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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Revisão

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

12/09/2021 06h00

- Dona Jacira, veja bem, me diga uma coisa, este cachorro da sua história, tanto o branquinho quanto o pretinho, eles seguem com a senhora até quando?

- Não entendi a razão desta pergunta.

- Sem querer menosprezar sua trajetória, nem banalizar momentos significativos pra senhora, mas cachorro é coisa que todo mundo já teve, é banal. Se me permite, na minha opinião, eu que tenho uma formação em literatura, tenho uma experiência vasta no gosto de quem lê. Sugiro que se estes cães não seguiram com a senhora até hoje, não vejo razão para citá-los neste momento. Eles podem estar ocupando o lugar de pessoas mais significativas na sua trajetória, como um professor, uma tia, uma memória afetiva mais importante, o que a senhora acha? As pessoas estão se ligando muito neste mote de memória afetiva ultimamente, tem vendido muito.

- Você me pediu respeito, eu acato e te devolvo, e respondo com o mesmo. Acho que, acho não, tenho certeza, você é branco, deve ter uma família enorme, coisa que eu não tive por razões óbvias do próprio racismo. O livro fala sobre exclusão da minha nação, então no transcorrer da minha vida tivemos vivências ímpares. Deve ter conhecido minhoca pela internet e conhecido frango pela televisão ou nas assadeiras de porta de padaria. Foi criado num playground e nunca viu um cachorro que não seja de pelúcia, pra não deitar as mãos na areia, de que outra maneira um cachorro duraria 50 anos?

Gente horrorosa certos revisores, mas revise sem entrar na minha história, só revise, e fique lá no seu cantinho. Quando quiser uma história sem cachorro, escreva a sua. E tem mais, isso aqui nem é literatura, não conheço todos os leitores do mundo, aliás no meu país, nem se lê muito. Isto aqui é a minha vida, mas você quer uma história duradoura, com um cachorro vitalício, vamos lá então.

Sente que lá vem história, aqui no meu Ataliba a gente tinha o bicho e muitas vezes o bicho tinha a gente, aqui não tinha este negócio de cachorro guarda a casa, aqui cachorro é companheiro de aventura. Já tive de filhote de camundongo a teiú ou tartaruga, formigas, tatuzinhos, taturanas, além de o Lulu, como já disse, que se mudou por conta e o Neguinho que durou muito. Tivemos outros bichos que eram todos bem de família, mas falar mesmo é coisa que eles só faziam comigo, porém eu tive uns companheiros galináceos de quase estimação, se chamava Pio, todos eles, sou militante neste negócio de nome, se gosto repito a saga. Era muito comum passar pelas ruas uma Kombi com caixas cheias de pintinho amarelinho trocando pelo maior bem do momento, garrafas, que eram as meninas dos olhos de mãe pelo valor que tinham, mas a gente sempre dava um jeito de ter uma garrafa pra adotar um bichinho.

Chegou em casa ainda pintinho, destes aí trocados por casco de garrafa, naquela época era a gente que resolvia que bicho queria ter. Pio era bem amarelinho, o mais amarelo da caixa, o mais bonito. Entre os irmãos era o que mais chamava atenção, mãe torcia logo a natureza dela agora que ela já nem tinha mais esse mau hábito de ter galinhas entre si.

- Você vai cuidar dele?

Era um sim pra fora e um talvez pra dentro, quando a gente é criança tudo é muito volátil, o vento leva a gente. Hoje sei que eu iria brincar com ele até certo tempo e depois o destino diria. Alguém botava logo gosto ruim dizendo:

- Vish, num vinga, vai morrer logo, num dô uma semana, eles vem tudo doente.

