PUBLICIDADE
Topo

Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Seguir bem caminhoneira não é seguir bem cisgênera

Evelyn Bross e Catherine Barscz, presas em Chicago em 1942, por violarem regulamento de vestimenta - Domínio público
Evelyn Bross e Catherine Barscz, presas em Chicago em 1942, por violarem regulamento de vestimenta Imagem: Domínio público
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

15/12/2021 06h00

Estamos chegando ao final do ano, mas como a transfobia não tira férias - infelizmente - cá retorno eu para discutir entraves da cisnormatividade para com os entendimentos de suas atitudes violentas. Há poucas semanas pudemos acompanhar nas redes sociais repercussões de uma situação transfóbica que ocorreu durante um ensaio do bloco de carnaval paulistano "Siga Bem Caminhoneira". Mika, pessoa transmasculina não-binárie e indígena, junto de amigas cisgênero, foi ao ensaio no intuito de se divertir. Chegando lá, barrado na entrada, recebe a notícia de que o ensaio do bloco era voltado única e exclusivamente para mulheres lésbicas ou bissexuais e ele, sendo um "homem" - já me explico sobre estas aspas - causaria incômodo no ambiente, sendo um potencial agressor na visão destas mulheres.

A aproximação da vivência transmasculina com a dos homens cisgênero vem sendo uma postura cada vez mais recorrente no discurso de mulheres cis - em suma, as brancas. No intuito de pautar a experiência feminina como única e/ou a mais lesada no sistema hétero-patriarcal se esquecem - ou abdicam - de reconhecer experiências subalternizadas diferentes das mesmas.

Pessoas trans em geral têm sido alvo do discurso destas, que calcadas em argumentos biologizantes caem em contradições argumentativas onde a única saída se torna a explicitação do ódio e a invisibilização de pessoas transvestigênere. Em relação às transfeminilidades são recorrentes as falas que visam supervalorizar a socialização masculina vivida anterior à transição de gênero em detrimento da identidade verdadeira destas, ou seja, recorrem ao pênis para embasar seus discursos, recheando-os de transfobia e genitalizando a experiência social.

Em contraponto - e contradizendo tal discurso - há esta aproximação que fazem entre pessoas transmasculinas e homens cisgêneros. Contradizendo, pois dado que a socialização de pessoas transmasculinas e não-binárias foi tida como "feminina", colocam por terra a exaltação da biologia como cerne do problema estrutural/social, revelando a transfobia enraizada no mesmo. Ao mesmo tempo que não reconhecem a transfeminilidade enquanto experiência de mulheridade, não reconhecem a misoginia sofrida por pessoas transmasculinas com vagina, mesmo quando identificadas como homens trans.

A palavra homem - no ocidente pós-colonial - muito enraizada na experiência que exerce a violência, a opressão histórica e o poder, não se assemelha em nada à experiência de transmasculines. Inclusive estes, que antes da transição de gênero muitas vezes habitaram e ajudaram a construir espaços e movimentos de resistência feminista e/ou sapatão, não podem ser desconsiderades na continuidade destas lutas pelo simples fato de reivindicarem suas identidades masculinas/não-binárias.

Sempre existiram pessoas de identidade masculina e não-binária em espaços lés-bi. Não apenas isso, faz parte da produção intelectual lésbica afirmar a lesbianidade como um lugar fora do binário de gênero. O próprio feminismo/movimento de mulheres não aceitava lésbicas/caminhoneiras/pessoas de buceta que não se adequavam à cisheteronormatividade, pois es consideravam uma ameaça, predadoras, doentes. A real é que na prática e teoria espaços exclusivos para mulheres e lesbianidade/caminhoneirice são coisas que se anulam. A memória lésbica é repleta de pessoas que romperam com a mulheridade e ignorar isso é um processo de higienização e apagamento.

Okara Potyguara, em seu texto "Movimento transmasculine/não-binárie é memória lés-bi"

A exclusão destes espaços não se restringe, obviamente, a eventos como este do bloco de Carnaval, mas também - e principalmente - das discussões que atravessam estes corpos. Discussões sobre gravidez, menstruação, direito ao aborto e outras questões ligadas ao funcionamento de um corpo com útero e/ou com vagina não são questões exclusivas das mulheres, ou seja, também pertencem às pessoas transmasculinas/não-bináries, assim como precisa-se compreender que a experiência de mulheridade, dada as transfeminilidades, expande-se para além da constituição física/biológica.

