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Como a relação Mauresmo e Pouille pode acabar com tabu sexista no tênis

Mauresmo e os filhos acompanham Lucas Pouille no Aberto da Austrália - William WEST / AFP
Mauresmo e os filhos acompanham Lucas Pouille no Aberto da Austrália Imagem: William WEST / AFP

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

24/01/2019 12h00

Em 2014, Andy Murray anunciou que a francesa Amelie Mauresmo era sua nova treinadora.Apesar do currículo vitorioso (Mauresmo ganhou dois Grand Slams e uma medalha de prata olímpica) da nova técnica, a notícia causou estranheza no circuito. Um dos jogadores, que hoje é técnico e não teve seu nome revelado, mandou ao britânico uma mensagem dizendo que "da próxima vez, ele deveria dizer que seria treinado por um cachorro".

A intenção era clara: como poderia um dos quatro melhores do mundo ter uma mulher como treinadora?

Passaram-se mais de quatro anos, mas hoje a ex-número 1 do mundo tem um resultado expressivo para mostrar para os preconceituosos que nunca a aceitaram. Há um mês, ela treina o francês Lucas Pouille, jovem promessa de 24 anos que chegou às semifinais do Aberto da Austrália, o melhor resultado de sua vida (pelo menos até agora) em Grand Slams.

Na última quarta-feira (16), Mauresmo estava sentada no boxe do tenista ouvindo elogios do pupilo que, nos últimos dois anos, temia que a carreira dava sinais de estagnação. "Ela é uma campeã e uma ótima treinadora", declarou Pouille.

Ao fazer a opção pela treinadora, Pouille focou somente nas qualidades, sem se importar com o gênero. Mauresmo ganhou pontos porque foi número 1 do ranking feminino em duas oportunidades, venceu Australian Open e Wimbledon em 2006 e conquistou a medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas. Como treinadora, conduziu duas atletas a título de Slams - Marion Bartoli e Victoria Azarenka. Ela ainda integra o Hall da Fama do tênis desde 2015.

Mauresmo e o troféu do Aberto da Austrália - AFP PHOTO/GREG WOOD - AFP PHOTO/GREG WOOD
Imagem: AFP PHOTO/GREG WOOD

Currículo vencedor não impediu preconceito

Amelie Mauresmo construiu uma reputação de respeito e, desde o juvenil, era apontada como futura estrela do circuito. A esquerda sempre foi tão boa que era comparada a poesia, e os voleios, considerados entre os melhores do circuito. No princípio da carreira profissional, a francesa conviveu com a fama de "amarelona", mas calou os críticos com dois Slams, incluindo o mais cobiçado de todos os campeonatos, Wimbledon.

Foram várias temporadas no topo do ranking e atitudes firmes. Mauresmo nunca pagou de "lacradora", mas adotou posturas que revelavam força e resiliência. Enquanto algumas mulheres viravam a cara ao menor sinal de perguntas sobre orientação sexual, ela levava a namorada aos torneios e assumiu ser gay aos 19 anos, em 1999, época mais intolerante do que a atual, quando a comunidade LGBT ainda lutava por visibilidade e direitos. 

Seu interesse por cultura e o gosto para arte e bons vinhos cativaram o circuito que tinha apreço pela francesa. Mas o amor acabou quando Murray anunciou a parceria em 2014. A reação do vestiário masculino foi do espanto ao preconceito. A tal mensagem desrespeitosa chegou no dia seguinte à contratação dela se tornar pública.

"Quando saiu na imprensa pela primeira vez que (eu) estaria trabalhando com uma mulher, recebi uma mensagem de um dos jogadores que agora está como técnico. Ele me disse: "adoro esse jogo que você está fazendo com a imprensa. Talvez da próxima vez você deva considerar trabalhar com um cachorro", disse Murray em entrevista à revista norte-americana Elle no ano de 2017.

A treinadora precisou conviver com atitudes capciosas cada vez que o tenista era derrotado. Nos jogos perdidos, alguns jornais creditavam a francesa o mal resultado. Nas vitórias, era ignorada. Murray, no entanto, sempre elogiou o trabalho dela.

Lucas Pouille comemora vaga nas semifinais do Aberto da Austrália - DAVID GRAY / AFP - DAVID GRAY / AFP
Imagem: DAVID GRAY / AFP

Mauresmo reergueu Pouille

Amelie Mauresmo não se abalou e se entregou ao trabalho. Manteve Murray no topo e ainda conduziu o tenista ao primeiro troféu no saibro. A parceria acabou dois anos depois, com a gravidez do primeiro filho - ela e sua companheira têm um menino e uma menina.

Um exemplo da dedicação dela é que no ano seguinte à aposentadoria como tenista, ocorrida em 2009, decidiu correr a maratona de Nova Iorque. Três ex-tenistas homens também participaram e todos terminaram atrás dela. O tempo dela foi 33 minutos acima do top 100 feminino.

No ano em que teve o segundo filho, em 2017, Mauresmo voltou à prova e melhorou o resultado em 10 minutos. É por atitudes como esta que Lucas Pouille ressaltou o espírito de campeã da treinadora. 

"Ela tem a mentalidade certa, sabe tudo sobre o tênis", disse Pouille em entrevista, depois de bater o canadense Milos Raonic por 3 sets a 1, resultado que garantiu sua presença nas semifinais do Aberto da Austrália.

O tenista precisava de uma pessoa com mente campeã, porque passava por uma fase ruim. Depois de chegar ao top 10 no começo de 2018 e confirmar a ascensão que se esperava de um jovem bastante talentoso, enfrentou altos e baixos e viu o ranking cair até se tornar 32º do mundo. Foi uma mulher quem tirou o francês da seca, o que o fez questionar o motivo de não haver mais técnicas no circuito.

"Várias jogadoras são treinadas por homens, então por que não (acontece) o contrário? Como eu disse repetidas vezes, o que importa é saber de tênis e um bom estado de espírito", falou o francês.

Mauresmo é descrita como uma pessoa absolutamente focada e detalhista quando está em quadra. Terminado o treinamento, é capaz de falar de diversos assuntos e tem uma mentalidade leve.

Mas, no circuito, o que importa é resultado. Mauresmo conseguiu fazer seu pupilo acreditar em si e atingir o melhor resultado de sua carreira. Na coletiva, Pouille afirmou que pode vencer o número 1 do mundo, Novak Djokovic. A boa colocação do jovem francês no Slam, independente de sair como uma vitória ou não sobre Djokovic, fortalece o nome de Mauresmo como uma das principais treinadoras do tênis atual. Feito que pode abrir as portas para que mais mulheres assumam posições de relevância no fechado mundo tenista.

A carreira da treinadora Mauresmo

  • Michael Llodra (2010 e 2011) - Ela treinou o francês somente na temporada de grama. Em cinco torneios disputados, ele fez uma final em Eastbourne (Inglaterra) e oitavas em Wimbledon. 
  • Victoria Azarenka (2012) - Mauresmo passou a fazer parte da equipe da então número 1 do mundo. A parceria rendeu o Aberto da Austrália daquele ano e manutenção do topo do ranking. 
  • Marion Bartoli (2013) - A compatriota estava longe de ser favorita em grandes torneios. Venceu Wimbledon sem perder sets ou jogar tie breaks.
  • Andy Murray (2014 a 2016) - Foram sete títulos, incluindo o primeiro troféu no saibro. Ele voltou ao top 3 com a parceria com Mauresmo.
  • Lucas Pouille (2019) - Em menos de dois meses de trabalho, Mauresmo conduziu o tenista ao melhor resultado em Grand Slam da carreira e o fez acreditar que poderia bater os melhores do mundo.

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