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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Comunidade paralela

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

25/09/2021 06h00

- Minina, eu não passei a ligação, achei desaforo. Quando ela estava mal, ele nunca quis falar ou visitar ela.

Adoro iniciar uma conversa assim ladeira acima, aguça a curiosidade. Pensei comigo: Filho ingrato, só deve bem ser a mãe que adoeceu e ele não visitou e agora talvez...

Sei lá, estou supondo, entrei no coletivo e aquela frase caiu nos meus ouvidos, procurei um olhar complacente, sempre tem, meneei a cabeça usando a maior ferramenta que Exu me deu, o pescoço e a janela da minha alma fofoqueira que Gaiarsa batizou. Eu senti que tinha ali um conflito, eu sinto, é por isto que existo, e quando encontrei um outro olhar que pensava como o meu pensamento, sem saber mesmo o que eu pensava, batata! E que nem era de nossa conta, era na conta da pessoa que falava ao celular em altos brados, era sim uma parada coletiva. Eu entrei ali na Dr. Arnaldo pra descer na Cardoso de Almeida, uns cinco pontos e pronto, eu sairia de cena, mas fui convidada a aquela conversa, eu e meu novo grupo de amigos, que agora ouvíamos e nos envolvíamos na conversa com menear de cabeça e expressões diversas, só o que eu penso é verdade, todo o resto é fantasia, Gaiarsa me pôs a par disto também, por isso é bom ter amizade com livros, eles nunca se vão.

Onde já se viu o desprezo tal e qual a moça dizia ali, só podia ser com a mãe, olhei pra minha companheira de relacionamento, já há cinco minutos, novamente, e ela confirmou com o queixo caído e piscando olho, consenti. Voltamos para a conversa, já se ia dois pontos:

- Eu acho até que ele tá sofrendo agora, que é muito tarde, eu não quero saber.

- Tá certo - confirmamos nós dois ou três.

Mas a conversa se estendeu, tinha mais gente, mais problemas e pendências. Eu já havia gasto três pontos e estava decidida, se ela não desenrolar o assunto eu não desço. O ponto final é na barra funda, tem uns quatro pontos, até ali tudo bem, se acaso não desenrolar até ali não sigo, não porque não ficaria curiosa, mas porque não gosto de andar de metrô, de sorte que o assunto deu uma reviravolta e caminhou.

- Sabe irmã, agora ela está melhor.

Hum, é evangélica pelo jeito.

- Começou comer, engordou um tanto, tá corada.

Hum, tá se recuperando, era doença então, será que era grave?

A conversa enguiçou, não desenrolava, e eu não sou pessoa de ficar com assunto pendente, não desço enquanto não concluir.

- Sabe irmã, quando eles terminaram ela quase morreu, eu penei pra levantar a minina, era caso de desafeto.

Caramba, já entra logo nos desafetos de cada um, penso que quando a gente ouve estas coisas fica logo com pena de quem está com o rabo no fogo naquele momento e com medo de se chamuscar por aí. Coisa que nenhum vivente escapa, já que somos chama variável, a dor do outro sempre bate na nossa janela de vidro, é ou não é?

Ufa, era fim de namoro, meneei a cabeça com sorriso de alívio, minha colega de lado expressou um alívio igual. Pronta pra outra.

- Agora já está recebendo um grupo de amigas da congregação e tudo.

Não sou religiosa a este tanto, mas se é pra curar, e tudo que cura é medicina como Exu nos ensina, tá bacana. Aplaudimos com as pestanas.

- Mas deu um problema, tem uma lá que nem é da igreja e tem vindo mais que as outras sabe. Jeitinho de moça solta, eu não gosto irmã, fala o que quer, chegam e se trancam no quarto, dão risada alto, fazem silêncio Irmã, o silêncio delas grita dentro de mim e me apavora, você sabe o que o evangelho pensa sobre o silêncio, né? Medonho, coisas que a igreja não aprova.

