproveitavam como queriam".

Filho mais velho, pbf1 lembra que as viagens eram cansativas e prazerosas ao mesmo tempo. "Na ida para os campeonatos, comentávamos sobre os times que iríamos enfrentar e sobre a nossa expectativa. Isso fazia a ida passar muito rápido, pois conversávamos por horas e horas. Na volta era mais complicado, porque, na época, só meu pai dirigia e era muito cansativo, pois tínhamos nossos compromissos com trabalho e escola. Chegávamos em Uberlândia amanhecendo para fazer as coisas virados".

"O Lucas conseguia colocar mais de 200 horas de jogo em duas semanas", conta o irmão mais velho Charles "pbf1" Teles - Divulgação/PGL Esports
"O Lucas conseguia colocar mais de 200 horas de jogo em duas semanas", conta o irmão mais velho Charles "pbf1" Teles
Imagem: Divulgação/PGL Esports

Para ir a Belo Horizonte, onde aconteciam as principais competições de Minas Gerais, a família encarava oito horas de estrada na ida e outras oito na volta, motivada pela paixão. "A vontade de evoluir e estar no topo nos incentivava", relembra pbf1. "Não passava pela nossa cabeça desistir, pois o jogo era o nosso momento familiar e sempre tivemos muito apoio para seguir em frente".

O time continuou marcando presença nos campeonatos da época, mesmo com as longas viagens e os desempenhos por vezes insatisfatórios. A recompensa por tamanha dedicação ao longo dos anos não tardaria.

O auge dos Teles

Os irmãos e o pai chegaram ao auge ao conquistarem a 3ª colocação da Mega Acervus Cup, disputada em Botucatu (SP), em novembro de 2011, atrás apenas de playArt e GamerHouse, que contavam com cyber-atletas renomados. O time defendia a Opengame e Charles tinha se tornado técnico. O bom resultado rendeu à equipe e aos irmãos Teles a alcunha de revelação do cenário brasileiro daquela temporada.

Novembro de 2011: os irmãos Teles e o pai conquistam a 3ª colocação da Mega Acervus Cup, em Botucatu (SP) - Teamplay
Novembro de 2011: os irmãos Teles e o pai conquistam a 3ª colocação da Mega Acervus Cup, em Botucatu (SP)
Imagem: Teamplay

No ano seguinte, com a decadência do CS 1.6, pbf1 deixou de jogar com os irmãos. Os gêmeos seguiram jogando por diversão, mas longe do competitivo.

O retorno às competições só ocorreu em 2014, quando os três se reuniram novamente para competir no CrossFire. Depois, Lucas1 e HEN1 foram chamados pela KaBuM e, ao lado de Gabriel "FalleN" Toledo, Fernando "fer" Alvarenga e Lincoln "fnx" Lau, participaram de torneios de Counter-Strike Global Offensive e CrossFire no Brasil e no exterior.

Chance de ouro

Lucas1 com os companheiro de Luminosity Gaming, seu último time antes da mibr - Arquivo pessoal
Lucas1 com os companheiro de Luminosity Gaming, seu último time antes da mibr
Imagem: Arquivo pessoal

Entre mudanças de equipe, os gêmeos tiveram uma chance de ouro em 2015, quando venceram a seletiva Golden Chance com a Não Tem Como (NTC) e puderam se mudar para os Estados Unidos para treinar e competir, com todas as despesas pagas pela Games Academy, projeto capitaneado por FalleN. Foi o ponto de virada das carreiras deles.

Lucas1 e HEN1 deslancharam e, com as boas atuações das equipes das quais faziam parte, jogaram por clubes norte-americanos, como Tempo Storm, Immortals e Luminosity Gaming, participando das mais importantes competições do circuito internacional.

Em julho de 2017, pela Immortals, Lucas e HEN1 conquistaram o vice-campeonato mundial, perdendo na final da PGL Major para Gambit Esports, do Cazaquistão. O novo membro do mibr também se tornou conhecido pelo bordão das transmissões por stream: "QuéOta?", que repetia sempre que abatia os adversários com um só tiro.

Para pbf1, era nítido que os irmãos poderiam se dar bem no Counter-Strike. "Nos primeiros campeonatos eu já vi que eles tinham talento. O Lucas conseguia colocar mais de 200 horas de jogo em duas semanas. Fora que sempre dava para ver neles a vontade de melhorar e chegar ao topo".

Orgulho

Lucas1 alcançou o ponto mais alto da carreira ao ser contratado, nesta semana, para integrar o mibr, em substituição à João "felps" Vasconcellos, ao lado de FalleN, fer, Marcelo "coldzera" David e Epitácio "TACO" Pessoa.

"Olhando o tanto que nós viajamos e perdemos, é muito gratificante", comemora o pai. "Valeu a pena todo o esforço, porque ter dois filhos lá fora jogando profissionalmente é um orgulho".

HEN1 continua no Luminosity e, pela primeira vez desde os 8 anos, terá de competir sem o irmão gêmeo Lucas. "Esses dias foram muito difíceis para mim. Refleti muito tudo que a gente já viveu juntos. Sei que chegou o momento de cada um ter suas responsabilidades e seguir por caminhos diferentes, mas o foco é o mesmo", escreveu HEN1 em uma publicação emocionante nas redes sociais, à qual Lucas1 respondeu: "Vou fazer valer a pena cada segundo longe de você".

O primeiro torneio oficial de Lucas1 com a mibr começa nesta terça-feira (2): é a ESL One Cologne, na Alemanha, que conta também com os brasileiros da FURIA.

eSport