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Brasil de imigrantes: "se precisasse, lutariam para defender o país"

Imigrantes italianos no Brasil: Guido Rugai e Nella Pagni (sentados), com o neto Ricardo Leite - Arquivo pessoal/ Ricardo Leite
Imigrantes italianos no Brasil: Guido Rugai e Nella Pagni (sentados), com o neto Ricardo Leite Imagem: Arquivo pessoal/ Ricardo Leite

Alessandra Medina

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

30/06/2022 15h35

O historiador Martin Norberto Dreher tinha apenas cinco anos em 1950 quando levou uma bronca da mãe, a enfermeira Julia, por falar alemão fora de casa. "Ela disse que era perigoso e, de fato, era. Getúlio Vargas promoveu uma campanha nacionalista que perseguiu as línguas que não o português. Na adolescência, sofri bullying por ser descendente de alemães. Tive uma fase muito nacionalista porque só queria ser reconhecido e aceito como brasileiro", lembra ele que hoje mora em São Leopoldo, cidade no Rio Grande do Sul que recebeu os primeiros imigrantes vindos da Alemanha, em 1824.

Oficialmente, os primeiros imigrantes europeus a se estabelecerem no Brasil foram os suíços, em 1818, no lugar que hoje é conhecido como Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro. De acordo com as estatísticas de povoamento do IBGE, entre 1884 a 1933, o Brasil recebeu mais de 4 milhões de estrangeiros vindos, primeiro, da Suíça, Alemanha e Itália e, depois, do Japão, Rússia e Polônia. É importante lembrar que portugueses e espanhóis não são considerados imigrantes, porque foram colonizadores; "o povo africano veio ao brasil forçado, obrigado a fazer trabalho escravo. Outro erro é dizer que franceses e holandeses tentaram colonizar o Brasil no século XVII. Eles vinham para cá para explorar a colônia. A gente aprendeu isso errado na escola", explica Flavio dos Santos Gomes, historiador, professor da UFRJ e organizador, com Lilia M. Schwarcz, do Dicionário da escravidão e liberdade (2018) e da Enciclopédia negra (2021).

Até a primeira metade do século 19, muitos vinham atraídos por terras oferecidas pelo governo brasileiro, principalmente para ocupar o sul do país. "Os primeiros alemães que vieram para cá fundaram colônias à moda dos cossacos, isto é, ocupariam os territórios, plantariam outros produtos além do café, mas se o Império precisasse, eles lutariam como soldados para defender o território", diz Dreher, hoje historiador e estudioso da imigração germânica.

O primeiro ascendente de Dreher a vir para o Brasil foi o seu tetravô, que em 1824 embarcou num navio à vela com a mulher e os três filhos numa viagem que durava 120 dias. Camponês, ele fugia das cobranças abusivas do senhores feudais e da mecanização da lavoura, que resultaram em uma massa faminta. O resultado desta modernidade foram multidões pelas estradas, passando fome. O Império brasileiro prometia aos imigrantes um terreno de 70 hectares.

Uma vez no Rio, pegaram um barco menor e partiram para Porto Alegre. No trajeto, uma filha e a mulher morreram e foram lançados ao mar. Já em São Leopoldo, ele morre quatro semanas depois. A causa da morte: inanição. "Era a época da Guerra da Cisplatina, batalha em que o Império do Brasil acabou perdendo o Uruguai para as Províncias Unidas do Rio da Prata, atual Argentina. A região estava racionando comida. E o capitão do barco deixou a tripulação com fome de propósito para vender os alimentos", explica ele. O filho dele, Johann Müller, trisavô de Dreher, casou-se, teve sete filhos e fixou-se em Nova Hamburgo, onde acabou construindo uma colônia de terras. "Ter muitos filhos naquela época era garantia de cuidados na velhice e mão de obra para trabalhar no campo."

Martin Norberto Dreher, historiador e estudioso da imigração germânica - Arquivo pessoal/ Martin Dreher - Arquivo pessoal/ Martin Dreher
Martin Norberto Dreher, historiador e estudioso da imigração germânica
Imagem: Arquivo pessoal/ Martin Dreher

Nem todos os parentes de Dreher trabalharam na terra. O avô materno era engenheiro elétrico e foi trabalhar em Cachoeira Paulista, cidade na divisa do Rio e São Paulo, na construção de usinas hidrelétricas. Ficou viúvo e mandou os cinco filhos para um internato em Rio Claro, dirigido por um pastor luterano. Anos depois, o viúvo se casa com a filha desse pastor. Juntos, o casal tem mais sete filhos, entre eles, a mãe de Dreher, Julia.

"O Estado Novo tinha uma política nacionalista forte, e com o início da Segunda Guerra, passou a incentivar a violência contra imigrantes. Meu avô foi demitido de uma empresa inglesa só porque era alemão. Ele acabou morrendo alguns anos depois de febre amarela", conta ele. Na parte paterna, o seu avô, Arthur, sai da Renânia-Palatinado, em 1912, e vai para Montenegro, no Rio Grande do Sul, exercer a função de ourives. "Tenho muito orgulho das minhas origens, mas sou brasileiro com muita honra. Brinco dizendo que a cultura alemã não é só dança e comida típica. Até 1824, só existia o Colégio Militar em Porto Alegre. Os luteranos construíram mais de 1400 escolas comunitárias para meninas e meninos."

A história das imigrações mostra que, além de guerras e grandes desastres naturais, o ceticismo com relação a um futuro melhor são os principais motivos para as pessoas tentarem a vida no exterior. Com a Europa dando os primeiros passos na Industrialização, e padecendo de uma enorme crise agrícola, o Brasil Império virou o país das oportunidades.