Cheira a janelinha de confessionário, jejum e penitência, aí eu nem concordo, ela já tava exagerando, o fogo é mais quente até certo tempo depois é tanto balde de água fria no estopim da gente que fica morno, depois míngua, e nem é castigo nem carece de confessar. Voltemos ao ônibus.

- Reclamei, reclamei sim! Aí ela se revoltou, tive que esbofetear ela e botar a guria pra rua, irmã. Desde então ela se trancou de novo no quarto, está muda, diz que quer morrer, sou mãe. Me socorre irmã, acho que satanás tá trabalhando na minha casa.

Tive raiva, tive pena. Ah! É isso, ainda bem que ainda dava tempo de descer, cumprimentei meus companheiros, apertei a campainha e desci, errada ela num tava de querer amar alguém, essas conversas sempre se dão em coletivos, geralmente a pessoa fala tão alto que é impossível não participar. Fiquei pensando quando tudo isso começou, quando me dei conta que as pessoas falam alto, também já gritei até, foi preciso silenciar para ouvir, quando se deu este fenômeno de se fazer ouvir. Não foi no coletivo, foi quando, ali mesmo, na rua de casa alguém botou uma caixa de som e fez o primeiro culto, ou quando fizeram o primeiro baile de rua, ou os encontros do MST, o rádio? Não sei dizer quando começou, sei dizer de quando começou a me incomodar. Quando foi que passou a fazer parte de nossas viagens, teve um tempo que toda propaganda se limitava a vir colada na parede do transporte e pronto, depois mudou, virou reclame, como este que narro a seguir.

- A gente vai passar o natal onde? Já vô logo dizendo hein! Se tua irmã enchê a maionese de uva passa e maçã eu vou me estreitar com ela, ou bem é salada ou salada de fruta. Tem mais, eu passei o ano inteirin em academia pra perder o carboidrato que comi na casa de tua mãe ano que passou. Onde já se viu, maionese, lasanha e arroz a grega, pela mor de Deus esta mulher num tem um livro de receitas de festa? Um ano inteiro pra planejar uma comida tão chinfrim. A brincadeira vai ser o que, amigo secreto ou amigo da onça? Veja lá, é melhor ir pelo lado que dá menos confusão, lembra que fulana recebeu o maço de dinheiro de brinquedo, riu e tudo mais, lembra

depois? Ela achou que foi indireta porque ela vivia procurando o umbigo no bingo. Na páscoa, carnaval teve até polícia, por causa do dinheiro de mentira, vestígio da última festa. No ano seguinte, lembra que a gente fez a jura que não era pra ninguém arrumar confusão, nem ameaçar ninguém por conta do brinquedo, que tudo era brincadeira? Minha vida vale mais que este chiclete zoado destas festas na casa de tua família. Um risca faca, tenho nada com isto não, mas como já é setembro, tempo de armar a armadilha colorida na sala e pendurar as bandeirinhas. Só não sugiro a praia porque não gosto de forféu, e tô lembrando agora em setembro porque ainda dá tempo de consertar muita coisa, se brincar nem monto árvores nem nada, que Noel nem tá merecendo. Num esqueci que tua tia levou uns refrigerante zuado, fim de carreira, que nem existia, ainda na hora de beber não quis beber do dela, disse que era pra criançada, tenha paciência, como se meus filhos não tivessem paladar. E aquele bando de imprestáveis que num descasca uma cebola, porque não sabe a diferença dela pra um tijolo, num lava um prato pra num abalar a essência. Pra passar uma vassoura na casa tem que esperar o momento, cê acha? Aí sobra pra nóis, que não curte bagunça, segundo os xofens, o grupo que tem idade. É só nos canto clicando celular sem parar, bicando. Preciso saber, serei visita ou contratada? Teve uma hora que precisei falar com fulano, precisei entrar na internet, sendo que estávamos no mesmo cômodo.