Quando mãe tinha galinha e elas se retiravam pra chocar, saiam do choco com vários pintinhos iguais aqueles. Ela ficava muito brava se alguém tentasse chegar perto, qual galinha havia abandonado tais criaturinhas? Será que o homem da Kombi chocou eles, acho que não. Boca de praga era verdade, e tal e qual o mau agourento dizia, muitos morriam mesmo, eles não tinham uma mãe pra ficar de baixo ou brigar por eles, eram tão órfãos quanto eu, era uma choradeira pra cada um que eu perdia para a morte natural ou na boca de algum gato, mas Pio se destacava, mas quem tinha sorte, e sempre tinha quem tivesse. Sempre tirava alguns para criação, eles desafiavam as estatísticas, iam crescendo, espichando, mudando as penas, ficando mais ágeis e, de repente, nascia lá nele a croaca e a crista. Com Pio foi assim, agora já estava fora de risco, já era um rapaz, corria pelo terreiro galhofeiro como ele só, e se tudo desse certo, em poucos meses ele já subia numa cerca e danava a cantar.

- Que história bacana, é só isso?

- Claro que não.

Ele seguia forte crescendo sem parar, ganhava corpo, unhas enormes e ela ganhava a espora. O esporão ficava cada vez maior e era aí que a porca torcia o rabo, naquele galo selvagem, daquele pintinho do início, não tinha mais nada, nem lembrança. É isto que agora eu adulta sei, infelizmente, mas meus netos não, resultado de anos vividos à frente de meu próprio tempo.

Ele se levantava cedo ou nem dormia, virava o dono do quintal, batia em todo mundo, qualquer pessoa ele botava pra correr, era só ele cismar, cadê a paz e a beleza dos primeiros dias? E não era como outros animais que temiam uma pedrada, uma lata de água na cara, nunca, era desprovido de medo, pra ele não existia nem cerca, nem galinheiro que o prendesse. Andava pela rua, peito estufado, pescoço ereto, olhar bifásico, sim ele tinha duas caras, uma parecia que ele era gente boa, a outra a gente descobria na carreira. Quem diria que aquele bichinho tão singelo que a gente tinha adotado com o homem da perua um dia viraria nosso algoz. Sim, o bruto não perdoava ninguém, numa casa que tinha um desse não precisava nem gato, nem cachorro, ele sozinho dava conta do recado, triste é que maltratava até quem o queria bem, e tem outra coisa, quando um destes infortúnios acontecem malogram sempre o nome do adulto da casa.

Quando incomoda os vizinhos nunca dizem "olha o galo ou o cão de Nico", eles diziam "olha o galo de Dona Xica", isto dava uma certa fúria em mãe, que nada tinha a ver com isso. Em partes porque se eu era dela o que era meu era como se fosse dela também, eu achava antes de ser mãe, hoje tenho raiva e dou total apoio a ela. E não tinha quem o segurasse e não havia nem este nem aquele a quem ele temesse, a sorrateirice e o cinismo em pessoa, o inimigo número um dos distraídos, quando a gente via ele, lá longe, nunca que a gente imaginaria que ele viria para o confronto, isto era assim no princípio, depois virou certeza, ele fingia, bastava estar de distância segura e seguia na nossa direção aos pulos e bicadas feito onça de pena, o difícil era fugir dele.

Às vezes a mãe da gente, pra se livrar da fera, dava de presente a alguma pessoa sem a gente saber, mas com pouco tempo esta mesma pessoa devolvia a encomenda. Ao galo era dado todos os direitos, ele podia bicar, correr atrás, tocaiar, que só rendia a dor e a raiva de quem ele escolhia e risos dos demais, é bem verdade que ele nunca escolhia vítima, era democrático, então todos tinham sua vez de passar vergonha com o galo topetudo meio cão meio ganso. Seguia ele em sua bipartidariedade, só uma coisa, nunca podia mexer nas panelas de losna de mãe, ciscar as leiras de cebolinha e bicar as couves, ninguém com juízo perfeito, coisa que estava provado que ele não possuía, cismasse, e para um vivente que tinha o dia inteiro pela frente e não carecia de se entender com os ponteiros do relógio lhe sobrava tempo. Criar ou ter galináceos perto até me ensinou uma coisa, como por exemplo, ver as horas.

