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Página Cinco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Pessimistas de todo o Brasil, uni-vos! Somos a maioria!"

Indigne-se! - Henfil
Indigne-se! Imagem: Henfil
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

05/04/2021 10h02

Dia desses uma leitora me mandou uma carta do Graciliano Ramos para o Cândido Portinari que está disponível no site Correio IMS, do Instituto Moreira Salles. Escrita em fevereiro de 1946, nela o autor de "Vidas Secas" fala sobre as "deformações e miséria" que, cultivadas pelos mandachuvas que os censuravam, os dois tão bem levaram para as artes - Graciliano para a literatura e Portinari para a pintura, claro.

Graciliano questiona: se a miséria acabasse, se a vida fosse tranquila, alguma arte decente surgiria ou passariam a produzir anjinhos cor-de-rosa? Entre constatações ("veja como os nossos ricaços em geral são burros") e confissões ("julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para tal sensaboria"), o velho Graça defende que sem sofrimento não há arte possível para os dois.

Se fosse assim mesmo, Graciliano e Portinari encontrariam neste Brasil de 2021 uma fonte inesgotável de desgraças para produzir grandes romances e pinturas. Às vezes a gente tenta fingir que há algum ânimo, se apega numa pesquisa desfavorável ao governo aqui, numa fala minimamente razoável de um opositor acolá, mas é pouco. Encontramos, no máximo, brevíssimos momentos de respiro num país que literalmente morre sufocado - ou de fome; muitos dos que ainda arrumam ar não têm nem mais um papagaio que possa lhes servir de almoço.

Pulando de carta em carta do Correio IMS, me encontrei numa de Henfil para a sua mãe. Estavam em 1980, já havia rolado a Lei da Anistia, mas a ditadura militar, ali sob comando de João Batista Figueiredo, ainda pesava. E muito. "Mãe, sem piadinha. Vou me abrir. Eu tenho acordado de uns seis meses para cá sem ânimo, sem esperança, sem vontade de brilhar, de lutar, de mudar a Lucinha, o Brasil, o mundo, o universo!".

O que mais conheço é gente que anda como o Henfil naquela carta - Lucinha, a propósito, era a companheira do jornalista e cartunista. O momento político e social do país sob o coturno de torturadores afligia Henfil ao mesmo tempo em que os trinta e tantos anos começavam a lhe incomodar.

A identificação com a carta de Henfil não termina aí. "O atual sistema, para governar, nos fez pessimistas. E pessimista não dorme, não faz amor, não faz partidos, não incomoda, não reclama, não briga". Exceto pelo governar, verbo completamente estranho a Bolsonaro, todo o resto se aplica ao Brasil de hoje. Me parece um fato: estamos desolados, desesperançados, apagados.

Mas se apegar ao desânimo não é uma alternativa. Tomo novamente as palavras de Henfil: "Pessimistas de todo o Brasil, uni-vos! Somos a maioria!".

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Errata: o texto foi atualizado
As cartas estão no Correio IMS, mas, diferente do que foi informado antes, não integram o acervo da instituição. A de Graciliano Ramos foi retirada do site oficial do autor, enquanto a de Henfil está no livro "Cartas da Mãe" (Codecri).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL