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30 anos após 1º título de Senna, Prost relembra como dupla atropelou rivais

Ayrton Senna e Alain Prost - Tony Feder/Allsport/Getty
Ayrton Senna e Alain Prost Imagem: Tony Feder/Allsport/Getty

Julianne Cerasoli

Do UOL, em Londres (ING)

30/10/2018 04h00

A equipe mais vencedora da década de 1980. O motor Honda, o melhor da época. E os pilotos considerados os mais fortes do grid, correndo no mesmo time pela primeira vez. Não era por acaso que a McLaren de Ayrton Senna e Alain Prost estava sob todos os holofotes quando a temporada de 1988 começou. E toda a badalação foi justificada: a batalha entre os dois foi tão intensa quanto o domínio da McLaren, que venceu 15 das 16 corridas disputadas.

Devido ao regulamento que previa descartes, o campeonato acabou sendo decidido por antecipação, no GP do Japão, exatamente em 30 de outubro, há 30 anos. Foi uma das melhores corridas da temporada de um jovem Ayrton Senna, que aproveitava sua primeira oportunidade em um time grande - a Lotus (equipe anterior) já estava decadente - para se sagrar campeão do mundo. E logo em cima de um respeitado bicampeão.

Ayrton Senna em 1988 - Simon Bruty/Allsport/Getty - Simon Bruty/Allsport/Getty
Imagem: Simon Bruty/Allsport/Getty
Falando com exclusividade ao UOL Esporte, Prost reconhece que aquele carro era forte. Mas a vantagem dos pilotos da McLaren, que muitas vezes eram dois segundos mais velozes que os concorrentes mais próximos, tinha muito a ver com a rivalidade com Senna.

“O carro em si era muito bom e também era o primeiro ano com Ayrton e isso fazia com que um motivasse muito o outro. O motor Porsche não tinha se desenvolvido muito, então 1987 não tinha sido uma temporada fácil. A Honda [que passou a equipar a McLaren em 88] tinha um motor muito melhor. Estávamos começando juntos uma nova história e a motivação da equipe, da Honda, dos pilotos, era muito alta. A sinergia era muito grande. Talvez o carro em si fosse 0s5 ou 0s7 mais rápido que os demais. O resto vinha de um piloto querendo bater o outro. Era muito interessante porque estávamos forçando muito o outro desde o primeiro teste e os dois estavam à vontade com o carro. Todo mundo estava curtindo bastante aquele momento”.

Quem lembra bem do rendimento impressionante daquela McLaren é Charlie Whiting, hoje diretor de provas da F-1, mas na época estreando como delegado técnico. “Lembro que os carros apareceram em Imola e eram 3s mais rápidos do que todos os outros. Ninguém disse ‘eles devem estar fazendo algo ilegal’. Eles só diziam que o motor Honda era brilhante e o chassi da McLaren é ótimo. Ninguém ficava apontando o dedo”, disse ao UOL Esporte.

Senna no pódio do GP do Japão - Norio Koike/ASE/Divulgação - Norio Koike/ASE/Divulgação
Imagem: Norio Koike/ASE/Divulgação
A temporada não começou muito boa para Senna, que vinha fazendo uma corrida de recuperação no GP do Brasil quando foi desclassificado. Na terceira prova, em Mônaco, o brasileiro cometeu um de seus erros mais famosos, quando bateu sozinho tentando dar uma volta em Prost, muito inferior naquele fim de semana. A virada começaria na quinta etapa, no Canadá: foram seis vitórias em sete corridas, o que praticamente decidiu a temporada. A única derrota da McLaren viria na 12ª etapa, quando Senna bateu com um retardatário e Prost quebrou. Prost ainda ensaiou uma reação vencendo as duas corridas seguintes, mas a vantagem de Senna já era muito grande e o título acabou sendo decidido no GP do Japão, com uma etapa para o fim.

Em Suzuka, Senna saiu da pole, mas caiu para a 14ª posição depois de seu motor morrer na largada. O brasileiro se recuperou, ultrapassando inclusive Prost para vencer seu primeiro campeonato. “Sinto que tirei um peso enorme nos meus ombros e estou muito feliz”, disse Senna após a conquista. “Atingi a meta mais importante até agora na minha carreira, não apenas por ser o campeão, mas também por ser competitivo, lutar por vitórias e recordes, e ser respeitado dentro da minha profissão por aquilo que eu faço como profissional”.

Ayrton Senna no carro em 1988 - Pascal Rondeau/Allsport/Getty - Pascal Rondeau/Allsport/Getty
Imagem: Pascal Rondeau/Allsport/Getty
Melhor carro da história?
Não é preciso nem ser maníaco por Fórmula 1 para conhecer esse nome: McLaren MP4/4. O carro campeão de 1988 marcou época e é constantemente citado como um dos “queridinhos” dos pilotos, tanto por sua potência de quase 1500 cavalos, quanto pela aerodinâmica relativamente simples e poucas ajudas aos pilotos em comparação aos carros de hoje.

No atual grid da F1, quem teve a chance de pilotar o MP4/4 foi Lewis Hamilton. O inglês disse ao UOL Esporte que não gostaria de voltar no tempo, mas considerou a experiência especial. “Não queria ter estado naquele campeonato e não gostaria de ter corrido naquela época porque gosto da nossa época. Mas foi um carro incrível de se pilotar. Me senti muito exposto, com o ombro para fora. O carro era muito silencioso, o câmbio manual era incrível. Parecia um carro de F3, mas com mais pressão aerodinâmica, mais potência. Foi legal pilotar. Adoraria fazer isso de novo um dia. Provavelmente quando eu estiver mais velho eles me deixem!”

Curiosamente, no entanto, Prost afirma que o carro de 1988 não foi o melhor que ele pilotou na carreira. “Com certeza foi um dos dois. O melhor carro foi a Ferrari de 1990. Digo pelo chassi, pela sensação que você tem no carro, como você pode trabalhar com ele e reagir. Na verdade, a McLaren de 84 também era muito boa. Foram três carros excepcionais”.

O francês explicou que foi justamente o carro de 1984 que deu a base para a supermáquina de quatro anos depois. “Trabalhamos muito na filosofia do carro desde a época do Niki (Lauda). Nós tínhamos a mesma maneira de acertar o carro e também do lado do motor - pedíamos que ele fosse mais suave. Ele trabalhava muito nos detalhes. E é possível que uma filosofia permaneça por muito tempo em uma equipe quando as regras se mantêm estáveis. Foi um trabalho de pouco a pouco que conseguimos manter mesmo quando a Honda chegou”.

Foi uma união especial, que acabou não durando muito. Em 1989, Prost relevou que o carro já não era tão bom - e também foi quando as brigas por poder entre ele e Senna se intensificaram, o que acabou gerando sua saída do time.

“Em 89, nosso chassi não era tão bom, porque os engenheiros querem desenvolver coisas, querem evoluir, e às vezes as coisas não funcionam e você acaba perdendo o equilíbrio. E não foi fácil. Lembro do primeiro teste que fizemos no Brasil. O Ayrton começou os testes e o plano era ele andar os dois primeiros e depois eu assumir. Depois do primeiro dia ele pediu para parar e quis que eu fosse andar para ter um feedback diferente, porque o carro não estava bom. Você consegue ganhar, mas também pode perder rapidamente.”

Não por acaso, um domínio como o da McLaren de Senna e Prost de 30 anos atrás jamais se repetiu com tamanha intensidade na F-1 desde então.

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