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Mauricio Stycer

Direção da CNN controla acesso de repórteres à Comunicação de Bolsonaro

Saguão da sede da CNN Brasil, em São Paulo - Divulgação
Saguão da sede da CNN Brasil, em São Paulo Imagem: Divulgação
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

16/07/2020 23h49Atualizada em 17/07/2020 09h28

Uma mensagem interna, distribuída para um grupo de profissionais da CNN Brasil, causou espanto no final da tarde desta quinta-feira (16). Segundo o aviso, os jornalistas da emissora não devem encaminhar pedidos de informação ou de entrevistas à Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência) sem consultar previamente a chefia.

Diz o texto da mensagem: "Atenção: Todo e qualquer pedido para a Secretaria de Comunicação da Presidência da República 'SECOM', assim como demandas relacionadas ao Presidente da República, não devem ser feitas diretamente antes de consultar previamente a gerência e direção (Tríade). Ou seja, favor não entrar em contato antes de consultar a Tríade. Obrigada".

"Tríade" é como foi batizado o esquema de checagem jornalística do canal. O conceito foi importado da matriz americana e definido assim pela CNN brasileira em uma reportagem em tom publicitário na revista "Go Where":

"Três setores fazem parte da tríade: "the row" (a linha), formado por editores-executivos; "the legal" (parte legal), constituído por advogados, que analisam as implicações jurídicas do material; e "standard and practices" (padrão e práticas), composto por diretores que analisam se o conteúdo da reportagem segue o manual de normas e práticas da CNN."

Em depoimento à revista, um dos executivos da franquia brasileira disse que a "tríade" ocuparia uma posição no centro da redação da CNN. Os profissionais desta equipe de editores seriam encarregados de avaliar se as matérias atendem a três critérios básicos: "Precisamos publicar? Devemos publicar? Podemos publicar?"

São preocupações que qualquer veículo de mídia tem. O que surpreende no aviso enviado aos jornalistas é o fato de a preocupação se estender às pautas, especificamente aquelas que dizem respeito ao governo e à Presidência. Por que este controle?

Em resposta, a CNN disse: "Trata-se meramente de uma organização interna de fluxo da redação da CNN, para o melhor funcionamento das redações de São Paulo e Brasília. O objetivo é evitar que cheguem vários pedidos simultâneos de resposta da CNN para qualquer órgão oficial e, em alguns casos, com os mesmos pedidos de resposta. A independência editorial da CNN está provada pelo jornalismo que leva ao ar diariamente desde que estreou no Brasil, há quatro meses."

Ainda segundo o canal "são os procedimentos adotados pela Tríade que valem para quaisquer órgãos. O pilar da tríade tem como função confrontar temas sensíveis a três perguntas-chave, cujas iniciais remetem à sigla do canal: 'Como fazemos isso?' (editorial); 'Nós podemos fazer isso?' (jurídico); e 'Nós devemos fazer isso?' (manual). Na esteira da importação do conceito, veio um ineditismo: no Brasil, pela primeira vez, a CNN terá a tríade no centro da newsroom, de forma cenográfica aos olhos do telespectador. Todos os caminhos da redação convergem na mesa triangular."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL