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Mara Gama

Essenciais e mal pagos, catadores movem reciclagem

Carroça de catador de recicláveis reformada pelo projeto "Pimp My Carroça" - Divulgação
Carroça de catador de recicláveis reformada pelo projeto "Pimp My Carroça" Imagem: Divulgação
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

26/11/2020 04h00

Um novo estudo identificou mais de 1,8 mil cooperativas ativas no país e constatou: o trabalho das catadoras - elas são maioria - e catadores de recicláveis é essencial para governos, empresas e cidades. Tanto para a limpeza urbana, que está na alçada das administrações municipais, quanto para os programas de logística reversa das grandes companhias de alimentos, bebidas e bens diversos que geram embalagens em profusão e precisam dar destinação correta aos resíduos, pela lei.

São esses trabalhadores, a maior parte deles informais, que movem o que existe de economia circular girando de verdade no país. "É como se a gente levasse essa estrutura nas costas", diz Roberto Laureano da Rocha, o presidente da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis, a Ancat.

O Anuário da Reciclagem 2020, que será lançado amanhã (27), fez extrapolações variadas de acordo com as respostas efetivas das cooperativas para as perguntas propostas. Sobre a recuperação de materiais, foi tomado como base o desempenho de 607 associações, em 356 municípios, de 23 Estados, que recuperaram quase 355 mil toneladas de materiais recicláveis. Expandindo esses dados, a estimativa é que podem ter sido recuperados, em 2019, 1,057 milhão de toneladas de resíduos sólidos pelas 1.841 organizações mapeadas.

O Sudeste teria se mantido com o maior volume recuperado (45,21%), seguido do Sul (28,27%), Centro-Oeste (12,40%), Nordeste (8,34%) e Norte (5,79%).

Em relação ao faturamento gerado pela destinação dos materiais, os resultados da estimativa indicam que, em 2019, as 1.841 organizações faturaram R$ 590,5 milhões. A região com maior faturamento foi a Sudeste, correspondendo a 48,8% do total, seguida do Sul (27,7%), Centro Oeste (11,0%), Nordeste (8,3%) e Norte (4,2%).

Sobre o número de catadores, partindo dos dados de 408 organizações, a projeção é de que as 1.841 organizações têm 46 mil catadores.

Das associações pesquisadas, 35% delas recebem e processam materiais oriundos da coleta seletiva municipal e 71% realizam coleta própria, buscando resíduos em comércios, nas ruas, em geral sem contratos. O anuário também mostra que 30% das cooperativas recebem apoio - infra-estrutura e capacitação - de projetos de logística reversa de empresas privadas.

A região Sudeste é que mais tem catadores cooperados: 18.800, 40% do total da amostragem, enquanto a região Norte tem apenas 5%, ou 2.400 catadores. Há mais mulheres que homens nas associações: 55% contra 45%.

"Apesar de termos conseguido fazer o maior banco de dados atualizado, ele não atinge o total de catadores. A imensa maioria está atuando nas cidades com trabalhos avulsos ou nos lixões", diz Dione Manetti, diretor executivo da Pragma Soluções Sustentáveis, empresa que fez a pesquisa junto com a Ancat e a consultoria LCA.

A informalidade e a flutuação da atividade em relação à situação econômica dificultam a contabilização desse enorme contingente de pessoas, mas não só isso. A invisibilidade é alimentada pela falta de pesquisas nacionais atualizadas.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), publicado em 2013, indicava a existência de 387.910. Em outro, de 2012, o IPEA considerava que devido à dificuldade de se chegar a um número preciso, seria razoável estimar a existência de 400 a 600 mil catadores no país. Neste mesmo estudo, segundo dados do IBGE, foi registrada a existência de 1.175 organizações de catadores, que reuniam cerca de 30 mil catadores, distribuídos por 684 municípios.

O Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis trabalha com o dado de 800 mil catadores e catadoras em atividade no país e uma participação de 70% de mulheres. O MNCR estima que os catadores são responsáveis pela coleta de 90% de tudo que é reciclado hoje no Brasil.

"A pesquisa mostrou o gigantismo da participação dos catadores na reciclagem. E isso demonstra que qualquer estratégia de implementação de coleta seletiva e da logística reversa não se viabiliza sem investimento nas associações de catadores. Elas são fundamentais para esse tipo de atividade dar certo no Brasil", diz Manetti.

As empresas que têm programas de logística reversa ou ações de responsabilidade social que atingem cooperativas são hoje o único investimento que chega a essas organizações. "Principalmente neste momento em que não há investimento público nenhum", diz Manetti. As companhias, porém, não revelam seus investimentos em cooperativas. Não se tem, portanto, dimensão desses valores.

O "gigantismo" do trabalho dos catadores pode ser verificado, de acordo com Manetti, com dados do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares). Segundo o diagnóstico do plano, a geração de Resíduos Sólidos Urbanos no Brasil inteiro foi de 79 milhões de toneladas em 2019. Neste mesmo ano, os 46 mil catadores em cooperativas foram responsáveis pela coleta de 1,057 milhão de toneladas.

"Uma das provas da importância dos catadores na cadeia da reciclagem é que este ano de pandemia vários setores tiveram problema de abastecimento, com a interrupção de trabalho dos catadores", diz Manetti.

"A indústria ganha milhões e os catadores seguem na miserabilidade. Os dados mostram a quantidade de material coletado e a fragilidade da remuneração. Somos os menos remunerados da cadeia. Executamos trabalho para o município e para as empresas e não ganhamos nada por isso", diz Roberto Laureano, da Ancat.

O trabalho dos catadores é remunerado pela venda dos materiais, que oscilam de acordo com a região, a demanda, a quantidade de material disponível, o que provoca variação na renda de autônomos e de cooperados.

Os preços são baixos. Compor a renda só com eles é um esforço enorme e não leva em conta o trabalho real.

Para se ter uma ideia, o kg de papelão, cotado nesta quarta (25), em São Paulo, estava a R$ 0,50 e o kg de PET cristal, a R$ 2,50. Em Poá (SP), segundo Marcos Antonio Lima, da Cooperativa de Reciclagem pelo Meio Ambiente (Cruma), o papelão estava oscilando entre R$ 0,80 e R$ 0,90, o kg do vidro entre R$ 0,14 e R$ 0,15, o kg de PET cristal entre R$ 3,30 e R$ 3,50 e o alumínio estava a R$ 5,60 o kg. Para obter um salário mínimo de R$ 1.045,00, seria necessário, ao preço de hoje e sem os custos da atividade, catar 418 kg de PET em Poá, e 298 kg de PET em São Paulo. A garrafa de PET de 2 litros de refrigerante tem, em média, apenas 47 gramas.

"A venda de materiais é extremamente mal paga. A remuneração adequada seria por todos os nossos serviços. A gente alimenta a cadeia, recolhendo as embalagens e preparando o material, mas não recebe de acordo. Somos um anexo da indústria que a indústria não reconhece", diz Roberto Laureano.

A remuneração por todos os serviços e não pelo peso de materiais seria mesmo uma forma mais justa. Aproximar mais os catadores das indústrias, eliminado da cadeia os atravessadores, também é fundamental, segundo Roberto Laureano.

O presidente da Ancat espera que o Anuário possa dar mais visibilidade ao trabalho dos catadores do Brasil.

A nova edição do estudo teve apoio de várias empresas e associações empresariais. Vai ser lançada sexta, em live pelo Zoom. Inscrições pelo site.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.