Diante da proibição da entrada de Mika no evento, tais argumentos mais uma vez são colocados em xeque. Transmasculines têm colocado, a todo momento, estas questões para debate, porém, dada a invisibilização de suas vivências isso tem se mantido por muitas vezes abafado, alheio a um debate mais amplo e fazendo com que estes espaços, organizações e até mesmo pessoas físicas se mantenham ilesas, nem mesmo passíveis de revisar suas atitudes e falas transfóbicas.

O que me parece é que estas cisgêneras lésbicas e bissexuais brancas se esqueceram da história de seu próprio movimento político, este que as permite ocupar hoje espaços de fala e organização que antes eram impensáveis. Me parece não pelo meu mero julgamento, mas pela análise dos fatos e dos relatos compartilhados comigo por parte de Mika e de Caê - outra pessoa transmasculina com quem conversei para a construção dessa coluna e que relata em suas experiências o mesmo apagamento e exclusão de espaços políticos e artísticos feministas e/ou sapatão do qual fez parte e ajudou a construir antes de sua transição - assim como estudos e ensaios produzidos por feministas lésbicas e pessoas não-binárias com que me deparei no caminho da construção deste texto (como Okara Potyguara, pessoa indígena que se coloca como KONTRA-binárye, profissional da psicologia e que vem desenvolvendo reflexões de extrema relevância sobre estes assuntos em sua página @raizdomato

O que é uma mulher? Pânico, alarme geral para uma defesa ativa. Francamente, este é um problema que as lésbicas não têm por causa de uma mudança de perspectiva, e seria incorreto dizer que as lésbicas se associam, fazem amor, vivem com mulheres, pois "mulher" tem significado apenas em sistemas de pensamento heterossexuais e em sistemas econômicos heterossexuais. As lésbicas não são mulheres.

Monique Wittig, em "O pensamento hétero" (1980, p.6)

Monique Wittig, escritora francesa importante para o movimento feminista lésbico, constrói esse pensamento em 1980. Desenvolvo-o aqui com uma pergunta: Se mulher é um termo fruto da estrutura patriarcal e heteronormativa, tendo a subserviência ao homem (cis) e a reprodutividade humana como funções sociais, por que então estas cisgênero de quem falo continuam a se ater à reivindicação de suas biologias e desta nomenclatura que tanto as aprisiona? Por que não reconhecer que a luta antipatriarcal é - ou deveria ser - por consequência anticolonial e KONTRA-binárye, dado que a lógica binária de gênero veio para estas terras junto com a colonização portuguesa/europeia?

É um labirinto sem saída, lutarem contra suas opressões sem reconhecerem que não estão sozinhas neste balaio de vítimas. Querer fugir das ferramentas do real opressor carregando-as na mochila é, no mínimo, um grande equívoco ou a escolha de não abdicar de suas migalhas dentro da estrutura patriarcal. Digo isso pois é latente que, mesmo mulheres cisgênero brancas, estando em desvantagem na nossa sociedade em relação aos homens cis, é sabido que são as únicas relativamente beneficiadas nesta estrutura por sua correspondência e função dentro da heteronorma e da lógica racista/colonial - como disse Wittig - e como o capitalismo é muito ligeiro em suas atualizações, estas mesmas quando lésbicas/bissexuais acabam por lamber as migalhas destes benefícios sociais, e se contentar com migalhas às vezes parece melhor do que habitar a fome e a sobrevivência - estas deixadas para as corpas trans e não brancas em geral.

Assim, a roda continua girando. Assim, as estruturas de opressão continuam se reproduzindo pelas mãos das próprias oprimidas - olha só, acabei de lembrar de Paulo Freire...

Dito tudo isso, retorno às minhas aspas. Disse "homem" não só pelo fato de Mika não se identificar com este termo, mas para exatamente não correlacionar a vivência transmasculina à dos homens cisgênero. Isso não quer dizer que homens trans não devam ser respeitados como tais, pelo contrário, mas não podemos nos esquecer de que não se tratam de vivências semelhantes aos algozes - e ainda bem.