"O Império contava com os agentes de colonização, verdadeiros garotos-propaganda do Brasil no mundo", explica explica Vania Heredia, doutora em História e pesquisadora em migrações. Na Europa, prefeitos e padres locais espalhavam as maravilhas do país. Era um negócio rentável, já que eles ganhavam por cada pessoa que topasse atravessar o Atlântico para viver aqui.

Italianos: "sofreram muito nas mãos dos fazendeiros, até com racionamento de comida"

A história da família do engenheiro Ricardo Leite, engenheiro de 62 anos, confunde-se com o movimento de imigração italiana do Brasil. Ex-secretário municipal de habitação de São Paulo na gestão de Gilberto Kassab, Leite é tão fascinado pelo tema que lançou o livro "Imigrantes, Esses Heróis Desconhecidos", em parceria com o Museu da Imigração, em 2020. O enredo começa em 1889, seu bisavô materno, Adamo Rugai, deixou Toscana para trabalhar na construção da estrada de ferro da Companhia Ytuana, que ligava Jundiaí até Piracicaba. Mas voltou em 1905. "Ele sofreu muito nas mãos dos fazendeiros, até com racionamento de comida. Afinal, eles estavam acostumados a tratar os trabalhadores como escravos. E, no fim, os imigrantes eram quase isso, só que tinham liberdade", diz ele.

Em 1945, foi a vez do filho de Adamo, Guido Rugai, tentar a vida no país. Aqui, fez de tudo um pouco: de trabalhar na lavoura até na prefeitura de Bauru. "Aprendi a falar italiano com ele. E, certa vez, ao chegar para a aula, ele me ofereceu testículos de porco para o almoço. Ele mesmo tinha matado o animal no dia anterior. Eles tinham por hábito não desperdiçar nada, mas eu não comi", ele ri. A mãe de Leite, Carla, nasceu na Itália e veio para o Brasil com apenas 12 anos. Como não falava português, sofreu muito preconceito. "O Getúlio Vargas, presidente da época, proibiu os estrangeiros de falar os idiomas maternos", lembra Leite.

Do lado paterno, os bisavós Antonio Zuiani e Maria Baschini também saíram da Itália para morar no Brasil em 1893. Encontraram uma jazida de argila em Bauru, no interior paulista, e passaram a passaram a produzir tijolos e telhas. "Eu vejo os imigrantes como verdadeiros empreendedores. Eles arriscavam tudo, deixavam a pátria, família e amigos para trás, em busca de uma vida melhor", afirma Leite.

"Eu acho o Japão um país fantástico. Mas meu coração é brasileiro"

Itsuko Ichida, imigrante japonesa - Arquivo pessoal/ Itsuko Ichida - Arquivo pessoal/ Itsuko Ichida
Itsuko Ichida, imigrante japonesa
Imagem: Arquivo pessoal/ Itsuko Ichida

A viagem de 45 dias de Kumamoto, cidade na costa oeste da ilha de Kyushu, no Japão, até o porto de Santos, no litoral de São Paulo, foi uma festa para a professora de ginástica Itsuko Ichida, 77 anos. Na época com 14 anos, a adolescente passava o tempo ajudando na lavandaria e estudando o Português. Mal desembarcou no Brasil, seus pais, seus irmãos menores e ela subiram num caminhão com outras 25 famílias rumo a uma viagem exausta a Paranavaí, município no noroeste do Paraná, onde trabalhariam nas plantações de café.

Ao chegar à cidade, levaram um susto. "Não tinha absolutamente nada em volta, só mato. Tivemos que dormir no chão, ao relento, sem água e comida. À noite, dormíamos cabeça com cabeça com medo dos bichos. A situação era tão sub-humana que uma criança morreu nesse acampamento", diz ela. O grupo de imigrantes não podia reclamar de nada já que estavam devendo as passagens de navio, mas eles se uniram e decidiram que ali não ficariam mais. Foram, então, convocados para as fazendas de Maringá. "As famílias não tinham direito a nada, nem a escolher com quem queriam trabalhar. Eram os donos da fazenda que decidiam isso. Fomos os últimos a serem selecionados porque só meu pai e minha mãe eram adultos", lembra ela.

Com apenas 14 anos, ela já ajudava na colheita e recebia (pouco) por isso. Sem ir à escola, aprendeu o ofício de cabeleireira. Aos 15 anos, tinha o próprio salão. Os pais ainda ficaram uns seis anos trabalhando na lavoura até conseguirem juntar dinheiro para comprar uma pequena propriedade. Passaram a plantar verduras e legumes e a venderem nos supermercados da cidade. "Minha mãe chorava todo dia e brigava com o meu pai. Dizia que se era para trabalhar daquele jeito e deixar os filhos sem estudar era melhor ter ficado no Japão. Ela nunca tinha trabalhado na vida e, aqui, pegou pesado na enxada".

O irmão caçula foi para São Paulo aos 17 anos para montar um estúdio de fotos com a ajuda do pai e de Itsuko. Um ano depois, a família acabou indo toda para São Paulo. Itsuko se instalou no bairro da Liberdade e montou o próprio negócio, Casou-se e teve dois filhos. "Eu não pude ir à escola, mas fiz questão de pagar bons colégios para os meus filhos". A filha mais nova, hoje com 47 anos, mora em Nagoya, no Japão há quase 30 anos. "Eu acho o Japão um país fantástico com um povo honesto e limpo, mas meu coração é brasileiro. Sou muito feliz aqui", conta ela que hoje vive de dar aulas de Taisso, um tipo de ginástica japonesa.