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Página Cinco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quem vai querer morar em lugares horrorosos como Marte e a Lua?

Capa de Guarda Lunar - Reprodução
Capa de Guarda Lunar Imagem: Reprodução
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

03/05/2021 10h02

Quando o robô Perseverance começou a enviar imagens do planeta vermelho, confirmou minhas expectativas: Marte é mesmo horroroso. Cilada gigantesca fazer uma viagem de sete meses para chegar num lugar que é pedra, areia e quase nada mais. Me lembrou a Lua, outro canto incensado. Dependendo do dia, até é bonita de longe, mas, de pertinho, não passa de um modorrento deserto.

Cientes do caminho cada vez mais distópico que estamos tomando, há quem vislumbre um futuro para a humanidade (ou para meia dúzia de ricaços, melhor dizendo) fora da Terra. Em "Guarda Lunar", HQ de Tom Gauld que acaba de sair pela Todavia (tradução de Hermano Freitas), notamos que esse momento chegou, mas os poucos que debandaram para outro canto da galáxia não curtiram muito a vida em paisagens insossas.

É simbólico que a história seja contada da perspectiva de um policial lunar que passa os dias comprando rosquinhas e patrulhando uma vizinhança habitada por raríssimos humanos e alguns robôs. Não fica difícil ser um profissional com ótimos índices onde tal trabalho não faz o menor sentido. Em todo caso, se existe vida humana fora da Terra, patrulha e burocracia também se fazem necessárias, mesmo que seja para tomar conta da solidão.

Em seus poucos encontros, o policial se depara com pessoas prontas para voltar à Terra ou que planejam esse retorno. Vivendo entre nadas, sentem falta do que há de bom no nosso planeta. Numa narrativa em que esse ir e vir para a Lua é algo plausível, talvez corriqueiro, a impressão é que muitos ali se refugiaram no satélite enquanto o bicho pegava por aqui, para depois retornar num momento mais favorável.

Guarda Lunar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Esse é o segundo livro que a Todavia publica de Gauld, quadrinista escocês que colabora com cartuns para veículos como Guardian e New Yorker. "Golias", trabalho que saiu no Brasil em 2019, reconstrói uma famosa passagem bíblica para tratar da banalidade, a irracionalidade e o despropósito da guerra.

Em "Guarda Lunar" também encontramos a graciosidade e a melancolia presentes no livro anterior. No trabalho mais recente, a solidão ainda é acentuada e há sacadas simpáticas, como o cachorrinho que vive na Lua envolto numa bolha, com o aparelho que lhe garante o oxigênio atado às costas.

Não me parece uma utopia que valha a pena essa de viver fora do nosso planeta. É melhor dar um jeito para que a Terra seja um lugar digno para todos, não só para a meia dúzia já citada.

Até porque, tanto a Lua quanto Marte são feios pra danar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL