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Volta às aulas: tudo pronto para culpar os professores, esses "insensíveis"

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

07/09/2020 04h00

Já está acontecendo em outras partes do país, vai acontecer em São Paulo. O governo João Doria considera segura a volta às escolas a partir desta terça, 8 de setembro. Até o fim da semana passada, cerca de 20% dos 648 municípios sinalizaram que liberariam o retorno. Há novos ventos no debate público. Discursos sobre os riscos da reabertura vem sendo questionados pelo argumento de que estaria em curso uma "catástrofe geracional", com tantas crianças e jovens sem estudar presencialmente por tanto tempo.

"Abram as escolas" é o pedido da Organização Mundial de Saúde (OMS) aos países que já tem a epidemia controlada. Repito: países que já tem a epidemia controlada. Ë o caso do Brasil? A resposta, cantada e decantada, segue a mesma: não dá para saber. Não há, e pelo jeito não haverá, testagem suficiente para um panorama confiável. Furou a promessa de Paulo Guedes. Em abril, o ministro da economia garantiu que um amigão dele na Inglaterra forneceria 40 milhões de testes por mês para o Brasil. O tal brother nunca apareceu, a miragem dos testes entrou para a lista de lorotas do ex-posto Ipiranga — e o Brasil navega no escuro desde o começo da pandemia.

A lista de indicadores que compõem as "bandeiras" dos estados aponta, em diversas partes do país, declínio de novos casos e da mortes por covid-19. Os números, porém, seguem altos. Sabe-se para uma reabertura segura é necessária a combinação de três fatores: contágio em declínio, testagem em massa e rastreamento de contatos. Acrescente-se: 1- os estudos ainda não conseguem fornecer uma resposta definitiva sobre o papel das crianças e adolescentes como vetores da doença; 2- São negligenciadas as possibilidades de contágio por meio do transporte público, modal preferencial para chegar aos colégios; 3- a maioria das redes públicas encontra enorme dificuldade para cumprir os protocolos de abertura, como contei neste espaço na semana passada.

Há consistentes poréns para defender que não é hora de reabrir. Mas o debate público se encontra rebaixado nos seguintes termos: se os shoppings já voltaram e as praias estão lotadas, porque não retomar as aulas presenciais? É preciso impedir a tal catástrofe geracional, e quem se posiciona contra é inimigo da nobre tarefa de educar. "Insensível", "resistente", "irracional", "corporativista". Adjetivos cada vez mais presentes na arena pública toda vez que um professor pontua os riscos da retomada.

São apupos comuns para os educadores. Esse tipo de troça volta à cena em situações de conflito como greves, quando imprensa e gestores públicos tentam jogar a população contra os professores lembrando de supostas "mordomias" da categoria: três meses de férias por ano (um mito), aposentadoria "especial", estabilidade no emprego. Sem novidade: é a demonização cotidiana da classe.

Não conheço um professor ou professora que não deseje voltar às aulas. Aulas online exigem o dobro de dedicação e resultam no dobro de frustração. A ausência da sala de aula, dos colegas docentes, do ambiente escolar como um todo é uma falta enorme. Muitos de nós nos alimentamos da energia dessas trocas, inevitavelmente diminuídas com a mediação tecnológica. A questão é outra: é a falta credibilidade de quem diz que é seguro reabrir.

De um lado, quem nunca quis fechar, sabotou tudo o que funciona contra a pandemia (isolamento social, máscara), planeja sabotar o que pode funcionar (vacina) e defende o que sabidamente não funciona (cloroquina). De outro, autoridades titubeantes entre as recomendações de saúde, o cálculo eleitoral e lobby setoriais. Não parece insensibilidade, resistência, irracionalidade ou corporativismo exigir evidências robustas de segurança. Se o campo da educação tem poder de mobilização para pedir isso, é sinal de vitalidade democrática. Talvez o problema esteja nos setores que aceitam brincar de roleta russa, e não nos professores.

É possível buscar outras formas de atender às justas reivindicações de pais e alunos até que se tenha certeza sobre o real panorama da pandemia no Brasil. Massificar o ensino online, por exemplo, é uma possibilidade. Se o panorama seguir impreciso, a reabertura de escolas será temerária. Mas a cautela é uma esperança vã. No Brasil impera o caminho mais curto, e o atalho nesse caso é atacar os professores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.