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Após excesso de ousadia, ele superou tropeços e hoje lidera rede de impacto

Henrique Bussacos é um dos fundadores do Impact Hub em São Paulo  - Divulgação/Impact Hub
Henrique Bussacos é um dos fundadores do Impact Hub em São Paulo Imagem: Divulgação/Impact Hub

Bárbara Forte

de Ecoa

06/10/2019 08h00

Antes mesmo dos 30 anos, Henrique Bussacos já tinha uma carreira consolidada no mercado financeiro. Mas não estava satisfeito. Em 2007, pediu demissão, juntou-se a um recém-conhecido e, no impulso, abriu o Impact Hub, uma mistura de espaço de coworking (escritório compartilhado) e incubadora de negócios de impacto. A empresa conecta pessoas a causas por meio de espaços colaborativos e programas que incentivem o segmento de inovação e impacto social.

"Àquela altura, eu já sabia o que era negócio e o que era impacto social, separados. Mas sentia que o meu caminho era algo no meio", conta. A nova rota, bem diferente da anterior, completou 12 anos e é marcada por tropeços e aprendizados.

Erro Evitar a sistematização de processos em um negócio empreendedor

Aprendizado Sistematizar determinados processos evita erros pequenos e aprimora o trabalho de um negócio que está em constante desenvolvimento. Para cada etapa da empresa, é preciso fazer ajustes à cultura.

Impulso inicial

O primeiro contato com o que seria o Impact Hub aconteceu, surpreendentemente, em uma festa. Por meio de uma amiga em comum, Henrique conheceu duas pessoas que ajudariam a mudar sua trajetória: o argentino Pablo Handl e a paraguaia Maria Glauser. Na época, Maria trabalhava como host do escritório de Londres de um espaço de coworking chamado The Hub, focado no desenvolvimento de negócios sociais e sustentáveis. O conceito encantou Henrique e Pablo.

Do encontro informal entre estranhos até a abertura do primeiro escritório do The Hub no Brasil foram poucos meses. A pressa, porém, quase colocou o negócio a perder. "Para alugar o galpão onde funcionaria nosso espaço, precisávamos de R$ 30 mil. Só que não tínhamos esse dinheiro e o prazo para consegui-lo era de três dias", conta o paulistano. A solução foi apelar a empréstimos e doações.

O The Hub abriu as portas em julho daquele ano, na rua Bela Cintra, centro de São Paulo, como parte da mesma rede internacional do escritório londrino, mas com uma administração independente. Em cerca de um ano, os sócios conseguiram pagar as dívidas. A afobação, porém, continuou beirando a imprudência. "Havia uma ousadia ingênua. Não tínhamos consciência dos riscos das nossas atitudes", observa Henrique.

Erro Inocência e excesso de ousadia ao empreender

Aprendizado Considerar todos os cenários possíveis, estudar situações antes de tomar atitudes. Ter ousadia pensada, ou seja, escolher com consciência os riscos que quiser correr

The Hub x Impact Hub

Já eram 50 escritórios independentes pelo mundo - inclusive em países como Japão, Itália e Estados Unidos -, reunidos em associação, quando veio um novo susto. Um concorrente americano, registrado com o mesmo nome, ameaçou processar o grupo. Foi preciso interromper as operações para que fosse criada uma nova identidade. Em 2012, surgiu o Impact Hub.

Erro Implementar um nome global sem registrá-lo em todos os lugares de atuação, principalmente em mercados mais relevantes

Aprendizado Ao fazer negócios globais, não se pode usar as mesmas premissas de um negócio local. O cuidado e a atenção devem ser redobrados

Para complicar ainda mais, o aluguel de São Paulo dobrou de valor, obrigando os sócios a criar projetos que cobrissem os novos gastos. Eles, então, lançaram cursos (de empreendedorismo), passaram a fazer a articulação entre clientes do coworking e grandes empresas (como Natura) e iniciaram a aceleração de negócios de impacto.

Erro Alugar o espaço sem reserva de dinheiro

Aprendizado Antes de sair alugando um espaço, é necessário ter um planejamento dos próximos passos, para prever que tipo e quanto de capital será preciso em cada uma das fases. A captação de investimentos deve ser realizada de forma constante

Momento delicado

Com dez anos de funcionamento e ocupação total, o Impact Hub mudou de endereço e se transferiu para Pinheiros. O que parecia um sonho realizado, entretanto, revelou-se mais um erro de percurso. Uma falha no dimensionamento da nova estrutura fez com que o coworking perdesse clientes.

"A obra pedia uma ampliação elétrica que se mostrou bem mais complexa do que o esperado. Começamos a operar no novo endereço com energia emprestada do vizinho, mais um gerador", afirma. A repercussão foi péssima e eles perderam metade dos 300 membros (entre clientes e parceiros). "Tive vontade de jogar tudo para o alto", confessa Henrique.

Erro Mudar para um novo prédio sem ter a certeza de que toda a infraestrutura estava pronta (eletricidade, sistema de gás e água)

Aprendizado Antes de fechar um novo contrato com fornecedores, certificar-se de que todas as etapas de operação são viáveis e checar inclusive os itens que pareçam óbvios

O autoconhecimento e o apoio dos sócios (passaram a ser seis) foram fundamentais para que aprendessem com os erros cometidos e mergulhassem no que o empreendedor chama de ousadia consciente. "Passamos a considerar todos os cenários possíveis, a estudar cada alternativa. Hoje, ousamos, mas conscientes dos riscos. Chega de imprudência", afirma ele, aos 39 anos.

Futuro desafiador

Atualmente, o Impact Hub de São Paulo soma sete áreas de atuação: inovação e educação corporativa (cursos dentro de empresas); investimento social privado; educação empreendedora (para associações e membros do coworking); hubs temáticos (espaços físicos para projetos conectados a causas ou objetivos específicos junto a parceiros, caso do hub educação, criado para a empresa Telefonica); articulação de causas; e comunicação. Tem 40 funcionários e 450 membros.

Atualmente, o Impact Hub de São Paulo soma sete áreas de atuação além do espaço físico - Divugação/Impact Hub
Atualmente, o Impact Hub de São Paulo soma sete áreas de atuação além do espaço físico
Imagem: Divugação/Impact Hub

O desafio, agora, está em aliar a cultura empreendedora com a sistematização de processos. "Só com essa formalização conseguiremos aprimorar um negócio em constante ampliação. Para cada etapa da empresa é preciso fazer ajustes à cultura. A operação muda conforme o estágio do negócio", completa Henrique.

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