O que acontece com Roger?

Demissão no Flu repete outras passagens do técnico que despontou como esperança e ainda não decolou

Caio Blois Do UOL, no Rio de Janeiro Lucas Merçon

Roger Machado não resistiu à queda de desempenho e à eliminação na Libertadores e não é mais o técnico do Fluminense. A demissão no Tricolor parece repetir outros momentos da carreira do treinador, que despontou como jovem esperança e ainda não decolou. O que acontece em seus trabalhos?

Seja no Grêmio, Atlético-MG, Palmeiras, Bahia ou Fluminense, Roger costuma chegar coberto de elogios e ser muito querido por atletas e funcionários. O conhecimento de futebol acima da média fica bem claro a cada conversa, e os firmes posicionamentos sobre política e sociedade o diferenciam dos colegas.

Mas em todos os clubes, o que começa bem degringola. Após o primeiro trabalho, o melhor de sua carreira, o treinador só ficou mais de um ano no Bahia, onde o próprio presidente, Guilherme Bellintani, hoje diz que deveria ter encerrado a passagem antes do que fez.

Na opinião do dirigente, o sistema de Roger Machado foi rapidamente lido pelos adversários, sem que alternativas fossem desenvolvidas. No fim, o que era esperança acaba em frustração e apatia. A crítica é a mesma em Galo, Verdão e Flu.

Lucas Merçon

No Flu, identificação sem identidade

Como jogador, além do Grêmio, Roger Machado só atuou pelo Fluminense no futebol brasileiro. Autor do gol do título da Copa do Brasil de 2007, que tirou o Tricolor de uma fila de 23 anos sem conquistas nacionais, ele voltou ao clube como treinador sob forte identificação. Mas não conseguiu construir identidade.

No vestiário, repetiram-se as questões do passado. Como a instabilidade e inexperiência nos momentos de pressão, além de uma leitura de jogo ruim e insistência em peças que não davam retorno. Apoiado pelo presidente Mário Bittencourt, deixou escapar uma vaga na semifinal da Libertadores e sai de uma equipe que está na briga contra o rebaixamento no Brasileirão.

Roger não soube aproveitar o legado de um time seguro e eficiente de 2020 com Odair Hellmann e Marcão, e fez o Flu andar para trás. Os destaques individuais do ano passado não repetiam as boas atuações, e sua equipe tinha os mesmos problemas dos trabalhos anteriores: dificuldade para criar e converter chances, e exposição exagerada da defesa.

"Ele não conseguirá tirar mais nada desse time", afirmou um funcionário do clube ao UOL Esporte antes mesmo da eliminação da Libertadores e de sua demissão.

Lucas Merçon / Fluminense Lucas Merçon / Fluminense

Colunistas falam sobre a queda

Arquivo pessoal

Milly Lacombe

Roger Machado é um dos mais promissores técnicos do nosso futebol. Ser jovem, negro e de esquerda o coloca numa posição singular num ambiente dominado por técnicos brancos que ou não se posicionam ou simpatizam com a extrema-direita."

Ler mais
Divulgação/Dazn

Rafael Oliveira

"O rótulo que pegou no início promissor do Roger era de um treinador que falava outra linguagem e que por isso passou a cobrado, como se tivesse de ser fora da curva, devido aos termos utilizados. A partir daí começou a surgir uma certa implicância."

Ler mais
Divulgação

Julio Gomes

Roger Machado incomoda. Recentemente, citei como o racismo poderia ser um fator para tantas críticas caírem sobre Roger. Falo de forma generalizada sobre como muitos batem em Roger de forma mais virulenta do que batem em outros."

Ler mais
Lucas Uebel/Grêmio

Início avassalador no Grêmio

No Grêmio, onde apareceu para o cenário nacional, suas ideias modernas moldaram a base do grande time que conquistou Copa do Brasil (2016), Libertadores (2017) e Recopa Sul-Americana (2018) já com Renato Gaúcho. A equipe de 2015 jogava bonito, valorizando a posse de bola e encantando no ataque sem perder força na parte defensiva.

De cara, o técnico liderou uma revolução no dia a dia. Com treinamentos mais específicos, usando o grupo de trabalho do clube e a estrutura, transformou o time. As boas atuações passaram a ser rotina e a escalada na tabela do Brasileirão daquele ano aumentou a expectativa da torcida e opinião pública.

