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Vermelho e verde podem ser vilões dos games pra quem tem distúrbio de visão

Rodrigo Guerra

Do UOL, em São Paulo

25/04/2014 10h00

Sempre que alguém descobre que sou daltônico, me preparo para responder a enxurrada de perguntas que vêm logo em seguida: "Que cor é essa?", "E essa?", "E essa outra?". Quase sempre eu erro, mas também não fico chateado, afinal, há anos eu convivo com essa deficiência e já estou acostumado a viver uma vida normal sem ver as cores como a maioria as enxerga.

Assim como eu, cerca de 12 milhões de brasileiros têm algum grau de daltonismo - ou discromatopsia, como a doença é chamada no meio científico. Alguns têm dificuldades para reconhecer tons de verde, outros do vermelho e alguns poucos nunca viram o céu azul da mesma forma que a maioria da população.

Há quem diga coisas do tipo "Mas tudo bem, esse problema não atrapalha tanto a vida das pessoas de forma tão severa". Realmente, o daltonismo não atrapalha a ponto de garantir ao portador direitos como filas preferenciais em bancos ou um lugar especial no ônibus. Mas alguns games simples, como "Bubble Shooter", podem ficar frustrantes e até sem graça. Ou em alguns casos um desafio extra. Foi assim que Gustavo Fernandes, 24 anos, encarou "Puzzle Bobble", um dos clássicos games de quebra-cabeça para Super NES.

Acervo pessoal
O desafio era em acertar a combinação correta das cores. Essa dificuldade tornava o jogo muito mais difícil, mas eu achava que era normal

Gustavo Fernandes, 24, estudante de medicina veterinária

"O desafio era acertar a combinação correta das cores. Essa dificuldade tornava o jogo muito mais difícil, mas eu achava que era normal", conta ele, que estuda Medicina Veterinária. Aliás, essa profissão que Gustavo escolheu é uma das mais complexas para quem é daltônico: saber diferenciar as cores é primordial para ser um profissional da saúde.

"[O daltonismo] começou me afetar quando entrei na faculdade. Minha primeira matéria foi Citologia e Histologia, onde é necessário o uso do microscópio. Os tecidos de célula animal vistas no microscópio de luz são diferenciados devido à sua coloração e tonalidades", conta. Mesmo com dificuldades, Gustavo se vira bem na faculdade e vai 'muito-bem-obrigado' na matéria.

Não saber diferenciar certos tipos de cores atrapalha até nos pequenos detalhes, mas isso não impede que tenhamos nossas cores favoritas. Eu gosto da cor laranja – e ela é uma das que mais tenho dificuldades em dificuldades em diferenciar. Já Vitor Lisboa, (25) de Vila Velha, Espírito Santo, tem dificuldades de identificar o azul, e passou por dificuldades para criar seu herói em "World of Warcraft".

"[No MMO], na criação de personagens, eu tentava escolher um tom de pele azulado e tinha dificuldade enorme em identificá-las. Tanto que cheguei a pedir para amigos entrarem em minha conta para que eles escolhessem a cor certa pra mim", conta.

"World of Warcraft" possui um modo para daltônicos, mas no caso de Vitor, o recurso não é 100% perfeito. "Tinha um chefe de uma dungeon que a mecânica dele era 'comer' umas coisas que ele jogava no chão. Tinham as comidas boas, e as comidas ruins, e elas eram diferenciadas por verde e amarelo - e eu nunca conseguia captar na velocidade rápida o suficiente para comer a certa", conta.

Confusão por todos os lados

Verde e amarelo são as cores mais comuns que os daltônicos confundem. Eu mesmo passei por maus bocados em jogos como "Super Puzzle Fighter" ou "Candy Crush Saga", quebra-cabeças que são extremamente dependentes da ligação de cores. Uma peça errada no lugar errado pode significar derrota instantânea, principalmente no jogo para Facebook, que não tem uma versão para daltônicos. Em alguns puzzles os objetos dão espaço para os daltônicos se divertirem, mas invariavelmente juntar cores é mais complicado.

Acervo pessoal
Eu já me 'acostumei' a entender as cores com o meu nível de dificuldade

Vitor Lisboa, 25, videomaker

"Sei que posso juntar banana com banana. Agora quando é simplesmente uma esfera ou um quadrado e a cor que determina quais combinações fazer, tudo fica mais difícil", conta Gustavo.

E não é apenas com os puzzles: Gustavo também se confunde nos jogos de futebol. "Algumas partidas se tornam bastantes confusas quando os dois times colocam cores parecidas. Para pessoas normais, a dificuldade não é tão grande quanto para os daltônicos. Sendo assim, ficamos restritos a escolher uniformes de cores totalmente diferentes, se possível preto e branco", brinca.

Vitor se acostumou e diz que não faz mais questão se o jogo possui um modo para daltônicos. "Eu já me 'acostumei' a entender as coisas com o meu nível de dificuldade. Tenho conseguido 'treinar' minha visão. É um processo. Você começa a criar a designação das cores 'analogicamente'. Acho que, como tenho pouco dificuldade, consigo fazer isso. Creio que quem tenha um nível maior de daltonismo não consiga [fazer o mesmo], mas não sei".

Recentemente, em "Diablo III", a confusão de cores não me permite entender qual a diferença entre um item lendário de um raro – é difícil para um daltônico diferenciar um item raro (amarelo), de um lendário (laranja) ou de conjunto (verde). No final, todos são colocados na bolsa e avaliados com calma na cidade.

A descoberta e o dia-a-dia

Ninguém nasce sabendo que é daltônico. Alguns levam anos para descobrir que são portadores da deficiência. No caso de Gustavo foi durante uma tarefa no trabalho que ele descobriu que via o mundo diferente das outras pessoas.

O QUE É DALTONISMO?

  • reprodução

    O daltonismo é uma doença genética no qual os portadores não conseguem diferenciar certos tipos de cores. Dentro dos nossos olhos existem milhares de pequenos receptores que transformam luz em imagens que são interpretados pelo nosso cérebro.

  • Quem é daltônico, geralmente tem um problema nesses receptores e não conseguem, por exemplo, diferenciar verde do vermelho, o amarelo do azul entre tantas outras combinações.

  • Na prática funciona assim: você está vendo o número "16" na imagem acima? Se não estiver, pode ser a hora de procurar um oftalmologista.

"Descobri aos 19 anos no meu antigo trabalho. Eu trabalhava com uma planilha Excel que era compartilhada por outros funcionários, e uma das formas de separar as atividades montando a planilha é por divisão de cores. Eu havia colocado um 'vermelho' e um colega de trabalho discordou de mim dizendo que era laranja", lembra.

Vitor se deparou com o problema ainda na infância: "Sempre percebi que tinha dificuldades com alguns tons de cores. Quando era criança, na escola, existiam alguns exercícios com lápis de cor… Eu percebia que confundia muito as cores ou que tinha certa dificuldade para identificá-las", conta, de forma descontraída.

Mas para ter certeza, geralmente os daltônicos se deparam com o teste de Ishihara, como o visto ao lado, e não conseguem identificar o número que é desenhado. "Eu tive certeza [que era daltônico] já bem mais velho, quando tinha em torno de uns 16 anos. Estava navegando aleatoriamente na internet até me deparar em um desses círculos do Teste de Ishihara e a legenda dizendo que havia um número 'X' ali e eu não o via", conta Vitor.

Se você tem dificuldades para distinguir cores, talvez seja o caso de fazer uma consulta com um oftalmologista. Não que isso vá adiantar muito – lembre-se que daltonismo não tem cura -, mas pelo menos você vai ter certeza absoluta sobre as cores que podem confundi-lo.

O importante é continuar jogando e se divertindo. Não importa se você não sabe se o  tipo de equipamento que caiu de um chefe de "Diablo III", ou se o Flamengo e o Sport de Recife têm o mesmo uniforme, ou se fica mais complicado terminar uma quest de uma masmorra de "Warcraft  III": ser daltônico nunca foi nem será um empecilho para quem quer jogar videogame.

GAMES APROVADOS PARA DALTÔNICOS

Alguns games tentam fazer sua parte e adicionar suporte para daltônicos. Veja uma lista com alguns deles:
AstropopAudiosurf
Battlefield 3Borderlands 2
Call of Duty: Modern Warfare 3League of Legends
Leaft4Dead (série)Lumines
SimCity (2013)Team Fortress 2
Shapes and ColumsZuma Deluxe