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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Retalho de Retrato

Dona Jacira - Claudio Irenio
Dona Jacira Imagem: Claudio Irenio
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

05/09/2021 06h00

Era bom quando a festa era segura, tinha segurança até eu notar quem era o alvo ou o foco.

- Abra a bolsa de forma que eu veja no fundo. Se tiver câmera fotográfica, filme qualquer coisa semelhante a material de fotografar a gente vai apreender.

Olhando friamente, dando um enquadro, o que aconteceu, cadê aquele rapaz tão amável com quem tratamos a festa?

Estava no inferno ou na casa do caralho, quem bem ali, como eu negra mulher nos anos 80 e 90, fugiu das estatísticas do governo e ao invés de estar num manicômio, numa penitenciária ou morto? Estava numa festa da própria colheita de seu suor, sua formatura. E assim como eu, foi surpreendido por um capitão do mato revistando a gente no dia da nossa festa? Se formar já era um fato histórico, como se a gente ali estivesse pra roubar a nós mesmos. E cada pessoa que tinha levado sua pequena máquina de fotografar amadora pra registrar a passagem importante de sua vida, era saqueado, humilhado, agredido diante dos olhos dos demais, aqueles que foram à delegacia reclamar perderam toda festa.

E agora o que fazer? Aqueles que abaixaram a cabeça também perderam a festa diante de tanta indignação, principalmente ao saber que toda direção da escola era conivente e que aqueles capangas eram até familiares ou gente próxima deles. Quem poderia tirar foto de um evento e de que forma sorrir depois de tudo isso? Geralmente estes desfechos nunca eram ditos nas reuniões dos tratados, e de mais a mais muitos dos formandos nem cabiam no plano faraônico que trazia proposto viagem, jantares, homenagens, rodeadas de luxo. Já na negociação, mesmo tirando os três itens, eu nunca pude pagar, e a única vez que eu pude pagar a empresa sumiu, roubou nosso dinheiro e não fez o evento.

A maioria eram picaretas, num momento em que a fotografia estava em alta, ser fotógrafo tinha até um certo status, época que uma simples formatura de datilografia era festejada como um grande evento, é até engraçado lembrar, estávamos ali, e pronto, de repente surgia um louco, um mal-educado que sem pedir permissão lascava um clarão na cena da vida da gente que lhe interessasse. Igualzinho a polícia faz nos becos das nossas vilas com seu holofote, e agora quem nos salvaria dos fotógrafos?

Mas nem sempre foi assim, será que aquelas fotos de família penduradas a sala de algumas casas, tiradas num dia supostamente tranquilo que até deu tempo da matriarca se sentar se numa cadeira e trazer um neto ou bisneto ao colo e ao pé de si, será que aquela foto foi tirada assim de supetão? Ou ainda aquela reunião de antigos farofeiros nas praias, será? Enfim, um bom fotógrafo era visto como alguém arrogante que só mirava seu aparelho a seu bel prazer, ou alguém que invisibiliza alguém, e se brincasse e ele não fosse com sua cara, não gostasse de nossa indumentária, você ou eu não sairia na foto nem de um evento pago por você, eu vivi pra ver isso.

Era o grande boom da profissão, como eu comemorei quando chegaram os celulares com câmera, a gente poderia fotografar o que e quem bem entendesse e pronto. E hoje venho aqui dar a minha mão a palmatória e confessar que sinto saudade de ir a revelação das câmeras escuras e ansiosamente aguardar vir a película, e me reunir na sala pra rever o momento que ficou ali protegido, no futuro teríamos o que mostrar. Ah, se eu acreditasse que chegaria onde cheguei teria defendido o direito a ter fotos.

Imagens pra além da imaginação, mas eu não sabia, hoje em dia um recém-nascido nem tem o direito de nascer em paz devido a invasão na sala de parto. Sei que é por mera proteção pra evitar agressão em sala de parto, mesmo que alguns pais sejam capazes de tirar da sala um cirurgião pra acomodar ali um bom sistema de gravação. Eu nunca tinha dinheiro pra comprar a foto tirada a hora do nascimento, enquanto alguém me maltratava alguém tirava uma foto do meu rebento, mas nem sempre foi assim, só piorou depois que cresci.

- Chega o monóculo bem pertinho do oio, pra enxergar mió. Gostou?

Se não gostasse também não tinha outro jeito, mas era divertido olhar as fotos, uma a uma, e imaginar que naquele dia a gente estava deste ou daquele jeito. A gente tomava banho e se arrumava pra fotografar, punha roupa bonita e tudo, esfregava um dedo de Toque de Amor ou Patchouli atrás das orelhas, e fazia pose, naquele tempo dava tempo. Antigamente, bem lá atrás mesmo, uma coisa bem difícil de ver era um fotógrafo, nem era profissão. Às vezes, assim do nada, batia palma no portão e alguém dizia: "É ninguém não, é o home que tira foto". Era menos que o sardinheiro, seu dito do pescocinho ou o mascate, que estes três era só apontar na esquina e as mulheres que iam ao pé deles, com minino, cachorro e gato. Eu invejava os gatos com sua pouca educação, subiam a carroça do sardinheiro e pediam sem se importar, miavam irritantemente até o homem encher a mão de sardinha e jogar longe, eles comiam e voltavam. Era igualzinho quando a gente ia numa festa sem a mãe que exigia decoro, na hora do bolo tinha gente que ficava sem comer, e outros que se comportavam como os gatos, e de nenhum deles se tirava foto. No futuro a retina vai fotografar.

Estou escrevendo enquanto minha netinha tira fotos com celular, aqui tem foco, ali tem luz, o sol está melhor deste lado. Mira, mira, mira e mira, faz pose, da ordem:

"Gabriel faz logo uma pose decorada ou não". Já as outras netas entram num aplicativo e simulam como estarão daqui a uns anos, quem diria que eu iria viver pra ver este progresso, tinha que ter dinheiro pra tirar foto quando eu era criança, era até uma temeridade falar neste assunto com mãe, ela nunca tinha dinheiro.

Ô Mulher que nunca tinha um qualquer pra dar ao homem do lambe-lambe pra gente se deixar fotografar, mas também, se a gente não visse o homem da foto a gente nem ligava. A gente queria mesmo era o motivo da farra, e nem acho que mãe nem gostasse de foto, era outra birra qualquer. Nos guardados dois retratos, um era com rosto de nóiz cinco, acho que ela olhava quando tinha saudade, e uma foto de um homem negro bonito, era pai. Um dia ela mandou converter num quadro e pendurou na parede, pra que ela fizesse isso. O paidrasto garrou cisma com ciúmes da foto de pai na parede. "A casa já tem um macho!", a foto o assombrava. Na verdade, o paidrasto era indígena, ele achava que a alma de pai foi roubada dele ainda vivo, ele temia que o retrato um dia se convertesse no próprio pai liberto da maldição. Cabô que mãe despendurou o quadro, deitou pai no armário de novo.

Antigamente a gente quase nem fotografava, nem lembrava, pelo menos aqui pelas nossas bandas era assim. Ia tirar a primeira foto sério quando era pra documento, nem era profissão mesmo. Algumas pessoas passavam na rua e tiravam retrato dos burguelinho sem compromisso, assim de migué né, depois trazia o retrato, se a mãe gostasse e tivesse dinheiro, dava negócio. Fecho o olho e imagino, é o mesmo que tá vendo, passava uns dias e a pessoa voltava com um quadro imenso todo trabalhado com a imagem do rebento dentro. Qual mãe tinha coragem de recusar a obra de arte com o fim dela na mostra? A minha. Fazer o homem rodar nos calcanhares sabendo que, pra ele, aquela foto com a cara da gente valia nada, para ele era um menino qualquer, um qualquer sem vintém. Numa época em que até o sabonete tinha o nome de Vale o Quanto Pesa, a minha tinha coragem. Bem medido e bem pesado a recusa do retrato era entendida nunca como menos dinheiro, afinal mãe era rica, tinha dinheiro no colchão, era entendida como por que eu não? Por que ela não gosta de mim? O racismo tramou bem esta estrutura com o capitalismo, fazendo com que com a falta de grana um filho nunca se engane e ame cada vez mais sua pátria e queira uma certa distância daquela senhora sem vintém, sem afeto. Em muitos casos, os filhos ao crescerem, venderam-lhe teto ainda com ela viva dentro. Esta rusga deu início lá na fotografia, acredita?