O sol nasce pro lado de Guarulhos, nesta hora estavam por ali por perto, conforme a bola de fogo se levanta e passeia sobre nóiz eles iam trocando de lugar, quando se deitam nas poeiras, ciscam e jogam poeira pra todo lado, mais ou menos 10 horas da manhã, depois o sol fortalece. Sol no meio do céu, calor intenso, tem três detalhes, a se observar: hora do almoço, perto da hora de ir pra escola, coisa que eu detestava, perto da hora de mãe chegar, nesta hora eles estavam contra o sol procurando sombra, e assim iria seguindo o relógio galinace infantil até o sol dobrar a esquina da serra por detrás das matas num espetáculo sem igual, ai todos se recolhem, quem ensinou as galinhas e galos tudo o que eles sabem?

Já vi muito sujeito nota dez ficar exposto ao sol até esturricar pra pegar uma cor, bronzear, coisa que ele sabe que não lhe pertence e que ele perdera, acho que é porque tem que mostrar a marca do biquíni, coisa que pra quem tem pena é irrelevante. O maior prazer deles, que eu pude notar, é se catarem uns aos outros, diziam os adultos que catavam piolho, não sei dizer se era verdade porque gente grande adora fazer este exercício de tirar deles coisas que eles não curtem e colocar nos outros para justificar ignorância alheia, e assim subjugá-los sem culpa, velho hábito do tráfico civilizatório.

Eu achava que era carinho mesmo, mais tarde, muito mais tarde, quando eu tive filhos, tive que rejeitar a presença de aves em casa. E já notava uma cilada, agora a moda era dar pintinhos coloridos de presente em festas de aniversário, eu já avisava no convite: Venha pra festinha, mas não traga seu pinto cá pra dentro de casa, nem pintado de ouro! Pra tristeza das crianças, eu não disse que todo adulto é chato, me baseio em fatos reais.

Agora voltando a revisão, também tenho meus senãos, sei que a editora trabalha com pouco papel e espaços escassos, todavia eu gosto de ler, mas não gosto de páginas chapadas sem nenhum respiro. Assuntos que dão muitas voltas caçando suspenses desnecessários, palavras tão miúdas que quase não se pode ler de tão miúdas que são, à noite é preciso chegar um lumem pertinho delas para enxergá-las, economias que enfraquecem o conteúdo como esta sua opinião orçamentária reacionária como se minha história não tivesse importância, quem poderá, numa hora como esta, rever os passados todos comigo? Quem por aqui viveu atalibanamente se erga, me defenda o direito de entrar pra esta história, outra coisa, não deixe de deitar a arte das gravuras as páginas porque para além de justificar e enfeitar o passeio entre as letras.

Ler é bom, mas me dá uma preguiça tão gostosa, um sono tão prazeroso, valoriza a vagabundagem de quem lê, e depois de espichar, seja no tapete ou na rede, no ponto de ônibus do Cachoeira, por exemplo, pra esquecer que quase não tem transporte. Dá uma vontade de fazer do pote de biscoito travesseiro e cochilar, com tudo o que já leu garantido porque ler não é jamais como água de rio abaixo, se a história é boa ela fica na gente.

Gente como eu viaja pra dentro do livro, faz um alfarrabianismo só seu, uma epifania, e porque não uma odisseia em cada pequena estrofe de rua sem sentido, que ele correu atrás na época em que mais entendia do que era viver. Me diga quem de nóiz, na hora de agonia ou tristezas da vida adulta, quando se vê cansado da vida sem graça que o mundo tem, ao rever um álbum de fotografia, não dá de cara com memórias tão suas que até parecem palpáveis. Com cheiro de café, de roupa quarando, perfume da folha de rúcula sendo colhida, da sementinha do coentro sendo esmagada sobre o pescado, Do triste sorriso rosa pálido do Silvio Santos no domingo de tarde, das bandeirinhas, cada coisa a seu tempo. Agora mesmo fecho os olhos e vivo, lá está o cachorro Lulu, o cachorro Neguinho, este era o nome dele e os muitos Pios que viveram conosco e que mãe cozinhou e a gente comeu. O Pio está em nóiz!

Ainda quer que eu tire o cachorro de 50 anos? Ainda está aí?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL