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Escolas precisam buscar quem não estudou na pandemia, diz pesquisa

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

28/08/2020 18h04

Um levantamento das medidas para a volta às aulas em 20 redes públicas de ensino revela planejamentos frágeis e pouco detalhamento para a reabertura das escolas. O ponto mais sensível é o combate à evasão. Faltam ações concretas para evitar o abandono escolar, efeito esperado pelos especialistas após mais de cinco meses de paralisação das atividades presenciais.

"Os desafios são enormes. Há muitas questões a se pensar na volta às aulas. A sanitária é a mais evidente, mas os aspectos de permanência e aprendizado precisam ser olhados com cuidado", explica Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), entidade responsável pela sondagem, em parceria com o Comitê Técnico de Educação do Instituto Rui Barbosa.

Em julho e agosto, o Iede avaliou seis temas relacionados ao retorno às aulas: protocolos sanitários, ações para lidar com o impacto emocional da pandemia, medidas contra abandono e evasão, cumprimento do currículo, diagnóstico das defasagens e estratégias para a Educação Infantil. Os pesquisadores estabeleceram uma escala de cores para classificar a evolução das medidas em cada área. Em nenhum dos seis temas as redes chegaram ao verde-escuro, a melhor gradação possível. O resultado é preocupante porque as 20 redes foram selecionadas pelos bons resultados no Ensino Fundamental ou por terem se destacado durante o período de aulas a distância. Combate à evasão, o ponto mais sensível, recebeu cor vermelha, equivalente à pior escala:

Fonte: Planejamento das redes de ensino para a volta às aulas presenciais: saúde, permanência e aprendizado

Em julho, sondagem do Unicef indicou que que 91% das crianças e adolescentes seguiram estudando em casa. A estatística é positiva apenas na aparência. Primeiro, porque não diz nada quanto ao aproveitamento. Segundo, porque o percentual de 9% corresponde, em termos absolutos, a mais de 4 milhões de estudantes. São estes os mais propensos a deixar a escola por conta da pandemia.

O estudo do Iede mostra que a maioria das redes mantêm somente o controle de acesso às atividades, seja nas plataformas digitais ou via recebimento de conteúdos impressos. O monitoramento de quem efetivamente faz as tarefas acontece em apenas alguns estados e municípios. Devolutivas e correções, segundo a pesquisa, são raras, assim como medidas concretas para contatar quem não está estudando a distância.

"Falta senso de urgência. Há poucas ações de busca ativa, que deveriam ser realizadas antes mesmo da volta às aulas", diz Faria, em referência às atividades de identificação de alunos em risco de abandono ou já em abandono. É o mesmo cenário apontado pelo levantamento do Unicef, em que apenas 48% dos entrevistados relatam ter recebido contato da escola para saber como estava a aprendizagem em casa. "Quando essa comunicação ocorre não é por política da rede, mas por iniciativa das escolas, de gestores e professores", completa.

Além das ações de combate à evasão, a pesquisa aponta cenário preocupante no diagnóstico de aprendizagens. Quando as escolas reabrirem, há a intenção de avaliar o que os estudantes aprenderam — é algo que poderia ser feito remotamente se o ensino a distância estivesse funcionando bem. Na maioria das secretarias, porém, não está claro se as provas serão para toda a rede ou específicas por escola, quem vai elaborá-las, se serão realizadas presencialmente e, principalmente, o que vai ser feito com os resultados obtidos. "Em poucas das redes há critérios para definir os estudantes que vão frequentar o reforço escolar e como ele ocorrerá", informa o relatório de pesquisa.

Currículo enxuto e protocolos genéricos

Há necessidade de avanços também no tema mais visível, o das medidas sanitárias. A pesquisa indica movimentação das redes para aquisição de kits e equipamentos de higiene, mas pouco detalhamento quanto à ocupação de espaços e adaptação das rotinas escolares, como transporte e horários de entrada e saída. "Caso o retorno das aulas ocorresse imediatamente, as escolas não teriam protocolos sanitários satisfatórios para garantir a segurança de alunos e profissionais", afirma o relatório.

A pesquisa identificou, ainda, esforço das redes para oferecer apoio emocional aos professores, mas com atendimento desigual. Psicólogos concentram-se nas redes de grande porte, enquanto nas menores o atendimento se dá por lives e vídeos motivacionais em redes sociais. Há consenso de que o currículo deverá ser enxugado e que o ensino híbrido será acionado para dar conta dos conteúdos. A Educação Infantil é um capítulo à parte: a dificuldade de engajamento das crianças nas metodologias online piora com a fragilidade na comunicação com as famílias. Conforme o relatório, "das redes que ofertam a etapa, mais da metade não prioriza a formação do professor para orientar os familiares sobre as atividades que devem ser realizadas com os filhos e como executá-las."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.