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Esporte de verdade: saiba como a Coreia do Sul virou a 'pátria do eSport'

Théo Azevedo

Do UOL, em Seul*

20/10/2014 08h00

Em 2002 o estádio Sangam foi palco de três partidas da Copa do Mundo, incluindo a semifinal entre Coreia do Sul e Alemanha, na qual os donos da casa caíram diante dos atuais campeões do mundo. Porém, no último domingo (19), diante de um público de 45 mil pessoas - sem contar os milhões que acompanharam online em todo o mundo -, o estádio viu, enfim, a consagração dos coreanos.

Samsung White, equipe da casa, e Star Horn Royal Club, da China, disputaram a final da Season 4 World Championship, que pode ser considerada a Copa do Mundo de "League of Legends", o jogo online mais popular do planeta - são cerca de 67 milhões de jogadores por mês. Quem levou a melhor foi a Samsung White, embolsando a maior parte dos cerca de US$ 2 milhões da premiação total.

A vitória da Samsung White reforça a vocação do país como a pátria do eSport, uma supremacia que remonta desde o final da década de 90, com o lançamento de "StarCraft". O jogo de estratégia da Blizzard transformou-se em uma verdadeira paixão dos locais, com torneios transmitidos pela TV e até salgadinhos temáticos.

Mas, afinal, o que é que a Coreia tem? Por que o país concentra a elite do eSport?

Coreia e PC, tudo a ver

TALENTO PARA EXPORTAÇÃO

  • Reprodução

    Assim como o Brasil exporta talentos do futebol, a Coreia também envia seus pro-players de "LoL" para atuar em outros países. Em 2014, os times brasileiros Keyd Stars e paiN Gaming contrataram dois coreanos cada, atingindo o limite de jogadores estrangeiros por escalação permitidos pela Riot. Dois deles, Han "Lactea" Gihyun e Kim "Olleh" Joo-Sung (foto), ainda atuam por aqui.

Para começo de conversa a Coreia do Sul desenvolveu uma relação estreita com o PC, especialmente enquanto plataforma para games, em parte por conta de os videogames terem permanecido banidos de certos países asiáticos por quase 15 anos. Além disso, o país fez investimentos pioneiros na internet de banda larga, que hoje alcança 95% dos coreanos.

Com dez milhões de habitantes, a capital Seul figura entre as cidades com maior densidade populacional do mundo. Por lá as lan houses, conhecidas como “PC Bangs”, transformaram-se em ponto de encontro para jogar “StarCraft”. Se no Brasil a moda das lan houses passou, em Seul os PC Bangs seguem firmes e fortes, impulsionados por “LoL”, “StarCraft 2” e pelos MMOs.

Jogar “StarCraft” virou, literalmente, um esporte: os jogadores passaram a integrar equipes, com uma rotina de treinamento que, até hoje, chega a doze horas diárias. Uma carreira curta – quem tem 25 anos já é considerado “velho” entre os pro players -, onde tendinites e contusões do tipo são comuns.

Do outro lado da balança estão os ganhos, potencialmente enormes: ao menos para a elite do eSport: Lee Jae Dong – sul-coreano, como você já deve ter notado -, figura entre os pro players que mais ganhou dinheiro em todos os tempos, somando mais de US$ 500 mil entre patrocínio e premiações.

O problema é que alcançar o topo no eSport não é nada fácil: em média, numa partida de “StarCraft”, um pro player executa 300 ações por minuto, o que equivale a cinco ações por segundo. Se quiser ter uma noção melhor do que isso significa, assista ao vídeo abaixo.

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A hegemonia da Coreia é bem ilustrada pelo site eSportsearnings, que monitora quais são pro players mais bem pagos do mundo: no "StarCraft" e no "StarCraft 2" é só há coreanos entre os cinco melhores remunerados em cada um dos jogos. Com "League of Legends" não é muito diferente: quatro dos cinco melhores são da Coreia.

Na Coreia, eSport é um esporte oficial

Se você ainda tem dúvidas sobre a faceta visionária do governo coreano, em 2000 foi fundada a KeSPA (Korea e-Sports Association), sob aprovação do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo. O objetivo? Fazer do eSport um esporte oficial. Desde então a organização cuida de transmissões e promoções de eventos, além de monitorar as condições de trabalho dos pro player e, claro, de encorajar a população a jogar videogame. Nada mal, não?

"Para nós o eSport é o esporte da próxima geração", diz Diane Kim, executiva de relações públicas da KeSPA. "Queremos ser pioneiros nesse mercado global e fazer do eSport um esporte oficial. Apenas assim os pro players terão reconhecimento oficial como atletas esportivos".

De acordo com a KeSPA, há cerca de 200 pro players na Coreia, a maioria de "League of Legends, com média de idade entre 19 e 23 anos. Como o eSport já tem uma trajetória de pelo menos 16 anos por lá, a preocupação com a "aposentadoria" dos jogadores já faz parte das pautas da associação: "Há oportunidades para estes pro players como técnicos, narradores, analistas ou trabalhando em empresas de eSport", conta Kim. Atualmente a KeSPA está trabalhando em um sistema de educação para pro players aposentados para ajudá-los após o final de suas carreiras.

VEJA OS BASTIDORES DA FINAL MUNDIAL DE "LOL"

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A essa altura você já deve ter notado que há muito dinheiro no eSport: empresas multibilionárias como a Samsung e a SK Telecom patrocinam times coreanos. E não apenas pela exposição local, uma vez que serviços como o Twitch levam as partida a uma audiência global. Marcas como Kingston, Turtle Beach, Razer e Alienware também figuram entre os patrocinadores, e mesmo Coca-Cola, Dr. Pepper e Red Bull, que atuam em outros setores, também já despertaram para o potencial da publicidade no eSport.

Afinal, se os streamings ainda não podem competir com as transmissões de TV, ao menos usufruem da característica viral da web, espalhando-se rapidamente pelas redes sociais numa escala global. Dos oito milhões que assistiram as finais do mundial de “LoL” em 2013, dois milhões estavam na Ásia. E, não menos importante, os custos do eSport são relativamente modestos se comparados a outras modalidades esportivas - não há salários milionários entre os pro player. Ao menos por enquanto...

Coca-Cola dos Campeões

Você sabe que um produto é popular em certo lugar quando o vê estampado em garrafas e latas de Coca-Cola. Para promover a final do mundial na Coreia do Sul, Riot Games e Coca-Cola fizeram uma parceria colocando personagens como Annie, Vi, Braum e Lux nos rótulos e latas do refrigerante.

* O jornalista viajou a convite da Riot Games