Esta viagem era no 175 - Ana Rosa / Santana, poderia ser pior, antes esta linha ia até Edu Chaves, e não houve aderências nem interferências, sei porque, pra além de ser íntima, é coletiva, esta conversa me fez lembrar intimidades, errada num tava, mas a viagem é longa. Tem encontros que são obrigatórios, até quando a gente acha que deve ser, tem gente que vem pra causar, na entrada ou na saída, num falha. Vem sem vontade ou arranja má vontade quando chega, espírito de contenda, este grupo que traz tudo de marca ruim e nunca consome o que trouxe, quem não conhece? Amantes do genérico similar por conveniência, tem o caridoso que vem e traz mais gente, tem aquele conhecedor universal que não move uma palha, mas opinam, sabem tudo sobre gourmet que o moço fala na televisão, conhece minhoca pela internet, chama a gente de velho, o sabe tudo, e só come se alguém fizer, se eles cozinharem só tem hambúrguer e…

Eu desci do ônibus e trouxe o assunto comigo, sou escritora de nascença, fui falar com uma pessoa cá de casa e sem querer eu vi que ela tinha comprado alho e achei caro. A nível de informação, eu quis dizer que compro bem mais barato e eu teria dito que naquele valor que ela pagou em seis cabeças eu compro um quilo. Pra que eu falei, pra que desviei o assunto:

- Eu sei, eu vi muito bem que você deu este quilo prá fulana na minha frente e nunca me deu nenhuma.

- A gente não tem um minuto de paz.

A sujeita mora na minha dispensa, respiramos o mesmo ar e agora essa, ciúmes de alho. Me chama atenção nisso tudo é perceber quanto tudo isso é verdade, voltei para o coletivo, prefiro o impessoal. Pra dentro de cada um, ali naquele coletivo, fez lembrar momentos em que ou se sentiu muito feliz junto a sua família, acolhido e amado, ou simplesmente humilhado e infeliz, se sentindo aquele pato feio. E a voz subliminar maltrata lembrando um infortúnio talvez na voz de seu maior companheiro. A voz do subconsciente: É você este patinho num tá vendo, ela não para de olhar quando a galinha ri do pato feio, quando a gansa se aborrece com o pato feio, quando sua mãe se equivoca, ou ainda quando seu irmão mais velho ou mais novo te estranham. Eis aí, meus senhores e senhoras, um coletivo de iguais, salvo os bem intencionados e os distraídos. Lamento dizer que chega um momento que, é sim, hora de deixar tudo isto pra lá e fugir. Não leve meu conselho ao pé da estrada, eu não devo ser usada como parâmetro, num dado momento eu fui embora, escolhi outra forma de vida, um outro mundo, tudo vai se resolver. Transcendi? Não.

Descobri que a moça do ônibus estava certa quanto a reclamar de tanta coisa que ela não aceitava, é direito né, liberdade de expressão, porém se ela detesta tudo depois que cresceu por que ficou feito uma árvore? É muito mais assertivo dizer às pessoas, com educação, o que gosta e o que o incomoda. Talvez surta muito mais resultado do que jogar suas verdades na nossa viagem de ônibus e liberar ali os seus fantasmas a esmo que acordam em nóiz, energias que a gente insiste em esquecer e só diz ao pé de ouvido do analista ou sob confissão. Sim é falta de coragem, ou medo de violência maior. A violência fez de nóiz gente que engole muita coisa sem questionar, como o rapazote que ouve sua música em som alto sem fone de ouvido. A criança que ouve ao celular coisas boas ou não e a gente nunca reclama por medo de aflorar os instintos da mãe ou pai ou acompanhante, tem ainda aquela pessoa que não emite som, mas chupa sua balinha inocente e joga seu papel na rua com o ônibus em movimento, e não raro, reclama de enchentes provocadas pelas pessoas que moram em periferia. Sim, jogam nas nossas costas o enxame de garrafas que descem o Tietê em festa da nascente a Pirapora, como se fossemos nós que inventássemos o plástico. É bom prestar atenção viu, você que pensa assim porque não lê um pouquinho sobre recursos naturais e seus exploradores e repense sua festa, ou ainda visite algum projeto de catadores, te adianto que vai mudar seu conceito sobre os carroceiros da cidade que, às vezes, até é ofendido ignorantemente dizendo que atrasam a viagem. O natal e estas festas que não gostamos tem muito que ver com isso, e mesmo que você seja branco e mimado, feito o senhor do acidente, e nunca precise mover uma palha porque é nota dez e a família o julga muito inteligente, neste momento inteligência mesmo é entender o diverso, sair da bolha da rede que te estimula compartilhar incompatibilidades gourmet.

