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Ficamos onde? Série sobre rock latino-americano ignora o Brasil

Quebra Tudo - Reprodução
Quebra Tudo Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

19/01/2021 09h39

Do rock nacional, os Paralamas provavelmente são o maior exemplo de banda que conseguiu extrapolar nossas fronteiras. João, Herbert e Bi gravaram álbuns em espanhol, fizeram turnês pela América Latina e conquistaram um público fiel em países vizinhos.

Os três também foram responsáveis por trazer referências latino-americanas ao rock brasileiro. Gravaram com nomes icônicos da música argentina e incorporaram uma pegada caribenha ao próprio som. "Os Paralamas trocam o rock rangente pelo mantra jamaicano e saem por cima", escreveu o "Estadão" em 1986, após o lançamento do disco "Selvagem?". Pesco a lembrança em "Dias de Luta - O Rock e o Brasil dos Anos 80", de Ricardo Alexandre (tenho em mãos a edição da DBA, mas depois o livro foi reeditado pela Arquipélago).

A proposta de "Quebra Tudo: A História do Rock na América Latina" já está escancarada em seu título e subtítulo. Em seis episódios que variam de 45 a 55 minutos, a série da Netflix parte da chegada do rock ao México ali pelos anos 1950 para mostrar como o gênero se transformou num fenômeno também no que há abaixo do Rio Bravo.

De interessante, destaco os muitos momentos em que, numa América Latina tomada por ditadores ou outros estúpidos poderosos, música e política passam a se trombar, estranhar e conflitar em esquinas de cidades como Buenos Aires e Santiago. Em menor dose, acompanhamos como guitarras e baterias se misturaram com questões sociais no Peru, na Colômbia e no Uruguai. E paramos por aí. Territorialmente, a América Latina da série parece se resumir a meia dúzia de países.

O que se passou na cena musical do México e da Argentina, terra natal do diretor Picky Talarico, dita o tom da série documental. Quem assiste ao programa esperando por uma visão múltipla da América Latina se decepciona. Há mais preocupação em colocar um figurão inglês que legitime a música feita neste grande canto do continente (como se precisássemos disso) do que em explorar o rock praticado em países da América Central, ignorada ao longo das 5 horas de imagens de arquivo e entrevistas.

"Quebra Tudo: A História do Rock na América Latina" também despreza o rock brasileiro. Sei que muita gente tem certa dificuldade de enxergar o Brasil como um país latino-americano, mas uma coisa é encontrar essa visão tacanha no boteco da esquina, outra é vê-la contaminar um trabalho como o de Talarico. Se comecei este texto lembrando do sucesso dos Paralamas em países vizinhos e também citei as referências caribenhas em suas músicas, é porque a banda seria a via mais óbvia para conectar o rock brasileiro ao que estava rolando em outros cantos do continente. De quebra, ainda daria para voltar o olhar para o que há entre o limite norte da Colômbia e as fronteiras sul e leste do México.

Não que seja uma série desprezível. Se ignoraram o Brasil, também é fato que o brasileiro pouco conhece o rock executado em qualquer língua que não seja o inglês ou o português. Assim, "Quebra Tudo" se mostra uma via bem aceitável para conhecer colossos latino-americanos como Charly García, Soda Stereo e Café Tacvba, entender a importância de artistas como León Gieco e Victor Jara e descobrir uma porrada de bandas que merecem ser escutadas.

Se deixaram o meu Attaque 77 de fora, então sugiro que comecem pelos uruguaios do La Vela Puerca.

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