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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crianças não têm gênero, são a pura potência do criar

RS-photography/iStock
Imagem: RS-photography/iStock
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

13/10/2021 06h00

Ontem, 12 de outubro, comemoramos o famigerado Dia das Crianças. Criança, essa palavra tão bonita, que vem da criação, do criar, de se lambuzar nesse processo de descobertas de quem se é. Sem amarras, julgamentos ou noções prévias, apenas a delícia de a cada dia descobrir o mundo e se descobrir nele. Uma fase em que nós, adultos, deveríamos prezar por essa liberdade, dando respaldo para que sigam o seu caminho florescendo dia após dia, e buscando interferir o mínimo possível com nossos conceitos pré-concebidos, nossas morais e preconceitos.

A infância sempre me encantou. A forma como as crianças veem o mundo revela coisas sobre o nosso mais profundo estado de veracidade, do que é genuíno. Ao mesmo tempo, conforme vão crescendo, podemos ver como a interferência externa, dos espaços que elas habitam, das pessoas com quem convivem, vão moldando seus comportamentos. E isso me suscita uma responsabilidade imensa da nossa parte.

É muito comum, na nossa sociedade adultocêntrica, olharmos para as crianças com ares de que sabemos mais do que elas, de que elas ainda não estão prontas e não sabem sobre o mundo. Dessa forma, castrações, imposições de conceitos e regras vão interferindo nesse processo de florescimento e agilizando um amadurecimento que viria com o tempo, com as quedas, com o percebimento das consequências das escolhas e até mesmo dos prazeres de se ser quem é de forma íntegra e potente. Ignorância nossa, daqueles que já há muito se esqueceram da delícia que é existir para além ou aquém dos conceitos impostos pela sociedade sobre o que é correto e aceitável.

A criança é subversão, é descoberta, é caos. É a força de transgressão, que olha para a vida podendo ser tudo o que ela quiser, e é exatamente por isso que tanto visam controlar seus passos e feitos. Quando falamos, por exemplo, sobre criar as crianças de forma a não generificá-las, ou seja, não impor padrões de gênero a elas, não estamos necessariamente dizendo que todas as crianças são trans - ao menos não da forma que hoje entendemos esse conceito - mas que, se seguimos impondo um gênero antes mesmo delas se compreenderem enquanto sujeitos em sociedade, embutimos em seus inconscientes comportamentos e regras que não condizem com suas naturezas.

Eu fui uma criança trans, e me impuseram - a sociedade, minha família, os médicos, todes! - o gênero masculino. A performance masculina, as vestimentas, os brinquedos, os gostos, os desdéns. Desde antes de nascer, após olharem para o meu órgão genital, já começaram um processo de modulação, se preparando para receber aquele cujo futuro já imaginavam, dentro dos padrões do que se espera de um homem. Eu me pergunto hoje: de que adiantou esse cerceamento se não para dificultar meu processo de autopercepção? De que, se não para que eu passasse por diversas violências e apenas aos vinte e três anos de idade tivesse força e consciência suficientes para finalmente ser aquela que eu sempre fui? Eu. Travesti.

Não culpo meus pais ou qualquer pai ou mãe por isso. Como já disse Paul B. Preciado, ninguém ensinou esses pais a serem pais e mães de crianças ditas dissidentes. Por isso insisto que esse processo de mudança de olhares e comportamentos começa na liberdade das crianças, para que não reproduzam conceitos e violências impostas. Mas para isso nós precisamos nos conscientizar o suficiente para que façamos o menor estrago possível na construção delas.

Há poucos dias assisti a um vídeo na internet sobre uma família europeia que criou sua criança de forma "neutra". Abdicou dos conceitos binários na criação, deu-lhe um nome não-binário e usou o gênero neutro num primeiro momento. Além disso, sempre buscaram respeitar os desejos delu: brinquedos, roupas... tudo o que desejava fazer era mais importante do que aquilo que ditam as normas sociais binárias e cisgêneras.

Além da liberdade e do respaldo, para que não sofresse represálias por ser quem era - apenas uma criança -, os pais constantemente conversavam com e filhe sobre questões como respeito, identidade de gênero e preconceitos. Tudo isso para instruir a criança e fazê-la compreender não só quem ela era dentro de seu espectro de liberdade, mas também como a sociedade funciona e quais as pluralidades de existência que temos no mundo.

Hoje, já um pouco maior, a criança compreendeu por conta própria e pediu para os pais que o tratassem no masculino e lhe dessem roupas masculinas. Mas, de forma alguma, isso o impediu de seguir brincando com tudo que quisesse, vestindo outras roupas e até mesmo se portando de forma "afeminada", como nossa sociedade cis-binária diria e repreenderia.

Esse relato chegou para mim como um respiro profundo. Ver uma família com pais cisgêneros buscando caminhos e formas de seu filho descobrir quem é por conta própria é algo tão raro e tão necessário que me deu alguma esperança sobre tudo que viemos lutando até aqui para proteger as crianças nesse processo. Diferentemente do que conservadores insistem em dizer, ninguém está impondo a transgeneridade para elas, nem mesmo impedindo que sejam cisgênero, mas buscando libertá-las das amarras que se iniciam desde um chá de revelação até o fim de suas vidas, pelo simples fato de terem uma genitália ou outra.

É urgente que protejamos nossas crianças das normas de gênero impostas. Como diria Travis Alabanza em seu espetáculo "Burgerz": "O que vem antes, o gênero ou a violência? Não importa, pois os dois são a mesma coisa". Pensar gênero é pensar como a nossa sociedade se comporta de forma a controlar quem pode ou não fazer determinadas coisas, assim como quem tem poder sobre quem, e quem pode ter esse poder. Vale ressaltar que, mesmo para quem detém o poder - na nossa sociedade atual, os homens cisgêneros e brancos - a violência de gênero permanece operando. Ela não o transforma em sua maior vítima, mas, mesmo na posição de algoz, restringe suas potências para que se iludam com o poder e mantenham a máquina funcionando tal como ela está, mesmo que não seja esse o seu desejo.

Proteger as crianças trans é, portanto, proteger todas as crianças desse processo castrador. Pois toda criança que nasce pode ser trans, assim como pode não ser, e é necessário que nós adultos e, principalmente, os pais e mães estejamos abertos e atentos para escutar os caminhos que cada uma necessita seguir, podendo assim apoiá-la e acolhê-la. Que nós precisamos de uma atenção maior às crianças trans é um fato, dado que são elas - nós - as que mais sofrem por não poderem ser quem são na grande maioria das vezes. E, quando o são, recebem represálias da sociedade constantemente.

Protegê-las é proteger-nos. Protegê-las da manutenção da violência de gênero, do patriarcado, da cultura do estupro. Protegê-las das represálias quando não se conformam com os padrões que lhe são impostos. Para que essas mini-bius, n-babys, meninos trans, travequinhas, garotinhes em geral possam desfrutar da dor e da delícia de se descobrir dia após dia na aventura que é a vida.

Não atrapalhemos. Tudo o que nós fazemos, na maioria das vezes, é atrapalhar. Não se pode dizer como um artista deve pintar seu quadro ou dançar com seu corpo. Isso apenas se faz, e a única pessoa que pode fazer é a própria criadora de seus passos. Nos resta observar a criação da obra e, no máximo, auxiliar quem cria quando necessário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL