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Sozinho (ou quase) com Michelangelo no Vaticano

ADAM NAGOURNEY<BR><br>New York Times Syndicate *

14/03/2010 09h12

Era pouco depois das 20h, já estava escuro do lado de fora dos muros da Cidade do Vaticano e nosso pequeno grupo permitia que um guia nos conduzisse pelo labirinto dos Museus do Vaticano. Nós caminhamos por 40 minutos por galerias repletas de pinturas italianas dos séculos 15 e 16, pátios contendo esculturas greco-romanas e corredores aparentemente intermináveis contendo mapas antigos e tapeçarias mofadas, antes de passar por uma pequena porta que nunca notei nas minhas visitas anteriores.
  • Chris Warde-Jones/The New York Times

    Vista da Basílica de São Pedro dos Museus do Vaticano

Eu olhei para cima e percebi que tínhamos chegado à Capela Sistina. E apenas nós: os nove membros do grupo de excursão, um guia e um guarda do Vaticano.

Nosso guia, que não parava de falar ao longo do restante dos museus, ficou teatralmente silencioso enquanto nosso grupo parava, surpreso diante do lento reconhecimento de onde estávamos. Nós caminhamos por toda a capela, com as cabeças pendidas para trás e boquiabertos, desfrutando cada descoberta de uma nova perspectiva pela qual apreciar os afrescos presentes acima de nós e cobrindo as paredes.

Apenas nossos passos quebravam o silêncio. Nós tínhamos que nos posicionar.

Como qualquer um que já enfrentou uma visita à Capela Sistina durante o dia - o empurra-empurra dos grupos de excursão, os guardas bradando "é proibido fotografar, é proibido fotografar", a briga por assentos, a pressão para continuar andando para abrir caminho para os demais atrás de você - esta era uma indulgência da mais alta ordem.

Com pouca fanfarra, algumas poucas agências de turismo conseguiram nos últimos anos arranjar visitas após o horário normal aos Museus do Vaticano, culminando com a Capela Sistina. Sem causar surpresa, a visita privada tem um preço salgado: 275 euros (cerca de US$ 388, com o euro cotado a US$ 1,40) por pessoa, em um grupo limitado a 15 pessoas, apesar de ser possível negociar um preço por pessoa mais baixo caso seu grupo seja composto por várias pessoas. (O ingresso normal aos museus custa a partir de aproximadamente 15 euros.)

E vale a pena? Eu já visitei a capela duas vezes antes em viagens para Roma, e minha maior lembrança daquelas visitas era menos a "Criação de Adão" e mais a conversa dos turistas - e isso foi antes da restauração dos afrescos de Michelangelo começar a atrair mais pessoas por suas portas.

Este local onde papas são eleitos tinha toda a intimidade e espiritualidade do terminal central do metrô na hora do rush. Na minha mente, ao menos, isso tornava a Capela Sistina uma parada turística do tipo "estive lá, pode riscar da lista"; ela era impressionante, mas impossível de realmente ser apreciada e com pouco motivo para retornar.
  • Chris Warde-Jones/The New York Times

    Visitando a Galeria dos Mapas, onde 40 mapas são afrescos nas paredes, em um passeio noturno nos Museus do Vaticano


Mas meu amigo e colega no "The Times", Ian Fisher, que tinha feito a visita como chefe da sucursal de Roma do jornal, me informou que havia apenas uma forma de ver a Capela Sistina e nos colocou em contato com Helen Donegan, uma irlandesa e empresária encantadora que organiza uma das menores (e portanto mais caras) visitas disponíveis pela Internet. Desde o momento em que fiz contato com Donegan, toda a experiência tinha uma aura de algo vagamente ilícito, lembrando menos uma visita a um dos maiores museus do mundo e mais a entrada em clube after-hours em Nova York.

Donegan nos disse - meu colega, Ben, e eu - para comparecermos às 18h30 nos escritórios de sua agência de turismo na Via Vespasiano, a uma breve caminhada da entrada dos Museus do Vaticano. Nós chegamos e encontramos a porta da frente fechada, aparentemente confirmando meu temor de que aquilo não era real.

Mas, de repente, Donegan saiu pela porta do comércio vizinho, oferecendo um prato de bruschetta e taças de vinho enquanto nos juntávamos ao restante do grupo. A visita começaria às 19h. Era uma breve caminhada da Via Vespasiano até o Vaticano. O céu estava púrpura, a rua em frente ao museu estava deserta e as altas portas que levam ao seu interior estavam seladas. Ele certamente estava fechado.

Mas precisamente às 19h, como prometido, nós ouvimos o barulho de chaves no interior e uma das portas se abriu lentamente, iluminando a rua vazia. Sem dizer uma palavra, um guarda nos colocou para dentro enquanto passávamos pelos funcionários do museu de saída para voltarem para casa - e rapidamente a porta se fechou atrás de nós, antes que algum transeunte perguntasse o que estava se passando. O silêncio era quase assustador. Como a maioria das cidades europeias atualmente, Roma está saturada de turistas.

Passar pelas portas do Panteão ao anoitecer, poucas noites depois, era como tentar percorrer a Sétima Avenida, em frente ao Madison Square Garden, meia hora antes de um show de Bruce Springsteen. Dentro do museu, havia apenas nós e os poucos funcionários do turno da noite.

Para começar: esta não é uma visita para aqueles que desejam previsibilidade ou ordem. Como nosso guia, Jay Good, deixou claro desde o início, nós estávamos à mercê dos guardas do Vaticano e do relacionamento pessoal que eles têm com os guias.

O guarda pode decidir - antecipadamente ou de acordo com o momento - que salas abrir, onde podemos parar ou por quanto tempo. Com as chaves na mão, eles caminham à frente para abrir as galerias, e podíamos ouvi-los trancando as portas assim que saíamos.

"É uma monarquia absolutista", disse Good, natural dos Estados Unidos. "Nós temos certos guardas que são melhores do que outros. Depende do que eles sentem que dá para fazer."

A única promessa, disse Good, é que o visitantes verão a Capela Sistina e as salas de Rafael. A visita dura precisamente duas horas, e era óbvio a partir do guarda que ficava de olho em seu relógio - e exibia um olhar impaciente para Good quando bateu a marca de meia hora na Capela Sistina, que fica a uma longa caminhada da entrada - que aquele era um prazo rígido.

Isso tem implicações logísticas; em vários pontos, a visita ganhou um passo de corrida. (É simplesmente impossível ver os museus em duas horas.) Good disse que, dependendo dos desejos dos guardas e de seus próprios interesses (ele frequentemente conduz três visitas ao Vaticano por dia), ele escolhe salas e galerias diferentes no caminho para a Capela Sistina. Como a Galeria das Tapeçarias.

"Isto é completamente diferente durante o dia", disse Good. "Normalmente há 150 pessoas aqui."

Isso nos deu não apenas espaço e silêncio para ver as obras de arte, mas também cheirá-las; o cheiro forte de bolor, uma experiência sensorial que suspeito que seria difícil de sentir em uma sala lotada de turistas.

No pátio octogonal no museu Pio-Clementino, nós paramos para inspecionar a notável escultura de mármore branco de Laocoonte e seus filhos lutando com serpentes marinhas, atribuída a três escultores de Rodes que trabalharam no primeiro ou segundo século a.C. Se tivesse uma queixa, seria a de que gostaria de que houvesse mais tempo para nosso guia discutir as obras de Michelangelo, Rafael e Botticelli que nos cercavam durante nossa meia hora na capela.
  • Chris Warde-Jones/The New York Times

    O teto da Capela Sistina em um passeio noturno nos Museus do Vaticano

Como ocorreu, a caminhada de retorno pareceu uma corrida, com Good gentilmente nos puxando enquanto ele caminhava apressadamente para trás. Mas é uma queixa sem importância. Nosso grupo de nove podia sentar em qualquer lugar, caminhar por qualquer lugar e até (shhhh) tirar fotografia (sem flash, por favor). Este é o tipo de privilégio normalmente concedido apenas a líderes políticos proeminentes e celebridades.

"Eu não sei como as celebridades entram lá, mas sei que parece fácil para elas", disse Donegan, que disse que passou anos negociando com as autoridades do Vaticano para arranjar estas visitas. (Até recentemente, as visitas ocorriam cerca de uma vez por semana; agora elas ocorrem em intervalos irregulares.)

Nossa visita terminou tão furtivamente quanto começou. Os guardas abriram a porta, nos colocaram para fora rapidamente e a fecharam de forma igualmente rápida. Donegan nos esperava do lado de fora para nos levar de volta a seu escritório e nos acompanhar em um jantar tardio.

Se você for

Nós utilizamos a agência de turismo Italy With Us, que fornece uma série de visitas à Itália, incluindo visitas privadas após o horário de funcionamento aos Museus do Vaticano.

As visitas ocorrem aproximadamente uma vez por semana, apesar do horário variar dependendo da demanda e disponibilidade. Reservas devem ser feitas com pelo menos um mês de antecedência; atualmente são aceitas datas para abril, maio e junho, assim como para o final do ano. Preço: 275 euros por pessoa (cerca de US$ 388) para uma visita de duas horas, apesar de preços coletivos poderem ser negociados. Os grupos têm em média 20 pessoas, com um guia para cada 10. Italy With Us, Via Vespasiano 16-18, Roma; (39-06) 3972-3051; italywithus.com/vatican-after-hours.php).

Uma recente pesquisa descobriu outras opções de visita. Elas também oferecem visitas de cerca de duas horas após o horário normal de funcionamento.

Viator Tours (www.viator.com/Rome/d511/vatican-tours), com preço a partir de cerca de US$ 460 por pessoa, para grupos de até 20 pessoas. Context Travel (www.contexttravel.com), 280 euros por pessoa. Cada grupo de cerca de seis pessoas tem seu próprio guia.

* Artigo publicado originalmente em janeiro de 2010.

Tradução: George El Khouri Andolfato