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"Objetivo é dar tela azul": conheça Itsa, atleta de breaking e não-binária

Itsa, atleta de breaking, venceu a etapa brasileira da Red Bull BC One - Tauana Sofia / Red Bull Content Pool
Itsa, atleta de breaking, venceu a etapa brasileira da Red Bull BC One Imagem: Tauana Sofia / Red Bull Content Pool

Demétrio Vecchioli e Maria Victoria Poli

do UOL, em São Paulo

02/11/2021 04h00

Nem menina, nem menino. O caminho para Paris 2024 começou a ser trilhado por quem carrega o ritmo, a energia e a criatividade não só no esporte que pratica, mas também no estilo de vida e na forma com que decidiu encarar o mundo.

Itsa, de 23 anos, chega com o pé na porta apresentando uma nova modalidade olímpica — o breaking — e, também, um novo jeito de entender o gênero e a sexualidade. "O breaking foi a primeira comunidade que me acolheu dentro da sociedade. Foi onde eu consegui desenvolver minha personalidade e entender que tenho o direito de ser quem eu sou", conta elu.

Elu? Pausa aqui. A pedido de Itsa, vamos utilizar neste texto pronomes neutros. O que são eles? Uma forma de comunicação que vem sendo desenvolvida pela comunidade LGBTQIA+ e que respeita a diversidade de gênero. E por quê? Porque Itsa se considera uma pessoa não-binária, ou seja, alguém que não se identifica dentro do binarismo de gênero, não se identifica como mulher, nem como homem, apesar de verbalmente Itsa utilizar adjetivos no masculino para se referir a si.

"Essa questão da não binariedade já tinha vindo na minha vida antes mesmo de ter essa nomenclatura popularizada. Quando encontrei esse conteúdo, me identifiquei, mas tem todo o processo de ter uma postura diante da sociedade", diz. Itsa nasceu e cresceu em uma comunidade de Belo Horizonte e, apesar de se entender como não binária em 2018 e iniciar seu processo de identificação a partir daí, já lidava com questões de gênero desde o início da adolescência: no jeito de se vestir, nos hobbies, no jeito de andar, de falar e, claro, de dançar.

E foi justamente através da dança que elu deu os primeiros passos como artista e como profissional. Itsa faz parte do elenco do Cirque du Soleil, mais especificamente do espetáculo Bazzar, com sede no Canadá. O ambiente do circo foi fundamental para seu desenvolvimento.

No breaking, dois atletas duelam ao som de um DJ. Cada um vai ao centro da pista três vezes, em apresentações curtas, de menos de um minuto cada. O vencedor é definido por um corpo de jurados, que levam em conta a originalidade, o estilo e os movimentos em pé e no chão. A modalidade, uma variação do esporte "dança", estreia no programa olímpico em Paris.

"Meu processo de reconhecimento começou quando entrei no Cirque. Meu primeiro dia foi o da maquiagem. Eles já tinham várias fotos do meu rosto, cheias de rascunho, e era todo um estereótipo feminino. Eu não conseguia falar uma palavra de inglês, os anos foram passando e foi muito sofrido para mim", conta.

"A definição dos gêneros era muito distinta e não havia questionamento de estereótipos. Todas as meninas faziam uma maquiagem padrão. Isso é uma herança do sistema em que a gente cresceu", analisa Itsa, que, se sentindo deslocade, descobriu no diálogo uma ferramenta para realizar mudanças.

Esse mundo tão rosa e azul passa despercebido pela gente." Breaker Itsa

"No final de 2019, tive a oportunidade de dialogar. Eu tinha muito medo de questionar, hoje não tenho mais. Se ninguém questionar, vai ficar do mesmo jeito". Assim, algo simples causou enorme impacto, e foi o ponto de partida para um processo ainda maior de aceitação. "Muita gente achou idiota, mas para mim foi tão importante que eu queria soltar foguete. Foi uma vitória muito grande. Só de mudarem a cor do meu batom, de vermelho para azul, mudou a minha autoestima totalmente".

Itsa faz parte do elenco do espetáculo Bazzar, do Cirque du Soleil - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Itsa, atleta de breaking e artista do Cirque du Soleil
Imagem: Reprodução/Instagram

Os espetáculos foram cancelados durante a pandemia de Covid-19. Assim como muitos outros artistas e atletas, Itsa teve de buscar uma fonte alternativa de renda. "Não dá para viver só de arte, a gente estava numa pandemia, governo não estava ajudando. Talvez tenha como conseguir trabalhar só como atleta, mas não no Brasil", conta. Enquanto trabalhava com telemarketing, veio o convite da Red Bull para participar da final nacional do BC One, tradicional torneio de breaking. Com o troféu nas mãos, elu agora se prepara para disputar a fase mundial, na Polônia.

Diferente da arte, o esporte ainda é predominantemente binário, a ponto de os atletas serem chamados de "b-boy" e "b-girl". Itsa, que cresceu e se desenvolveu no breaking vendo homens dançando e dominando o ambiente, quer ser tratade como "breaker". "Não é só o breaking, a cultura hip hop é muito masculinizada. Eles têm esse espaço e essa liberdade para treinar muito antes que a gente". Mas o breaking não é só técnica: é personalidade, 'flow', estilo e musicalidade.

Foram as mulheres que lhe acolheram e, hoje, elu compete entre elas. "Não é que eu prefira estar de um lado ou de outro, mas eu me sinto mais seguro aqui [na disputa feminina]. Me perguntam se eu penso em competir com os caras. Penso. Mas foram as meninas que me acolheram, é onde me sinto mais confortável."

Itsa se encontrou no breaking. E o breaking parece encontrar em Itsa um aliade para conquistar o seu espaço como esporte olímpico. "O breaking está se encaixando na sociedade em que está vivendo. É um esporte, mas para mim vai continuar sendo um estilo de vida. É música, cultura, pessoas, é minha cor, minha família, minha renda, minha comida. Vai além de girar de ponta da cabeça".

Mais do que girar, é mexer com a cabeça daqueles que ainda julgam — indivíduos, gêneros e até modalidades esportivas. "O que eu pretendo levar [para Paris 2024] é a minha realidade. A gente não discute só aqui, pela voz. A gente é o discurso. Quero levar o discurso do hip hop, da comunidade LGBT e da periferia".

A mensagem de Itsa é como seu esporte, sua vida, sua arte: fluida. E com a coragem e a sabedoria para poder dançar a própria realidade, não importa se em Belo Horizonte, Canadá, Polônia ou Paris. "Meu objetivo é dar tela azul, mesmo. É instigar as pessoas. É abrir espaço para entenderem que eu sou uma pessoa e quando houver dúvida, estou aberto ao diálogo. Tomar um café, um pão de queijo e conversar".

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