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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em defesa da comida

Em defesa da comida - Victor Balde
Em defesa da comida Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

06/06/2021 06h00

- Santa Maria passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim, ela diz que não, ele
diz que sim! Ficou boa?
Ao ler este versinho, que pode ser chamado de vários nomes, talvez me pergunte:
- Tinha isso no seu tempo?
Não, mas em casa já tinha televisão, assisti esta cena engraçada numa novela com
artistas brancas, fingindo sotaque nordestino num tempo em que o nordeste ainda
expulsava toda sua gente nortista para terras do sul.
Aqui mesmo no Ataliba, chegavam famílias inteiras despejadas do Nordeste.
As vezes primeiro chegava pai ou mãe ou irmão mais velho, aí quando se arranjavam
vinham trazendo a parentagem toda.
Foi assim com Dulce, Dona Antonia e muita gente mais, teve também gente que só veio
pra estudar ou trabalhar e mandar dinheiro.
E os mais infelizes que vieram pra virar gente, mas na verdade viravam escravos.
E todos nóiz tivemos esta música como única tradição, pra matar a sodade.
E todos, ou quase todos, trocamos a batata doce, o inhame e o ovo de gema amarelinha
pelo filão de pão, era o que tinha na novela e nos bares da região, não que tivesse sido
ruim, era comida também.
Mas tirou da gente a sanha de cavocar a terra perseguindo uma rama de planta que dava
batata.
Nem nunca mais comer com as mãos, o capitão, aquele bolinho de feijão, e farinha que a
bisa fazia.
Aquele português de cara mau encarada que passava vendendo leite de vaca de carroça,
nem existia mais.
Mãe não lavava nem passava mais pra fora, agora era ela que se ausentava, foi ela
trabalhar pra fora.
Restava pra nóiz, agora vez ou outra, a visita da bisa e na minha memória o bom e velho
som saudoso da voz de Seu Luiz cantando no rádio.
- Dernade 1912!
O que será que Seu Luiz queria dizer com esta data?
Raquel de Queiroz escreveu em O Quinze, Graciliano Ramos escreveu em Vidas Secas e
Amadou Hampaté Bah em O Menino Fula, sobre canto, comida, fome, antigas tradições e
fala sobre a guerra de 1914.
Eu canto e rezo a ladainha do que eu como e passo no corpo que é tudo o que Deus
permite.
E o meu movimento revivalista pelo direito de comer direito em respeito a comida.
De sorte que eu, já com academia feita como vocês mesmo, já sabem, os que não sabem
passarão saber.
Eu, expulsa da academia, me formei em desenvolvimento humano e entomologista por
minha conta, pela escola do mundo.
Agora no isolamento social pude encontrar na rede, não aquela rede nordestina, a rede
está cheia de difamação e bom propósito, que se a gente permitir também escraviza e
adoece.

Eu encontrei nela Aza Njeri, Katiúscia Ribeiro, Tiganá Santana, filósofos que entraram
numas academias aí e libertaram muito saber de lá de dentro.
Ai eu me declarei formada, eis minha formação.
Aqui vai um pouco de sabedoria compartilhada
Enquanto se quentava água pra lavá os pé
Em volta da fogueira só tinha muié,
A gente ia no mato pra buscá lenha
Eu, Luzanira de Seu Capela, Dulce e Maria da Penha
A bisa soprava no fogo p'rele aumentá
Sentava ali na pedra e se punha a falá
Parecia que o mundo inteiro estava na boca dela
E em volta da fogueira ela dizia tanto
Que a gente nunca cansava de escutá
E chegava duvidar que alguém vivia tanto pra podê contá.
E mãe dizia sempre para todos nóis
Se cale deixe sua vó falá.
Vamo ouví o som de sua voz.
E dava um frio na barriga bem devagarinho
E nem um de nóiz ficava ali sozinho
Enquanto se quentava água pra lavá os pé
Em volta daquele fogo tinha gente que chegava só pra proseá
O quintal era pequeno mas o coração era imenso
E toda segunda, quarta e sexta mãe queimava incenso
Acendia vela pra Virgem Maria
E pra rezar o terço a gente se encolhia
Depois do terço, trezena o que tinha que ser
Alguém passava as regras de o que e como iria fazê
O que tinha que ser feito
Depois disto tinha comida
Se entendeu? vai veno.
Enquanto se quentava água pra lavá os pé
Em volta daquele fogo ia chegando gente
Tinha home, minino, minina, cachorro, gato e muié
A bisa botava tira de toucinho salgado pra fumaça
Carne, peixe, e o que tivesse, que ta lá.
Ainda naquela época num tinha geladeira
Os homi do outro lado do mundo ainda ia inventá
Mas pra nossa veinha aquilo era besteira.
Pois toda sua vida ela vivia sem
Porque no tempo dela o povo matava um animal pra comê e dividir
Não era pra guardá.
E a gente devia ter aprendido a viver sem também
Mas ser capitalizado era nosso sonho
A gente nem pensava como o futuro seria bem mais medonho.
Enquanto se quentava água pra lavá os pé
Alguém ali cuidava do di cumê

