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Daniela Arbex buscou terapia após livro sobre boate Kiss: 'Vivi o luto'

Daniela Arbex já vendeu 400 mil exemplares de seus livros Instagram/Reprodução

Do UOL, em São Paulo

15/02/2021 04h00

Nenhum brasileiro consegue se esquecer da noite de 27 de janeiro de 2013. Especialmente os familiares das 242 vítimas do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria. A jornalista mineira Daniela Arbex deu voz a esses pais e mães no livro "Todo Dia a Mesma Noite", lançado em 2018.

Consolidada no meio jornalístico há mais de duas décadas, foi como escritora que Daniela conseguiu projeção nacional. "Holocausto Brasileiro", sua outra obra mais conhecida, passou 4 meses na lista de mais vendidos, em 2013. Mas contar essas e outras histórias tem um peso maior do que se imagina.

Daniela Arbex. Imagem: Divulgação

Sempre alerta

Em papo com Splash, Daniela conta que sempre adorou ler e escrever. Na faculdade, o jornalismo investigativo penetrou nas veias. Uma matéria sua para o jornal universitário causou rebuliço entre estudantes e professores.

Foi a denúncia de um professor de direito que cometia bullying contra sua turma. Os professores se reuniram e, graças à matéria, ele foi punido.

Cara e coragem

O primeiro emprego durou 23 anos. Recém-formada e com o currículo debaixo do braço, bateu na porta da Tribuna de Minas, um dos principais jornais do estado, e conseguiu cobrir férias de um repórter. Só se despediu de lá em 2019, quando passou a se dedicar integralmente à escrita.

'Holocausto Brasileiro'

O Hospital Colônia de Barbacena deu origem ao primeiro livro de Daniela. Desde o início dos anos 2000, suas reportagens sobre violações nos hospitais psiquiátricos de Juiz de Fora levaram ao fechamento de sete centros. Mas uma história mais macabra ainda se revelaria.

Ao ter acesso aos registros que o fotógrafo Luiz Alfredo fez, em 1961, no Hospital Colônia, Daniela descobriu o passado de horror daquele espaço. Entre 1903 e 1980, 60 mil pessoas internadas morreram ali, cerca de 70% sem nenhum tipo de diagnóstico de transtornos mentais.

Não tinha ideia que tínhamos vivido algo assim no Brasil. Parecia um campo de concentração. Quando as fotos de Luiz Alfredo completaram 50 anos, logo após minha licença-maternidade, me liberaram para ir atrás da história.

Daniela viajou para Barbacena com o filho pequeno, batendo de porta em porta, atrás de sobreviventes. Encontrou 20 pessoas, além de outras 140 envolvidas nos anos de horror, que finalmente puderam contar suas histórias.

Muitos dos pacientes do Hospital Colônia eram somente alcoólatras, epiléticos, homossexuais, prostitutas, vítimas de estupro: todos que não se encaixavam nos moldes da sociedade. Entre os mortos, 1853 corpos foram vendidos para faculdades de Medicina ao redor do país.

Digo que demorei 17 anos para escrever o livro. Foi meu tempo de redação para contar uma história com aquela densidade. Estava grata de ver essas pessoas podendo falar pela primeira vez. Fui a primeira pessoa a ouvir aqueles relatos. Fui totalmente absorvida por tudo.

Fachada da Boate Kiss, em 2014 Imagem: Ronald Mendes/ Agência RBS/ Estadão Conteúdo

'Todo Dia a Mesma Noite'

O desafio de contar a história dos afetados pela tragédia na Boate Kiss foi diferente. Qualquer pessoa conhece o caso, de projeção internacional. O desafio era fazer com que se colocassem no lugar das vítimas e de suas famílias.

Viajei 15 vezes ao Rio Grande do Sul. Passava muito tempo longe de casa. Conseguia me ver em todas as histórias. Vivi o luto daquelas famílias. Ganhei 10 quilos, perdi metade do cabelo. Não me reconhecia no espelho. Foram dois anos muito difíceis, fiquei muito afetada.

Filha da capitã do Exército Daniele Dias de Mattos se emociona durante o sepultamento da militar no Cemitério de Inhaúma, zona norte do Rio de Janeiro. Daniele morreu durante o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS). Ela era médica cardiologista e estava de férias na cidade gaúcha, onde trabalhou por cinco anos na unidade de saúde do Exército Imagem: Ale Silva/Futura Press

Daniela deu a oportunidade de familiares, profissionais da saúde e bombeiros falarem pela primeira vez do que aconteceu. O contato intenso com os afetados pela tragédia a fez buscar terapia para lidar com suas próprias inseguranças e receios.

Tinha que mergulhar naquelas histórias e não sabia como voltar. Não conseguia parar de pensar na frase que mais ouvi de todas as mães: 'Não estava perto do meu filho quando ele precisou'. Eu também não estava perto do meu, tendo que viajar o tempo todo. Me sentia uma mãe pela metade.

Daniela Arbex em família Imagem: Instagram/Reprodução

A cura

O esporte também foi essencial na recuperação de Daniela após o baque da Kiss. Ela passou a praticar mountain bike, pedalando até 70km por dia. Escrever também serviu de alívio. A produção de sua primeira biografia, "Os Dois Mundos de Isabel", lançada no ano passado, deixou a vida mais leve.

"Os Dois Mundos de Isabel"

No seu livro mais recente, Daniela remonta a trajetória de Isabel Salomão de Campos, fundadora da Casa do Caminho e responsável por criar três escolas e retirar mais de 500 crianças da rua ao longo da vida.

Isabel Salomão de Campos Imagem: Fernando Priamo

Em meio a pandemia, que, no Brasil, vem ceifando aproximadamente 6 vezes o número de vítimas da Kiss todos os dias, Daniela lamenta que a morte e o sofrimento passaram a ser totalmente banalizados e reforça a importância do jornalismo para que se exerça cada vez mais a empatia.

Não podemos deixar de sentir a dor do outro. Falta consciência. Ninguém precisa perder um parente para entender o drama que vivemos. Por trás dos números, existem milhares em luto, me incomoda que banalizem as perdas. Não podemos seguir apáticos. Vejo o jornalismo com a missão de acordar as pessoas.

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