Confesso que este texto, para mim, foi um dos mais difíceis de elaborar até aqui. Além da minha vivência não ser atravessada diretamente por essa estrutura misógina - dado que não sou um corpo com vagina - também é nítida a invisibilização dos discursos e debates promovidos por homens trans, pessoas transmasculinas. Assumi esse desafio por necessidade de levar este debate adiante e para um maior público, mas tive aqui grande ajuda de Caê (grande parceiro meu, percussionista e pessoa transmasculina), de Mika e dos textos de Okara Potyguar e Monique Wittig. Enquanto uma travesti pansexual, sinto-me extremamente atingida por estes mesmos discursos, seja pela carga transfóbica que carregam, seja pelo fato de ricochetearem também no apagamento da minha vivência de gênero e sexualidade. Agradeço imensamente a estes que me deram suporte nesta escrita e deixo aqui mais uma vez registrada a importância de termos mais pessoas transmasculinas ocupando espaços de comunicação, discussão e decisão na nossa sociedade.

Quanto aos fatos ocorridos no ensaio do Siga Bem Caminhoneira, não me atenho aqui apenas à resolução de um problema recente, muito menos tenho interesse em difamar o coletivo em questão, mas é necessário que essa discussão se perpetue, para que posturas transfóbicas como estas não se repitam mais. Diante da situação, o bloco chegou a soltar um "posicionamento oficial" que vocês podem ler aqui:

O Bloco Siga Bem Caminhoneira há mais de 4 anos representa as mulheres lésbicas e bissexuais no Carnaval de São Paulo. Historicamente, nossa sociedade sempre nos calou e nos reprimiu, e por isso nosso objetivo sempre foi de acolher e ampliar a voz de mulheres que amam mulheres - e esta é a luta que levamos para as ruas. Criamos um espaço seguro e de constante troca e aprendizagem para que possamos juntas transformar o Carnaval e os ambientes que ocupamos.

Diante dos últimos acontecimentos em que grupos se sentiram excluídos pela nossa atuação, reconhecemos a legitimidade das expressões e por isso não apagamos nenhum comentário, não fizemos qualquer denúncia à plataforma e tampouco qualquer movimentação para derrubar algum tipo de publicação.

Levamos o ocorrido, posts e comentários construtivos para o grupo, ouvimos nossas integrantes e as diretrizes do bloco ainda serão discutidas entre todas internamente. Somos mais de 70 mulheres de opiniões e vivências distintas, que trazem para os nossos diálogos outros olhares e impressões sobre o hoje. Entendemos que um protagonismo não apaga o outro e que as lutas devem coexistir, com empatia e respeito aos seus objetivos.

Sempre acompanhamos e participamos das conversas em nossas redes e, em um momento como esse, também nos entristece e preocupa que o diálogo tenha sido substituído por ataques e falsas acusações. Ressaltamos que alguns dos comentários deixados nas publicações são barrados pelo próprio Instagram, por violarem políticas da plataforma e entendemos isso como ato de silenciamento de grupos, ao qual não concordamos e não temos controle. Vemos toda essa situação com muita dor e nos entristece a proporção dos ataques que disseminam notícias falsas e calúnias.

Que no futuro todo o mundo possa estar disponível à escuta construtiva, ao estudo e à vivência de forma evolutiva e conjunta.

Certas de sua compreensão,
A Organização do Bloco Siga Bem Caminhoneira

É visível para mim - e espero que também seja para você que me lê - a superficialidade deste "posicionamento". Além de não reconhecerem a violência transfóbica que cometeram, insistem em dizer que o diálogo, na ocasião, foi "substituído por ataques e falsas acusações", desvalidando as denúncias sobre o ocorrido. Procuradas por profissionais da ONG Casa Chama para um diálogo construtivo e informativo, inclusive com a disposição de Mika para essa conversa, demonstraram interesse inicialmente, porém até o momento, já três semanas após o ocorrido, não mais retornaram o contato para que isso aconteça.