PUBLICIDADE
Topo

Mauricio Stycer

"Não se pode excluir a pessoa sem ter um julgamento", lamenta Felipe Prior

Felipe Prior dá entrevista ao documentário "BBB: Casos de Policia" - Douglas Lambert/UOL
Felipe Prior dá entrevista ao documentário "BBB: Casos de Policia" Imagem: Douglas Lambert/UOL
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

29/01/2021 05h00

Na primeira grande entrevista que dá desde que foi acusado de estupro por três mulheres, Felipe Prior, ex-participante do "BBB 20", se diz inocente e pede para não ser prejulgado. Ele fala dos prejuízos que está sofrendo, critica o sensacionalismo da mídia e afirma que não é machista.

A entrevista com Prior foi realizada na semana passada, em São Paulo. O arquiteto concordou em falar para o documentário "BBB: Casos de Polícia", realizado pelo UOL. Pequenos trechos do seu depoimento aparecem no segundo episódio do programa. Prior concordou que publicássemos o conjunto da entrevista separadamente, o que está sendo feito aqui (no vídeo acima e na transcrição abaixo).

Impacto nas redes sociais
Acredito que eu tinha 1.200 seguidores no Instagram. Saí (do BBB) com 6,7 milhões e hoje estou com 5,7 milhões. Acabei perdendo um pouco. Acho que fui a única pessoa que ganhou 1 milhão de seguidores num dia. O próprio Instagram acaba entendendo que posso ter feito algo para burlar as regras de ganhar seguidores. Ganhei muito rápido. Então, ele começou a derrubar seguidores meus. E eu também fiz alguns sorteios, o que é ruim para o perfil do Instagram. O computador entende que algo errado está acontecendo.

Entrei no BBB na brincadeira mesmo, na zoeira. Não sabia nem o que eu estava fazendo lá. Não fui pensando em como ia ser depois. Entrei como se fosse uma diversão.

Não tinha a mínima noção do poder que a rede social tem. Tanto positivamente quanto negativamente. E também o quanto a rede social consegue me ajudar no trabalho. Eu sempre fui arquiteto. Talvez por isso eu entrei na brincadeira do Big Brother. Porque eu já tenho uma carreira consolidada de sete anos trabalhando no meio de arquitetura.

"Só sai mentiras"
Hoje em dia o que me incomoda muito é que notícia boa não sai na mídia. Coisas boas que deveriam sair para um influenciador influenciar outras pessoas a fazer igual não saem. O que sai é só coisas ruins, mentiras, porque isso vende. Isso dá like. Isso me incomoda. O seu engajamento quando sai uma notícia falsa aumenta muito. Hoje tem artistas que criam coisas para ter engajamento. Isso é bizarro.

Eu cheguei para votar no dia da eleição. Queira ou não queira, eu paro o lugar. Porque todo mundo tem um carinho muito grande. Tava todo mundo brincando comigo. Na hora em que fui votar, a máquina travou. Aí o pessoal na fila começou a fazer piada. E eu fui filmar. 'Obrigado a todo mundo que votou em mim. E hoje é meu dia de fazer minha obrigação. Votar'. Só fiz isso. Filmei isso. Não filmei meu voto. E começaram a falar que eu cometi crime eleitoral. Um monte de coisa. Eu posso ter feito errado. Eu não sabia, fui na inocência. O certo é nem entrar com celular. Fui errado. Isso me incomoda. Porque repercute a nível nacional.

"Estão me deixando na geladeira"
Eu vendo muito. O que me monetiza são os meus negócios. A minha pizzaria eu vejo o retorno que dá um post meu. Eu sei o poder que tenho nas redes sociais. E as próprias marcas sabem o poder que eu tenho. Porém, teve um outro problema que eles hoje estão me deixando na geladeira, mas eles sabem o poder que tenho. E por isso criam coisas sobre mim. Porque sabem que vai dar clique, e o clique dá dinheiro. É o capitalismo.

O processo
Está havendo um processo, que eu não posso entrar em detalhes. Não tenho problema nenhum pra falar. Estou há um ano já vivendo com isso. Só eu sei o que a minha família está passando. Mas eu não vou me vitimizar nunca. Porém, sim, eu vou falar o que eu estou perdendo com tudo isso. Talvez era para eu estar fazendo muito trabalho. Muito trabalho. Hoje estou me capitalizando com pequenas marcas de bairro. Com os números que eu tenho, não era para trabalhar com marca de bairro. É nítido isso.

Eu vendo. Hoje, está acontecendo o processo, que eu sou inocente, não tenho problema nenhum em falar isso. Está em segredo de justiça. Meus advogados estavam até me segurando pra falar, muito porque eu não estava, talvez, preparado. Mas toda noite, antes de dormir, não consigo dormir. Por quê? Porque eu quero falar. A pior coisa que tem é você ser acusado injustamente. Estou com um tampão na boca. É muito ruim isso. Você vê seu pai, sua mãe chorando por conta disso. Isso é difícil.

Tenho mãe em casa, tenho mulheres na minha vida. Nunca namorei, mas tenho mulheres na minha vida. Se eu vejo alguém fazendo isso o que estão me acusando, eu sou a primeira pessoa a dar um pau no cara que fez isso.

Reportagem do "Cidade Alerta"
Do nada, tô na minha casa, tem uma aeronave sobrevoando. Pandemia. O Brasil inteiro, gente morrendo... Em vez do helicóptero da emissora estar resgatando gente, tava sobrevoando a minha casa, a minha pizzaria, onde eu tenho sócios. E ligando no celular da minha família toda, perguntando: 'O Felipe não vai falar nada?' Meio que dizendo: se ele não falar, ele fez isso. Minha mãe chorando, meu pai chorando, porque não sabiam o que fazer.

O helicóptero vinha na minha janela, na minha casa. Tive que fechar a persiana. Como se tivesse um ladrão dentro da casa, roubando a casa. Parecia que eu tava sequestrando alguém dentro da minha casa e que era o ladrão. Pelo amor de Deus, isso não se faz com ninguém. Por audiência? Ah, me poupe. Tudo tem um limite. Não vou nem falar o nome do apresentador. Não vou dar moral pra ele. Mas o que ele fez não se faz com ninguém.

"Consciência tranquila"
Hoje caiu um pouco a minha ficha do tamanho que eu sou. Estou fazendo um psicólogo, pra assimilar tudo isso. É um psicólogo da área esportiva. Estou retomando meu canal no You Tube...

Se eu não tivesse a minha consciência tão tranquila, tão tranquila, eu não estaria vivendo. Eu estaria com peso na consciência. Um cara que faz o que estão me acusando, não vive, não vive, não vive. Tenho certeza que o cara que mata alguém, ele carrega aquilo pro resto da vida dele. Ele não vai viver em paz. Hoje, eu não vivo o meu 100% de paz por causa da minha família.

Carinho dos fãs
Tudo isso que estão me acusando, bate e cai. Porque o carinho é gigantesco. Eu vejo na internet. Teve um dia que teve 300 mil tuites: 'Estamos com você, Prior'. É muita gente que gosta de mim.

"Estupro é assunto sério"
Tem mulheres todo dia que sofrem estupro. E é um assunto sério. Mas meu medo é: tudo isso que está acontecendo com pessoas públicas, como eu e outras pessoas que realmente não aconteceram, que vai ser provado como eu... Meu medo é começar a ter menos credibilidade.

Entrevista ao Fantástico
Quando sai do Big Brother, gravei uma entrevista para o Fantástico, que não foi ao ar. Foi uma das melhores entrevistas que já dei. Muitas atitudes que, pra mim, não eram machistas, eu cometia com a minha mãe. São atitudes machistas. 'Pô, mãe! Faz tal coisa pra mim!' A forma como eu falava. Por isso eu me julgava lá dentro (do BBB). Se eu estou sendo machista, se eu sou machista, desculpa, eu quero aprender. Porém, para você aprender, a pessoa que está do outro lado da cerca tem que ensinar.

Machismo no BBB 20
Eu pedi desculpa no programa, ao vivo. Falei assim: 'Pessoal, se eu cometi alguma besteira, não foi querendo ser machista. Jamais machucar a pessoa. Foi sem querer. Foi na brincadeira.' Naquele dia, pedi desculpas porque achei que tinha feito, como os meninos da minha turma podem ter feito. Foi muito generalizado isso. 'Homens'.

Assistindo depois, eu não me vejo uma pessoa que foi machista, que foi contra mulher. Nada disso. Pelo contrário.

A própria Flay, que é minha amiga, tava muito louca lá dentro. Ela pegou e abaixou as calças. Eu fui lá e falei: 'Flay, você tá louca?' E vesti a menina. Que cara que é estuprador, porque estuprador é uma doença, iria fazer isso com uma menina?

Paredão de 1,5 bilhão de votos com Manu Gavassi
Tinha muito robô. Não tem como ter 1,5 bilhão (de votos). Com todo respeito. Eu poderia ter a plaquinha do Livro dos Recordes junto, mas tinha muito robô. Eu vi na internet quando saí. O robô ajuda muito na votação. Porém, dou parabéns para todo mundo, pra toda produção do programa, pra todos os meus adversários, pro cara que saiu na terceira semana porque falaram que ele era machista. Todo mundo lá é humano. Ninguém tá lá pra ser pisado.

Petrix acusado de assédio no BBB
Tá completamente errado. Eu falei com o Petrix. Conversei com ele. falei: 'Pô, mano, vacilou!' Não se justifica. Eu não vou ficar falando por ele, mas eu dou a minha visão. Não se justifica o que ele fez. Está completamente errado. Porém, todo mundo tinha bebido. Todo mundo estava manguaçado. Não justifica! A ponto de no dia seguinte, ninguém lembrava de nada. Não justifica.

"Vamos deixar o Prior bêbado"
Eu tava na festa, depois eu assisti, dançando e as meninas falaram: 'Vamos deixar o Prior bêbado'. E se eu faço isso com uma menina? Eu ia ser o escroto do escroto do escroto. Cancelado. 'Compra uma arma e mata ele'. Isso aí era também pra ter sido julgado no meu paredão. Mas isso foi esquecido. A Manu e a Gizelly falaram. Elas podem ter falado como brincadeira. Mas foi falado. E tudo que a gente fala tinha peso. E isso não teve peso.

Rejeição de patrocinadores
O que me entristece muito é quando vejo amigos, não do Big Brother, que falam: 'Pô, Prior, eu não vou poder gravar com você porque a minha patrocinadora cortou'. Isso, pra mim, é tomar uma facada. É como se eu estivesse preso. Isso é segregar, é excluir. É falar, sem ter julgamento da pessoa, e excluir ela.

Não se pode excluir a pessoa sem ter um julgamento da pessoa. Pré-julgamento. Eu tô sofrendo muito com isso.

Colaborou Caroline Monteiro, produtora do doc "BBB: Casos de Polícia"