A gente sempre assava uma batata doce
E ia beliscando enquanto a prosa corria
Depois que a bisa encerrava a contação lá dela
Agora todo mundo tinha o que contá
Os otro abria os ovido pra escutá
Até a bisa se calava pra escutá
Dizia que na vida tinha que aprendê
Tem hora de calá tem hora de dizê
Enquanto se quentava água pra lavá os pé
Enquanto as labareda ia guardando fogo
E até a madeira chorava de emoção
A gente ali encolhido no pé da fogueira
Sonhava em ter na sala uma televisão
Enquanto ainda não tinha, o que se podia fazê
A gente ia soprando fogo pra noite rendê
E quanta veiz nóiz cantava música bonita
E cantava muita veiz a aquela da saia rendada
Música que o povo do norte cantava
Enquanto ali no fogo as braza pipocava
E dava logo a hora o ponteiro corria
E o fogo ia acabando, a noite ficando fria
Agora era a hora do papo reto
Pra ficar bem quentinho tinha que chegar mais perto
A gente ali ficava agora sem falá
Eu ouvia bem ali perto o sapo coachá
E aquele foi não, foi ficava solto no ar
E só os vagalume sabia onde era que estava
os grande ia saindo tomando seu rumo
E nóiz ali sabia ia chegando a hora
E a gente ia saindo sem se lamentá
Enquanto eu entrava na água pra lavá os pé
Eu era caçula e já pegava água lavada de outros pé
Eu reclamava que agora a água tava fria
Então porque buscava lenha pra água quentá
Eu secava os pé pra não sujá o lençol limpo
Mas do cheiro da fumaça não podia escapá
E deitado ali debaixo das coberta
Ali é que a fantasia me pegava
E as sombras ali no escuro falava comigo
Eu me assustava e cobria a cabeça pra num escutá
Corria logo pra cama de minha mãe
Que tentava me convencê que não tinha perigo
E se eu insistisse ela brigava comigo
E eu até dormia mas elas me acordava
Entrava no meu sonho me cutucava
Queria ter comigo, queria conversá
E só iam embora quando amanhecia

E sempre tinha uma voz que me dizia
Que o que eu tava ouvindo eu tinha que guardar
Que um dia eu ia crescê e ia escrevê e contá
O cheiro do café de mãe mandava as sombra tudinho embora
Cada fantasia tinha seu lugar
Aí eu cresci, a bisa se encantou, o capital apagou o fogo
E de contar histórias eu quase que esqueci
Depois de ouvir tantas ali na fogueira, nas festança
Ensolarando meu ndotolo de criança
Tornar minha infância tão colorida
Eu colhi o dom dela, quem herdou as falas da bisa pra além do tempo também fui eu.
Que ainda estava na aurora do viver.
O sol raiava, o rádio falava
O galo gritava:
- Ai socorro!
O outro galo lá no outro puleiro respondia:
- O que é que tu tem Osório?
- Tem nada não cumpade.
- E suas senhoras como tão, já tão de pé?
- Todinhas, das mais véia as mais novinha.
- Não repare que eu lhe pergunte, é de sua conta?
E assim ia a arrelia deles, até mãe sapecá a mão farta de milho no terrero.
Ah! como a comida faz calar a matraca até dos galo que se acha.
Há pessoas na vida da gente que são progenitoras de gerações e idéias
Sempre vão florescendo dentro da gente e nunca partem de vez.
E pra cada, uma deixa uma herança potencializada, assim foi minha bisa.
Eu só existo porque alguém gerou ela, ela gerou a filha dela, que gerou minha mãe, que
me gerou, isso é ancestralidade e todo mundo tem.
Suas palavras são ditas hoje pra ser relembrada daqui a muitos séculos.
A bisa dizia que a festa de São João era pra firmar acordo, selar a palavra.
- Fulano, quer ser meu cumpadi?
- Minha amada, você quer casar comigo?
- Quer ser padim de meu premero fí?
- Vamo sê amigo?
Então vamo acender a fogueira de São João, pular a fogueira e passar na brasa pra selar
o acordo, pra São João abençoá
- Sê tá feito, feito está.
O fogo transcende, aquece a alma, dá rumo aos ventos, e perto do fogo é onde a gente
gosta de estar.
E desta forma, e já há muito tempo, que quem faz pano faz história.
E pega o fio, trata, lava, seca, carda, tinge e estica, estende o fio da memória.
Coisa que dá urdume, e trama, e cala, tem que saber pra contá.
Segredos de uma vida inteira, coisa séria, coisa de sonho, besteira.
Tecer também é transcender, é ser natural, é alimentá.
Passar no fio da cala, a madeira nobre que vai de mão em mão do rico e do pobre.
Tecer, afastá e ajuntá, cria alma nova entre o bem e o mal .
- Cumadi sabe que o fio inventou o fiado?

- Antigamente já tinha gente que tinha muito,e gente que tinha pouco, com fio também
era assim, sabê? Aí quando era pra trocar, seja semente, comida, roupa, ferramenta,
tinha gente que pagava com meadas de fio fiado.
O fio era como dinheiro, por isso que hoje em dia quem vende pra pagar depois se
chama fiado.
Porque vai pagar com fio fiado que ainda fiara.
Só sei que era assim que se contava.
Era formidável, ficando fiado ficava freguês.
Em dia de sábado, antes ou depois da groselha e do pão com ovo, sempre tinha muita
história.
Mas desta vez a história foi contada só pra mim.
Como dizia eu, num sábado destes
Quando a noite ameaçava a tarde, e o sol adentrava as janelas e procurava as copas das
árvores mais altas pra descansar.
Nóiz, quando digo nóiz, entende-se os minino dela, que eram dois cachorros, ela e eu.
Deitados ali no chão da sala da casa dela, ressonamos esperando o sol escondê e a noite
chegá.
Foi então que a tarde trouxe dos lábios dela um alento.
Ela lia, eu ouvia, hora cochilava, dormia, de repente despertava, tomava tento, tornava a
dormir.
Ela como alguém que domina o leme tocava a embarcação.
O silêncio tomava conta da sala e de partes dela.
A gente pausava pra limpar a baba e tornava cochilá.
A fala dela se impregnava em mim.
Quando finalmente o sono passou, acordei de verdade.
Pensei comigo, como a gente sai pra visitar uma pessoa e dorme?
E mesmo comigo dormindo, ela leu a carta até o fim, achei que não notou que eu dormia,
será?
Acordei outra pessoa, algo que eu buscava chegou ali naquela leitura.
Tomei rumo de casa e tornei dormir e mais nada.
Quantos fantasmas morreram ali, naquela sala, naquela tarde.
Quantos fantasmas nasceram ali, naquela sala, naquela tarde, depois daquela leitura,
daquela voz de candura.
Levei muitos dias pra descobrir o efeito.
E olha que era uma carta política, um pedido de demissão, como pode?
Foi a primeira vez que lembro que alguém parou e leu só pra mim, só pra mim.
Eu descobri ali uma irmã mais velha e nova que fez de mim uma irmã caçula, e eu me
sentindo protegida, foi assim.
Até aqui eu me alimentava e alimentava alguém, e este caminho nunca cessa, a todo
momento um ancestral alimenta, depois parte e deixa saudade.
Quem fica segue acendendo sol, não é assim que tanto diz minha amiga filósofa Aza
Njeri. Minha vida é uma cabala que só acrescenta, nunca míngua, é luz que nunca finda,
basta olhar para os filhos que tenho pelos caminhos que venho.
Se lá atrás a fumaça da bisa era um tanto escura, pois faltava ali o entendimento.
A mão do tempo, a lanterna, a luz acesa, as cartas e a comida farta posta sobre a mesa.
Um dia eu vivi, me alimentei de tudo isso.
Noutro experimentei o mundo, apanhei, chorei, cai, aprendi sim, ora se não aprendi.

Agora era então hora de me doar, e pra isto, quem se pôs a frente de mim foi o amor, um
amor que eu nem queria e nem procurava, nem buscava e ele chegou.
Olha aí o amor outra vez de novo.
E como eu não tive escolha, tive que vivê-lo e o fiz da melhor maneira, escrevendo.
E foi assim que eu me peguei ensinando um marmanjo a fritar um ovo.
Me acompanhem:
Sigo pelo mundo entoando todos os cantos até encontrar com os meus.
Eu seria tola se começasse por ordenar:
- Coma isso ou aquilo pra alguém tão livre, tão carregado de vontade.
Mas posso dizer que ao pensar em comer, o primeiro pensamento tem que ser:
- O que preciso comprar?
- Pra café, almoço, lanche ou jantar, onde?
- Feira, mercado, quitanda, birosca, na tiazinha da esquina ou shopping?
- Em que horário farei, de noite, de manhã, de tarde?
Aviso de antemão que dependendo do seu perfil, não é um bom programa, tampouco
divertido.
Hoje as pessoas comem sozinhas, até eu sabe? Nunca pensei num tempo assim.
Mas mesmo estando só, eu e meus fantasmas, eu como na mesa, cama é lugar de comer
não.
Pra isso, e por isso, é uma tarefa pra quem a reconhece como importante, necessária.
Importante pensar, o que eu gosto, o que conheço, o que eu quero pra mim e qual
mundo novo eu espero?
Antigamente a gente comia porque tinha fome, agora come-se pra ter saúde, ser bonito,
inteligente, amado, antes a gente compreendia que já tinha tudo isso, mas fomos
perdendo caminho afora, agora estamos tentando juntar.
Vale muito checar coisas de família, casa de vó, álbum de família, casa de mãe.
É lógico que, enquanto pesquisa, se pode pensar em simples pão com manteiga, leite
com alguma coisa ou chá.
Porém, se pensar ovo frito no pão, coisa que adoro, vai aqui uma ideia minha bem legal
Pra isso, é preciso comprar ovos de qualidade, pode ser num lugar de sua confiança ou
na feira convencional ou orgânica, ou onde achar melhor, vou escurecer pra você.
Lembre-se, tudo o que vou dizer só tem importância se você tiver interesse.
Vamos a receita:
Nunca quebre um ovo direto na frigideira, você sabe o que é frigideira, suponho .
Quebre num recipiente à parte.
Eu gosto de ovo com azeite e um dedinho de manteiga boa, manteiga não é margarina.
Coisas que talvez você goste, se não gosta, não tem razão pra ter, se dê este direito.
Vamos aos ingredientes:
Cebola, ovos, óleo, manteiga boa, frigideira, espátula e prato.
Aqueça a frigideira, deite nela um tanto de azeite e manteiga, esta mistura é importante
pra não queimar, deite os ovos.
Existe um arsenal de maneiras de se comer ovos, várias mesmo, a primeira que direi:
Ovos de gema mole.
Não há algo mais delicioso do que comer um ovo com a gema bem amarelinha, sentir o
sabor dela dentro de um pão crocante ou simplesmente absorvê-la com uma colher.
Deixar que ela escorregue sobre uma montanha de arroz branco fresquinho, ou ainda
num caldo de feijão, se você nunca experimentou, não diga nada, muito menos que não
gosta, experimente primeiro.

Evandro, meu filho, gosta de ovo de gema molinha até com lasanha.
Pra fazer um ovo de gema mole manuseie ele com delicadeza, com decoro e respeito,
senão a gema estoura.
Desde o início, lide com ele como se ele fosse um dia de ano novo novinho que você não
quer estragar.
Pra conservar a gema intacta e ficar bem bom, você vai ter que perder algumas gemas
até pegar prática e ficar bom nesse quesito.
A gema precisa de carinho, pra que ela só se renda a você no momento que você quiser a
sua primeira mordida.
Ah! Cuidado com a roupa, caso esteja de roupa nova ou pronto pra sair, neste caso use
babador.
Eu sempre precisei usar, mãe me mantinha embalada na hora de comer caso me
quisesse limpa.
Ah! Tem um rito pra ovo mole que você precisa seguir, mas antes siga o alheio, antes de
encontrar o seu.
Ao deitar carinhosamente o ovo sobre o óleo, vá dando a ele pequenos respiros de
banho com uma colher, ele irá passar de transparente para branco sozinho, a clara.
Mas Dona Jacira eu quero mexido.
Aí então é bem mais fácil, tipo uma bagunça sem ser bagunça, organizada no bom
sentido.
Deite o ovo na frigideira e mexa, misture tudinho, se tiver salsa e cebolinha deite no
finalzin, depois de apagar o fogo.
Tempero cozido tem um gosto, tempero morno tem outro, encontre o seu, é assim que a
gente descobre que ser livre é uma prisão.
Há uma forma de fazer um ovo sem óleo também, geralmente pessoas que precisam
comer assim por restrição.
Você vai precisar de frigideira, água, e uma gota de vinagre.
Neste caso, deite o ovo na água, com ela já aquecida, com cuidado se não o ovo se
espalha, ovo é sensível por qualquer razão, ele rompe o relacionamento com você e se
espalha e aí pra juntar não é sopa.
Ele vai cozinhar devagarinho bem ali, debaixo de seus olhos, vai ficar bom e delicado.
Apesar de eu botar aqui o ovo em evidência, em primeiro lugar, ele deve ser o último a
ser preparado pra não esfriar.
Fica assim, combinado, é muito mais saboroso.
Agora passemos para uns conselhos meus.
Nunca aproveite ofertas de ovo como forma de estocá-los, ovo é frágil e estraga fácil, ele
góra, estraga mesmo.
Outra coisa, posto de gasolina nunca foi lugar de comprar comida, compre la só
combustível ou alguma besteira, comida não.
Também não faça estoque como se o mundo fosse acabar, compre uma dúzia ou meia.
Olha, eu prefiro comprar ovos em lugares de confiança, o lugar onde eu compro ovos,
caso venha algum gorado, a dona da avícola troca, ela me ressarci, mas isto é uma
relação antiga pautada na confiança.
Tem gente que tempera ovo com muitos temperos, vai de acordo com o gosto, não meta
o bedelho nos ovos alheios.
Quando quiser experimentar, prove também ovo quente na casca dele.

Ferva um tanto de água e mergulhe um ovo inteiro com cuidado, deixe de três a cinco
minutos, aí quebra a casquinha com cuidado, bote sal e coma.
Acho que eu não preciso dizer mas direi, antes de fazer o ovo de uma lavada nele, é
sempre bom.
Eu já ia encerrando e lembrei do omelete e do quiche também, se faz com ovos.
Podem ser acompanhados com saladas, tomate, torrada ou...
Pra um omelete, mexa dois ovos, bote temperos como quiser, deite numa frigideira e
pronto, tá pronto.
Agora, caso você seja enjoado ou queira se aparecer, fazer presença, pode rechear com
presunto, legumes ou verduras, fique a vontade.
Mas aí precisa de mais disposição, tá a fim?
Então vamos lá.
Com os ovos no ponto de omelete com recheio, rale uma abobrinha ou chuchu, ou
cenoura e brócolis, misture tudo, bote uma colher de fermento, uma colher de farinha
de trigo.
Aqui você pode fritar ou assar, fique a vontade.
Falei tanto da frigideira, mas olha, se você gostar de ovo como eu, faça uma surpresa pra
você, se dê de presente uma omeleteira, é um casamento para o resto da vida, as partes
realmente se completam.
E vai ter quem diga: Cuidado com ovo!
Mas eu te digo que o ovo já foi considerado o vilão, foi perseguido, julgado, enquadrado
nos códigos nutricionais e nas casas de boa família.
Hoje, ele provou a grande falácia que caiu sobre ele e foi absolvido, ele provou que nem
era só ele, era a farinha branca, o excesso de açúcar, o sal, o estresse, a vida moderna,
essa bosta chamada solidão.
Prenderam o glúten no lugar dele, nossa sociedade sempre precisa julgar alguém.
Mas um conselho eu lhe dou, nunca exagere em nada.
Só abuse mesmo desse sorriso lindo que você tem e desse abraço quente, e tome
cuidado com o sal, conselho de Dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia, o sal é o dom.
E quando puder, conte uma história real, cozinhe pra você, pelo menos a comida
humaniza e perto do fogo é sim um ótimo lugar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL