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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Sou um monstro de cantor", dizia Timóteo em resposta aos críticos

O cantor Agnaldo Timóteo (1936-2021), morto neste sábado em consequência da covid-19 - Divulgação
O cantor Agnaldo Timóteo (1936-2021), morto neste sábado em consequência da covid-19 Imagem: Divulgação
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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

03/04/2021 17h25

Questionado certa vez sobre o fato de nunca ter sido convidado para dar um depoimento sobre a sua carreira ao Museu da Imagem do Som, Agnaldo Timóteo, morto neste sábado (03), em consequência da covid-19, disse: "Eles não me dão nem confiança. Nem a mim, nem ao Cauby, Benito di Paula, Nilton Cesar, Nelson Ned, Moacir Franco, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi. Aqueles idiotas pensam que nós não existimos. E nós existimos".

Indagado, então, se ficava chateado com esta situação, Timóteo responde que não: "Cada vez que eu abro a boca, onde quer que eu esteja, se estiverem dez pessoas, vibram; se estiverem dez mil pessoas, também vibram. Eu sou um monstro de cantor. Eu sei o que represento. Ao abrir a boca, meu inimigo fica desmoralizado. Um cara como eu, gordo, feio, cabelo duro, preto, se não fosse um monstro de cantor, já teria desaparecido. Eu sei o que sou. Não estou nem aí para eles. E não adianta: o tempo vai se encarregar de deixar essa discriminação sepultada".

O desabafo está no livro "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Paulo Cesar de Araujo, publicado em 2002, com o subtítulo: "Música popular cafona e ditadura militar". Timóteo é um dos protagonistas da obra, ao lado de Paulo Sérgio, Odair José, Waldick Soriano, Nelson Ned e a dupla Dom & Ravel.

É um livraço. Araújo mostra como os cantores "cafonas" enfrentaram problemas e desafios semelhantes aos músicos da chamada MPB. Foram censurados, tiveram que mudar versos de músicas para driblar a ditadura, além de encararem o preconceito e a perseguição dos críticos.

Em 1975, Timóteo gravou "A galeria do amor", retratando uma noitada de paquera na Galeria Alaska, um famoso reduto de homossexuais no Rio. O cantor relata que a gravadora ficou preocupada com a ousadia. "Mas eu falei: gente, isso é uma realidade. São milhões de pessoas que vivem dessa maneira: homens com homens, mulheres com mulheres. Não se pode mais fugir dessa realidade hoje no mundo".

Ainda que posteriormente, no programa "Superpop", de Luciana Gimenez, Timóteo tenha negado ser homossexual, no livro de Araújo ele fala abertamente sobre o assunto. O cantor revela que a música "Grito de Alerta", de Gonzaguinha, foi escrita após ele contar a história do seu relacionamento com Paulo Cesar Souza.

Gonzaguinha não deu exclusividade da canção a Timóteo e ela foi gravada também por Maria Bethânia. Conta o cantor: "Eu fiquei pau da vida com o Gonzaguinha porque aquela história era minha, eu deveria ter sido até parceiro dele na música. Eu falei: 'Puta que pariu, Gonzaguinha, então eu te conto uma história da minha cama e você dá a música para Bethânia gravar!?'"

Mineiro, de Caratinga, nascido em 1936, Timóteo foi torneiro mecânico, depois motorista de Ângela Maria. Batalhou muito para fazer sucesso.

Em depoimento a Araújo, ele resume: "Foi a carreira mais difícil do Brasil. Onze anos para chegar ao sucesso, sendo cinco anos com ódio. Minha vitória virou obsessão, eu tinha que me vingar. Cada vez que alguém me espezinhava, me humilhava, eu voltava para casa e dizia: ainda vou me vingar".