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Vereador ironiza Palmeiras e tenta o impossível para tombar clássico com Corinthians

Juscelino Gadelha (de óculos escuros, segundo da esq. para a dir.) acompanha a apresentação oficial do estádio do Corinthians (30/08/2010). Vereador corintiano quer tombar o clássico com o Palmeiras - Mário Angelo/Folhapress
Juscelino Gadelha (de óculos escuros, segundo da esq. para a dir.) acompanha a apresentação oficial do estádio do Corinthians (30/08/2010). Vereador corintiano quer tombar o clássico com o Palmeiras Imagem: Mário Angelo/Folhapress

Paula Almeida

Em São Paulo

15/06/2011 07h01

Se você é corintiano, palmeirense ou simplesmente um amante do futebol, deve ter na memória algum clássico marcante entre essas duas equipes. Um vereador de São Paulo quer mais do que isso, quer eternizar o jogo. Para tanto, porém, ele exagera no fanatismo e tenta algo que é impossível: tombar um bem imaterial.

Corintiano assumido, que já defendeu seu clube na Câmara dos Vereadores em questões sobre o futuro estádio de Itaquera e outros assuntos relacionados ao clube, Juscelino Gadelha (ex-PSDB, agora sem partido) causou polêmica por querer tombar a história do dérbi e alegar para isso uma possível decadência técnica do Palmeiras.

“Este foi o clássico mais importante das décadas de 1940 e 1950, e quero que seja tombado por causa do enfraquecimento do Palmeiras, já que hoje a melhor disputa do Corinthians é com o São Paulo”, afirmou o político ao UOL Esporte. “E o São Paulo é recente, tem tradição agora”.

Apesar de o próprio Gadelha tentar amenizar a brincadeira – “isso é uma questão de gozação” –, o texto escrito por seu estafe para explicar o pedido de tombamento faz uma clara menção à situação do Palmeiras.

“Desde 1999 a Sociedade Esportiva Palmeiras não ganha um título importante e, a cada dia que passa, dá mostras de que está em plena crise técnica e política”, diz o informativo.

Ainda assim, Gadelha jura que já ouviu respostas positivas dos palmeirenses em relação ao pedido. “Se você fala com os mais antigos, eles brilham os olhos quando falam no dérbi. É uma tradição que a gente quer preservar, não é fanatismo. Até porque no levantamento que nós fizemos, o Palmeiras tem mais vitórias do que o Corinthians”, declarou o vereador.

O PEDIDO DE TOMBAMENTO DO CLÁSSICO

"Considerando o tradicional clássico do Futebol Paulista entre Corinthians e Palmeiras, mais conhecido como dérbi;
Considerando a rivalidade entre os torcedores de ambos os clubes;
Considerando a fundação da Sociedade Esportiva Palmeiras como resultado de uma dissidência do Sport Club Corinthians;
Considerando que a primeira partida de futebol entre os dois clubes é datada de 1914;
Requeiro, a este conceituado Conpresp, abertura de Processo de Tombamento de Bem Imaterial do clássico entre Corinthians e Palmeiras, mais conhecido como dérbi". - Juscelino Gadelha

A importância do clássico para a cidade de São Paulo parece ser indiscutível, mas isso não é suficiente para que ele seja tombado. Isso porque para passar por um processo de tombamento, um bem precisa ser material, o que não é o caso.

“O Tombamento pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental, quais sejam: fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc”, explica texto do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), tese reiterada pela superintendente de São Paulo do órgão.

“Não existe tombamento de imaterial. O que é imaterial a gente faz o registro”, afirmou Anna Beatriz Ayroza Galvão, ressaltando que mesmo o registro exige um longo processo. “Isso requer um estudo do grau de excepcionalidade do bem. Tem que ver, por exemplo, por que o Corinthians x Palmeiras é mais excepcional do que um Fla x Flu. O importante é preservar e saber o que preservar”.

POR QUE O ATO É QUASE IMPOSSÍVEL

"O Tombamento pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental, quais sejam: fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Somente é aplicado aos bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva". - Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)

Um bem imaterial pode, portanto, ser registrado como patrimônio cultural de uma cidade ou país. É o caso, por exemplo, do Ofício das Baianas de Acarajé, da Feira de Caruaru e da Roda de Capoeira, considerados patrimônios culturais nacionais.

“O bem imaterial é aquilo que não pode ser esquecido. A voz do Jamelão, a receita do Acarajé, a capoeira são tombados como bens imateriais”, equivocou-se Juscelino Gadelha, que quer a valorização municipal do dérbi.

O pedido de tombamento do clássico foi enviado ao Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Ambiental da Cidade de São Paulo) no último dia 2 de junho e agora será analisado pelo órgão, que decidirá se inicia ou não o processo de tombamento.

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