Em 2016, a equipe seguiu com bons jogos, mas não evoluiu. Depois, passou a ter problemas na criação e a defesa ficou exposta. Após uma série de resultados ruins, pediu demissão. Os dirigentes tentaram demovê-lo da ideia em uma reunião de mais de uma hora, mas não houve consenso.

Nos bastidores do Grêmio, à época, a leitura também foi de que o treinador não conseguiu mostrar repertório para superar fase ruim da equipe. Ainda hoje, porém, o trabalho dele é citado como base para o sucesso de Renato Gaúcho, que assumiu em setembro de 2016 —foi campeão da Copa do Brasil meses depois— e ficou no cargo até março de 2021.

Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação

Decepção na Cidade do Galo e na Academia

O bom trabalho no Imortal o credenciou a comandar o Atlético-MG em 2017. Entre sua demissão no clube gaúcho e a chegada à Belo Horizonte, uma particularidade já ficou marcada: o treinador afirmou que não aceitaria comandar clube algum se fosse para ser contratado no meio do ano. Valeria apenas no início. E assim foi na Cidade do Galo, onde conquistou seu primeiro título: o Campeonato Mineiro, sobre o arquirrival Cruzeiro —que ainda não dava sinais de que viria a ser um time de Série B três anos mais tarde. Pouco depois, entretanto, degringolou e acabou demitido.

Ainda com moral pela boa passagem no Grêmio, Roger assinou com o time mais rico do Brasil em 2018, o Palmeiras. Em sua chegada, foi elogiado pelas novas metodologias, sugestões para melhora na estrutura. Entusiasta da ciência e da tecnologia no futebol, mesmo após sua demissão foi exaltado internamente pelas ideias modernas. Ainda assim, caiu.

Entre alguns motivos, consta o tom professoral ao passar o conhecimento e a falta de conexão com um vestiário pesado. Mesmo que os resultados, no geral, não fossem ruins (aproveitamento de 65%, melhor campanha no grupo da Libertadores), ele também trabalhava em uma equipe cujas ambições, àquela época, só podiam ser realmente por títulos. Na final que disputou, perdeu para o rival Corinthians.

Darío Guimarães Neto

'Passo atrás' no Bahia não virou retomada

No Bahia, o roteiro foi bem parecido com o dos outros clubes. Em um clube de fortes posicionamentos sociais, o treinador era o rosto das campanhas progressistas e de um time que buscava se estabelecer como o principal do Nordeste no cenário nacional após um trabalho de reestruturação.

O início foi animador. O Bahia de Roger Machado empolgou até o término do primeiro turno do Brasileirão em 2019, com nove jogos de invencibilidade e briga pelo G4. Eliminou o São Paulo e alcançou a melhor classificação da história do clube na Copa do Brasil, parando nas quartas de final, diante do Grêmio.

Depois, entretanto, perdeu fôlego, e terminou no meio da tabela. Para o ano seguinte, teve grande orçamento e formou o time mais caro da históra do clube. Inconsistente, entretanto, não deu o salto que se esperava, embora tenha conquistado dois títulos estaduais.

"A demissão de Roger, para mim, deveria ter sido após a final do Campeonato Baiano. É uma autocrítica que faço e um erro que acho que aconteceu. É a minha avaliação. Eu olho para trás, e se pudesse voltar atrás, teria demitido na final do Campeonato Baiano", afirmou, ao canal "Sou Bahia".

Para mim foi muito claro. Não conseguimos, com o elenco que a gente tinha, extrair alternativas de jogo depois que os times descobriram como o Bahia jogava. Não conseguimos formular, com o elenco, jeitos diferentes de jogar para adversários diferentes. O segundo turno foi tão óbvio, que a gente foi destroçado. Problema de composição e uso tático do elenco."

Ler mais

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, ao canal "Sou Bahia". O clube, nesta semana, já anunciou a demissão do técnico que sucedeu Roger: Dado Cavalcanti

Leia também

Rubens Chiri / saopaulofc.net

Hernanes rescinde e deixa apenas Miranda como remanescente de era dominante do São Paulo

Ler mais
Mark Leech/Offside/Getty Images

Roberto Carlos revive mágoa da eliminação para França e protesta contra críticas

Ler mais
Vinnicius Silva/Cruzeiro

Zagueiro Dedé fala sobre lesões, mágoas e procura um lugar para voltar ao futebol

Ler mais
Reprodução/Instagram

Após romance com Viviane Araújo e depressão, Radamés encontra paz em Brasília

Ler mais
Topo