Na ausência de dinheiro o ódio às matriarcas era fato, alguém teria que pagar o pato.

Caminhamos no sentido de corrigir estes erros do passado, perdoar nossos ancestrais, pois se hoje tá osso, imagina há tempos atrás. Mas ódio de criança nem existe, e se existir, logo passa com uma colherada de arroz doce, uma gamela de bolo pra lamber pelas beiradas, a não ser que o coração seja lá muito duro, o que também tem cura. O homem do carneirinho passava com vários com o pelo pintado de toda cor, era lindo, quanto de tinta ele imprimia em investimento? Quantas canetinhas Neo Pen ele usava em cada um? Fora o milho, o capim, a dormida que ninguém vévi só de beleza. Os mininos maus, como eu, diziam que o homem do carneirinho, na falta de grana, comia os carneirinhos, lambia os ossinhos, e que eles eram muito gostosos.

O homem do carneirinho trazia sempre o cabelo bem alisado, coisa que naquele tempo só as mulheres traziam, acho que era afinidade ou vontade de tirar foto. Era um homem negro que tinha um ofício que nem era furar poço, carpir terreno, vender sorvete, algodão doce. Não, ele era das alegrias, era fotógrafo. Os danadinhos cansavam de berrar na rua: "Fooooto mariiiia, fooootoo mariiiia". Mas ela nada, por ela, eles podiam até desbotar e perder a cor, se dependesse da cor do dinheiro dela, preferia mais tijolo, igual aquele irmão dos três porquinhos. Quando os carneiros chegavam, a criançada vinha com suas mães, criança sem mãe nada feito, tinha criança que fazia birra pra mãe comprar. Mãe não suportava birra, nem a gente era besta de testar ela. Tinha gente que já esperava, escolhia se a pose e pronto, dava-se o clique, passava uns dias e lá vinha o moço com a revelação. Só nunca podia chover, cada bichinho daquele feito de algodão doce corria o risco de derreter, um dia eu quereria tirar uma foto daquela, quando mãe pudesse pagar, ou esta coisa ou outra.

A que veio primeiro foi quando minha irmã mais velha, que a gente chama carinhosamente de Ninha, começou passear pela Estação da Luz, mãe não permitia que ela fosse só, nem mãe nem a língua do povo, então, como eu já disse a vocês nuns escritos meus ai pra trás, quem guardava a honra da família era eu. Era eu que acompanhava minhas irmãs a lugares onde elas não poderiam ir só, e mediante colaboração em dinheiro delas, eu fazia vistas grossas pra algum malfeito, já que mãe nunca me dava um qualquer para as despesas, por este trabalho eu não trazia toda informação, só a pontinha do iceberg. Foi nesta época que fui agraciada com fotos de corpo inteiro, na Estação da Luz tinha um homem que ficava com a máquina lambe-lambe. Ajeitava a gente, punha ali ereta do lado de uma árvore, uma fonte, pedia pra gente não se mexer, voltava lá, enfiava a cabeça na caixa preta e pronto, saia da caixa e mandava esperar. A gente ia dar umas voltas pelo parque comia, talvez uma pipoca, e quando voltava pagava pelo retrato. Como pode aquele homem ter desenhado a gente em tão pouco tempo?

Às vezes minha irmã fazia uma produção, sabe? Um chapéu, um vestido, um sapato, compunha, sabe? É bem verdade que pelo caminho ela rebanhava, encontrávamos outras amigas e amigos dela, mas isso era segredo, mãe podia nem sonhar com um desmantelo deste. Minha irmã me enchia de segredos dela, feito um cofrinho. Nunca mais eu vi estas fotos, eu estava nelas, mas não me pertencem porque não fui eu que investiu, era regra. Não sei dizer do que eu gostava mais, se era do parque ou da viagem de ônibus, naquela época nem existia metrô, e o ônibus ia da vila até a porta do Parque da Luz e depois seguia pra São Bento. Quando a gente ia até São Bento, comíamos um lanche de carne com pão. De volta pra nossa rua, de frente pra nossa casa, atravessando a ponte, morava uma família, ainda mora, mãe não gostava muito, um chefe da casa era chofer de táxi, um deles, o outro era pedreiro, eram nordestinos, naquele tempo eu nem imaginava o que era ser nordestino.

