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Mauricio Stycer

Por que o "BBB" virou caso de polícia? O que a série do UOL quis discutir

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

31/01/2021 06h01

No ar desde quarta-feira (27), disponível no UOL, a série documental "BBB: Casos de Polícia" resgata incidentes de machismo, violência de gênero, racismo e homofobia que ocorreram ao longo das primeiras 20 edições do "Big Brother Brasil", o bem-sucedido reality show da Globo.

Treze pessoas foram entrevistadas, entre os quais os ex-participantes Íris Stefanelli (BBB7), Kleber Bambam (BBB 1 e 13), Felipe Prior (BBB 20), Serginho Orgastic (BBB10), Ronan Oliveira (BBB16), Marcelo Dourado (BBB4 e 10), Paula Von Sperling, Danrley Ferreira e Vanderson Brito (BBB19).

Assim como no documentário "O Lado B do BBB", lançado em 2020, minha intenção ao sugerir ao MOV a realização de "BBB: Casos de Polícia" era ir além do impacto do programa sobre os participantes e ver como a discussão de pautas sociais progrediu no Brasil a partir de casos que surgiram no programa.

Assisto "BBB" desde a primeira edição e escrevo profissionalmente sobre o programa desde o "BBB 9", vencido pelo Max. É o principal reality da TV brasileira e, por mérito da Globo, é um sucesso de audiência e faturamento.

Visto inicialmente como um programa de baixa qualidade, um "lixo", o "BBB" mudou muito nos últimos anos, e uma das principais novidades foi a enorme repercussão de casos que tratavam de temas graves, como assédio sexual, racismo e homofobia, e envolveram a polícia.


Tenho três hipóteses para o BBB ter virado caso de polícia.

1. A facilidade de gravar o programa 24 horas e difundir, via redes sociais, trechos polêmicos. Não havia isso na primeira década do programa.

2. Uma mudança no conceito do que é tolerável ou não. A sociedade mudou. Diego Alemão foi campeão em 2007 após manter um "namoro" com duas mulheres ao mesmo tempo; hoje, acredito, seria eliminado na primeira semana.

3. Uma sensibilidade (e uma noção de espetáculo) maior de polícia e advogados, que usam os casos do BBB para chamar a atenção para crimes que não costumam merecer muita atenção.

A Globo incentiva essas polêmicas? É óbvio, para mim, que os elencos são montados pensando em possíveis conflitos. Por que o BBB 19 contou com cinco participantes negros? Isso nunca tinha acontecido antes.

Tem muito mimimi? Odeio quem fala que discutir temas importantes como racismo no "BBB é mimimi". Quem fala isso é por que não quer discutir nada e quer abafar a voz de quem está disposto a protestar ou discutir assuntos relevantes.

Essa discussão é boa para a sociedade? Gosto quando o "BBB" se mostra um espelho da realidade brasileira. Mas tenho a impressão que a Globo fica com medo. Nunca vou esquecer do Tiago Leifert criticar a Nayara, do "BBB 18", por fazer, segundo ele, "militância".

O que acha da judicialização? A judicialização do "BBB" é uma consequência inevitável dos assuntos que o programa levanta. Não se trata de gostar ou não gostar disso. Quanto mais o programa reflete a realidade, mais questões polêmicas vai levantar e mais assuntos podem acabar na polícia e/ou na Justiça.