As decisões que não tem volta mesmo depende muito de como você sai, saiba sair porque se você me permitir vou te lembrar, a gente não tem pra onde voltar e pode querer voltar. Aquela tia metida, a sabe tudo, que a gente sabe que ela nem sabe tanto assim, já te quebrou vários galhos, já te deu roupa e tanto mais, sabe o Noel que mentiram pra você e que você descobriu que era mentira? Era ela o tempo todo! Às vezes, enquanto você nem pensava, ela já guardava todo mês uma moedinha pensando em você, lembra quando roubou o cofrinho dela e a viu chorar sem nenhuma compaixão? Então, ela chorava por você, nem vou falar de mãe, porque o raça pra sofrer e encher o saco tudo ao mesmo tempo. Mãe é uma só, mas dura, diz o poeta distraído tentando fazer graça, e é engraçado até você perder a sua, mesmo que seja só de vista, aí a piada perde a graça. E quando fugimos da festa da família e vamos pra festa da família de um amigo descoladão, até determinado momento da entrega dos presentes a tia resolve jogar no colo do tio um caso de traição que ela descobriu, e ele, por estar armado sem o consentimento de sua corporação, para acabar com o assunto tira o revólver do coldre e atira, três tiros vão ao ar sem destino. E pra esquecer esta data, vai relembrar com saudade o refrigerante sem graça, os presentes sem sentido, as verdades ditas de propósito, e as mazelas que acontecem no seio da família que te ama e que te acolhe com os defeitos que cada família tem. Também tem novidades nunca novas que a gente conhece, indo a outras comunidades para fugir dos festejos da casa da gente. O tio caprichou na queima de fogos para abafar o assunto de um dinheiro que havia sido depositado na conta dele, o assunto era tão velho que o banco nem existia mais, só a raiva. O banco era do tempo que ele era considerado responsável pela família, foi o mesmo que amarrar o dinheiro no cabo do viado e soltar no mato. Mãe garrou naquela época um ódio de uma certa namorada, mas naquela noite, na casa de estranhos na hora da queima, a verdade se revelou, ele gastara a grana com a irmã dela, tem verdade dos outros, tem verdade da gente. Imagine que um dia, no meio de uma festa, a tia Marta, que odeio até hoje, levantou para alcançar a salada e disse: Esta salada está muito longe assim como fulana que está muito longe de ser uma menina. Esta era pra mim e eu me vinguei cinquenta anos depois, cheguei atrasada no velório dela. Às vezes, para fazer jus, marcar presença pra sair nas fotos de família e ser lembrado vale muito ter a mão um copo de bebida forte que tem efeito rápido ou caprichar na queima de fogos, outra saída é musica no ultimo volume, nunca de cunho que o faça pensante ou nostálgico. Tenha playlists que agradem e façam esquecer a maioria de forma que é bater e valer, ou seja, ouvir e sair a rodopiar pelo salão, principalmente quando tem desafetos, e sempre tem. Na dúvida, use uma desculpa: diarréia, mal estar ou até mesmo fingir desmaio, super funciona. Já para o coletivo nunca falha, use fones de ouvido que estes não tem pálpebra. Boas festas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL