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Rodrigo Ratier

Infantilizada, campanha eleitoral reflete "tiktokzação" da política

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

19/10/2020 04h00

Não bastam lives, sabatinas em sites, contas comerciais no WhatsApp. Agora, candidato que se preze precisa bolar reels para o Insta, coloridos cards em diferentes cortes para uma infinidade de timelines, lacrar em 280 toques no Twitter, criar memes viralizáveis, divulgar seu avatar no Facebook, jogar Among Us com influencers e youtubers, renovar o acervo de figurinhas para o Zap - e claro, o pedágio obrigatório do político descolado: a constrangedora dancinha no Tik Tok.

A lista ofegante é um caminho para driblar a falta de tempo na propagando do rádio e da tevê. É tempestade no molhado dizer que as velhas mídias nem são mais tão importantes assim. Amparada em redes sociais, a vitoriosa campanha de Bolsonaro em 2018 puxou a fila da nova tendência. Para simular simplicidade e humildade, a aposta envolveu estética tosca e uma aparente falta de cuidado - além de, como parece cada vez mais evidente, em um transatlântico de fake news e desinformação.

Nas atuais eleições, esses ingredientes permanecem. Convivem lado a lado com uma propaganda mais tradicional, com o combo padrinhos políticos e "sou o candidato de Itaquera e região" para as velhas mídias. A novidade é outra. Pode ser só efeito de uma campanha digitalizada à força pela pandemia, pode ser um dado episódico. Mas é difícil negar que o fato novo dessas eleições: a infantilização da política.

É verdade que o mico faz parte da política. Desde sempre, candidato exalta pastel de vento, canta música de duplo sentido, rouba em flexão de braço, ergue anão pensando que é criança. A diferença é que o folclore não se restringe aos candidatos folclóricos. Até os graves cabeças brancas, se é que sobrou algum, estão nessa, e em uma escala alucinante: tudo precisa ser engraçadinho, trolável, espirituoso, polêmico, lacrativo, memetizável. Acima de tudo, rápido e não muito profundo, padrão ouro da nova terra prometida, a popularidade digital.

Já levantei essa discussão em privado algumas vezes. Sempre acabo acusado de mau humor e elitismo porque, segundo meus amigos, 1- o conteúdo de entretenimento pode ser a isca para debates mais profundos; 2- a política pode ser divertida. Tento me explicar.

O argumento 1 costuma ser invocado, por exemplo, por defensores dos best-sellers. Há pouca evidência de que começar pelos mais vendidos abre automaticamente as portas da alta literatura sem que haja uma formação consistente. No paralelo com as eleições, quantas pessoas você conhece que já consultaram um programa de governo comovidos ao receberem o meme de um candidato?

Também já ouvi em muitas ocasiões uma variação do argumento 2 para o campo da educação, que precisaria ser menos "sisudo". Sim, uma aula pode ser gamificada, ter piadinhas, pirotecnias tecnológicas ou palestras curta-se roteirizadas tipo TED. Isso entretém, mas a questão é outra: aprender é prazeroso por si. Há uma felicidade que resulta do proprio ato de compreender algo que antes não entendíamos. O mesmo vale para a política, seja ela tida como a arte da disputa (de ideias), do convencimento (racional) ou da tentativa de concretização de utopias. Poderíamos mostrar a força de tudo isso, que ao longo da história foi e segue sendo a razão de viver para muitas pessoas. Mas opção tem sido outra: diante do relativo consenso de que política e político não prestam, melhor esconder essa potência e rebaixá-la ao espetáculo.

E aí quanto mais gugudadá for o show, melhor. Cada nova mídia social da moda parece descer um degrau na expressão de ideias. Menos texto, mais efeito visual. É óbvio que dá para explicar e debater coisas em áudio e vídeo, mas é ainda mais óbvio que essa não é a intenção. As "velhas" redes também se transformam. Os jovens fogem do Facebook e seus textões. O Twitter sucumbe à cultura do cancelamento e sobrevive como inquisição cibernética. Passa a anos-luz do sonho de "repositório da inteligência coletiva" trombeteado por Pierre Lévy.

Enquanto isso, os debates políticos escasseiam. Pode-se questionar a validade de promover discussões com uma dúzia de postulantes, os riscos de contaminação ou problematizar o tipo de ideia que pode ser expressa em turnos de 30 segundos para resposta e réplica. Para o interesse público, o ideal seria aperfeiçoar esses espaços - e não acabar com eles, como tem sido a regra.

E tome musiquinha com coreografia no Tik Tok. Política pode ser divertida. Mas precisa? Quem ganha com isso? Não custa considerar a ideia de que há coisas que melhoram quando são sérias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.