Aos domingos, aquelas duas famílias recebiam muitas visitas desde cedo, era só chegando gente, com roupa da moda, boca de sino e tamanco, da missa ou passeio. Iam chegando e ficando por ali falando, sorrindo, cantando, vivendo, eram todos muito parecidos, a cara deles mesmo, era um enxame de gente. Lá pelas tantas, chegava um senhor com uma máquina de tirar fotografia, um lambe-lambe, igualzinho aquela do homem da Estação da Luz, montava a parafernália e pronto, uma a uma ia colocando as pessoas, as crianças em frente da caixinha e registrando. Já de tardezinha, depois da macarronada com frango e maionese, o grupo se dividia e se espalhava. Os mais jovens tiravam ali um time pra jogar queimada ou taco, de sorte que eram famílias imensas e sobrava gente pra reserva, pra gandula.

A gente, naquele tempo, não se misturava, mãe não gostava de misturança. A gente, depois da feira, quando não saía a passeio, que era sempre pra Francisco Morato, pense num lugar longe, íamos a casa de Dona Dora ver Silvio Santos na televisão, que só tinha na casa dela. A gente evitava amizades com o pessoal do outro lado da margem, aos domingos pra não chatear mãe, também porque naquela época muitos ali já estavam se pentecostalizando, e não era mais só a Nossa Senhora do Carmo que padronizava aquele território, quem é mesmo esta senhora a quem devotei minha infância? Eu pedia a ela que me ajudasse a colorir o mundo, eu só precisava de dois milagres, uma caixa de Neo Pen e uma foto, nunca me atendeu nem levou em consideração o tanto de vela e orações que dediquei a ela, ingrata, mufina.

Havia já outros guardiões de almas por ali pleiteando espaço, a concorrência. Dona Maria Preta nem se abalava, seu público lhe era fiel, e à socapa na hora de um desespero, um problema sem solução, uma criança de barriga grande de verminose, uma coisa grave não tinha este ou aquele que não deixasse pra lá seu senão e fosse lhe bater a porta, que sempre esteve aberta. O que hoje me traz aqui, falando dos meus vizinhos e suas visitas é que já naquele tempo foto pra eles era diversão. Mãe disse muitas vezes que era besteira, mas depois o tempo amoleceu ela e aquele homem da máquina de fotografia de lambe-lambe atravessou a ponte, veio ter conosco.

A gente fazia diferente, tomava banho, vestia roupa nova, cê acredita? As fotos vinham em pequenos monóculos, a gente precisava chegar bem perto do olho pra ver na lupinha, era muito divertido rever as fotos. Mais tarde alguém em casa comprou uma máquina fotográfica, era uma romaria de comprar os rolos de filme de doze poses e aprender na prática a arte de fotografar com flash ou sem, era uma ansiedade esperar o dia do pagamento pra levar o filme para revelar, nada ou muito pouco se sabia sobre foco, flash, luz e sombra, era na sorte.

Tinha umas revistas em quadrinho que oferecia um exemplar de máquina de fotografar descartável de nome Love, aí eu já era casada e se tenho algumas fotos das crianças é graças a ela. Eu pedia um exemplar pelo correio, pagava nem lembro se era caro ou barato, fotografava a criançada, enviava pelo correio e esperava, sem se saber lá pra onde ia. Um dia, meses depois, ela voltava com as imagens, já tinham até crescido. Fotografar era um ato tão distante de nossas possibilidades, era luxo ter a seu dispor máquina e fotógrafo, um sonho, e era tão importante que meu marido dava foto das nossas crianças de presente sem eu saber, lembro que de véspera não se contratava um, era tudo no contrato, pagando o evento meses antes de chegar a data. Olha a guinada que o tempo deu, era o tempo que ferida se curava com Mertiolate, mercúrio ou mezinhas, as mães alvejavam roupas com anil e jogavam água com sabão no terreiro pra firmar a terra. Quando ia chover a gente via o aviso dela vindo lá por detrás da serra, a chuva caia no chão e era um cheiro bom demais. A gente lambia as gamelas onde batiam o bolo com a ponta dos dedos, não deixava um chinelo virado nem a pau. O tempo passado é como a chuva, mesmo quando ela para ela continua existindo na gente. Feche as janelas da sua alma e imagine.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL