Vale como Copa?

Euro começa nesta sexta mais poderosa do que nunca e deve estabelecer o que esperar para o Qatar 2022

Arthur Sandes e Rafael Reis Do UOL, em São Paulo e em Ribeirão Preto Kirsty O'Connor/PA Images via Getty Images

Durante muito tempo, a Eurocopa foi vendida internacionalmente como uma versão resumida da Copa do Mundo, desfalcada apenas de Brasil e Argentina. Mas, pelo que vem acontecendo no cenário internacional, as duas seleções mais tradicionais da América do Sul estão se tornando cada dia ausências menos sentidas para o torneio do Velho Continente.

A competição, que começa hoje (às 16h, de Brasília) com a partida entre Itália e Turquia no estádio Olímpico de Roma, e vai até o dia 11 de julho, reúne aquilo que de melhor existe no futebol atual.

As últimas quatro seleções campeãs do mundo (Itália, Espanha, Alemanha e França) estarão nos gramados da Euro, assim como três dos quatro vencedores mais recentes do prêmio de melhor jogador do planeta (Cristiano Ronaldo, Luka Modric e Robert Lewandowski).

Dos 11 titulares da "seleção do mundo" elaborada pela FifPro, o sindicato internacional dos jogadores, seis estão a postos para o torneio. E dois deles, o lateral direito inglês Trent Alexander-Arnold e o zagueiro holandês Virgil van Dijk, só acompanharão a disputa pela TV porque estão machucados.

Faltando só 17 meses para a Copa do Qatar de 2022, a Euro não é apenas a competição que vai entregar um valioso troféu para uma das suas 24 seleções participantes. O torneio é também a melhor prévia que qualquer equipe poderia ter para entender o que esperar do Mundial do próximo ano.

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Hegemonia europeia

A história do futebol mundial foi toda construída a partir de um curioso equilíbrio de forças entre Europa e América do Sul. Até a Copa-2010, cada um dos deles tinha exatamente o mesmo número de títulos do torneio mais importante de todos: nove.

Se o Novo Continente produziu Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Alfredo di Stéfano, Diego Maradona e Lionel Messi, o Velho deu ao planeta pesos pesados da bola do porte de Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Ferenc Puskás, Michel Platini, Zinédine Zidane, Eusébio e Cristiano Ronaldo.

Só que esse balanço saiu de compasso nos últimos tempos. Enquanto a Europa continuou gerando craques, conquistando títulos e fazendo suas seleções evoluírem, a América do Sul pisou no freio e tem dado indícios que está ficado para trás.

Pela primeira vez na história, quatro edições consecutivas da Copa do Mundo foram vencidas por seleções do mesmo continente, o europeu. Na Rússia-2018, há três anos, a hegemonia foi tão ampla que o lado de lá do Oceano Atlântico emplacou seis seleções nas quartas de final e fez todas as semifinalistas.

Os prêmios individuais também se tornaram cada vez mais deles. Nos últimos 12 anos, apenas um sul-americano (Messi) venceu a eleição de melhor do mundo. E o brasileiro Neymar foi o único outro que subiu ao pódio no período. Já a Europa ganhou com três atletas diferentes e colocou mais sete nomes entre os três primeiros colocados de alguma edição do prêmio da Fifa.

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Europa de imigrantes e miscigenada

O período de maior domínio europeu no futebol mundial desde que a modalidade realmente se transformou em algo global, ainda no século passado, coincide com a abertura gradual das seleções para filhos e netos de imigrantes vindos de outros continentes.

Cerca de 15% de todos os jogadores inscritos na Euro-2020 (que manteve o nome original apesar de ser jogada em 2021) possuem alguma dupla cidadania que permitiria que disputassem algum outro torneio continental, como Copa América ou Copa Africana de Nações.

Só de brasileiros natos, são seis (Emerson Palmieri, Jorginho, Mário Fernandes, Marlos, Pepe e Rafael Tolói). Há ainda o meia Thiago Alcântara, filho de um brasileiro (o tetracampeão Mazinho), que veste a camisa 10 da Espanha. Nunca antes o "país do futebol" esteve tão representado no torneio.

Algumas das principais estrelas do continental descendem de pessoas que foram para a Europa em busca de melhores oportunidades de vida. Os franceses Kylian Mbappé e N'Golo Kanté, por exemplo, poderiam jogar pelas seleções de Camarões e Mali, respectivamente. Já o belga Romelu Lukaku também tem cidadania da República Democrática do Congo.

O surgimento desses jogadores e também a miscigenação ocorrida na parte mais rica do Velho Continente nas últimas décadas deram às seleções da Euro uma variabilidade genética maior, com um leque mais amplo de tipos físicos de jogadores para serem escolhidos, lapidados e utilizados para conquistar o mundo.

Divulgação/Uefa

A Euro como ideal de pós-pandemia

Demorou doze meses além do planejado, mas a Euro 2020 finalmente vai começar. E, assim mesmo, ainda com o ano passado no nome, nas placas e em toda a identidade visual, pois a Uefa decidiu manter a homenagem aos 60 anos da competição e aproveitar todo o material que já estava pronto antes da pandemia.

A Euro pretende passar à história como um evento simbólico que represente o início do pós-coronavírus. Se na América do Sul a covid-19 ainda é um problema terrível, e a Copa América faz pouco para mudar esta situação, o mesmo já não ocorre nos países europeus em que a vacinação avança rapidamente: na média, os 11 países-sede da Eurocopa administraram 63 doses de vacina a cada 100 cidadãos, quase o dobro do Brasil (35,1), segundo dados oficiais compilados pelo ourworldindata.org.

Tentando dobrar a esquina na pandemia, a Euro deu um jeito de ter público em todas as partidas e servirá de amostra do que o mundo do futebol pode vir a ser depois da covid-19. Em campo, é claro, as seleções prometem jogos animados por uma safra de craques que dá gosto de ver.

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Público liberado, mas uma sede a menos

A Eurocopa deveria ter 12 sedes, mas acontece com uma a menos: depois de muita pressão, Dublin acabou cortada da lista por não garantir a presença de público no estádio local. Na Espanha, Bilbao foi substituída por Sevilha com base na mesma exigência. Forçando aqui e ali, a Uefa conseguiu remanejar partidas e liberar torcedores em todo o torneio.

Dez estádios recebem de 22% a 50% de suas capacidades. A única sede com lotação máxima é Budapeste, na Hungria, um ineditismo que em parte se explica no autoritarismo de um governo que usou a pandemia para ampliar o próprio poder.

Pode parecer o paraíso para o brasileiro, que não vai a estádio a mais de um ano, mas toda esta flexibilização da Euro está limitada a uma infinidade de protocolos. Cada cidade-sede tem suas próprias restrições de viagem e exigência de testes, de modo que cada torcedor precisa se inteirar de todas as determinações.

A Uefa ampliou o número de convocados de cada seleção (de 23 para 26) na tentativa de reduzir o impacto de possíveis surtos de coronavírus, mas nem todo o cuidado do mundo garante uma Euro livre da covid-19. Já há ao menos duas seleções com casos ativos e precisando fazer isolamento de atletas — a Espanha, com Busquets, e a Escócia, com John Fleck.

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Quem vai desafiar o favoritismo francês?

A França campeã do mundo chega à Euro tão bem ou até melhor do que estava em 2018: mantém praticamente o mesmo time e soma apenas duas derrotas nos 23 jogos oficiais disputados desde a Copa na Rússia. Entre os convocados, Kanté agora vive fase indescritível, e Benzema volta a ser opção no ataque após seis anos.

Mas a Euro virou também um desafio aos franceses. O sorteio dos grupos foi ardiloso e garantiu jogos grandes já na primeira fase: as duas últimas campeãs mundiais (França e Alemanha) caíram na mesma chave do atual campeão europeu (Portugal).

Há certa badalação também em torno da Bélgica e da Inglaterra, uma assumindo da outra o prefixo "nova geração", agora que Jadon Sancho, Phil Foden e Marcus Rashford empolgam os ingleses. No grupo de seleções favoritas, correm por fora a Espanha em sua primeira grande prova, e a Itália de três convocados brasileiros.

David Ramos/Getty Images

Craques de sobra

Esta deve ser a última Eurocopa de Cristiano Ronaldo, que aos 36 anos defende o título de 2016 com Portugal e já começa a passar o bastão a João Félix. Por outro lado, é a primeira grande competição de seleções de jovens como os ingleses Sancho e Foden, os espanhóis Fati e Pedri, e o holandês De Ligt. O grande elenco ainda tem o atual melhor do mundo (Lewandowski, polonês) e o herói da última final de Liga dos Campeões (Havertz, alemão).

Dos destaques da última Copa do Mundo, estarão na Euro o artilheiro (Harry Kane, inglês), o melhor jogador (Modric, croata), o melhor jovem jogador (Mbappé, francês) e também o melhor goleiro, Courtois, da agora nem tão nova geração belga, que ainda tem De Bruyne e Lukaku e, inclusive, eliminou a seleção brasileira do Mundial em 2018.

Também há desfalques de peso, no entanto. O badalado Haaland não conseguiu classificar a Noruega e está fora da Euro; o inglês Alexander-Arnold e o holandês Van Djik estão lesionados e também não jogam; e Sergio Ramos, o jogador com mais aparições pela seleção espanhola na história, não foi convocado por opção.

Blogueiros apostam na força dos campeões do mundo

A França é a favorita. Tem a moral de ser a atual campeã do mundo, com o mesmo treinador, a base titular forte, a volta de Benzema, reservas bons e a gana de não deixar a Euro escapar, como aconteceu em 2016 jogando em casa. Pode repetir a dobradinha que a geração de Zidane conquistou na Copa de 1998 e na Euro 2000.

André Rocha, blogueiro do UOL Esporte

A França é claramente favorita, bem acima dos demais, com Alemanha e Bélgica aparecendo em um nível secundário. Com a volta do Benzema, o título dificilmente não será francês. Eles podem até montar dois times para uma fase dura com Alemanha e Portugal, para ter fôlego de sobra no mata-mata. Foi o que o Deschamps fez na Copa do Mundo.

João Henrique Marques, correspondente do UOL Esporte na Europa

A França é a grande favorita. Atual campeã do mundo, fez uma grande campanha na última Euro (perdeu a final para Portugal) e tem um time titular fortíssimo e que joga junto há muito tempo. Além disso, chega com Mbappé, Benzema e Kanté em excelente fase. A Inglaterra é outra favorita, mas precisa comprovar sua força em jogos decisivos.

Rodolfo Rodrigues, blogueiro do UOL Esporte

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