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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A luta contra o câncer em nossa família e a importância do autocuidado

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Imagem: iStock
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

04/07/2022 09h23

Hoje quero falar especialmente com as mulheres que me leem. Na última quinta-feira, Dona Marinete, minha mãe e de Marielle, passou por uma cirurgia para retirada de parte de um câncer de mama. Na sexta-feira tornei pública essa situação, que nos últimos meses esteve restrita a nossa família. Ter alguém que tanto amamos com um diagnóstico de câncer de mama é algo que atravessa nossa alma. Ainda que hoje tenhamos tratamento e, felizmente, em nossa família, possamos mobilizar pessoas e garantir recursos necessários para que minha mãe se cuide adequadamente, a sensação de medo de perder não me abandona.

Minha mãe sempre diz que Deus só dá aquilo para quem pode carregar, e por mais que eu concorde e repita isso incessantemente, porque assim também consigo me consolar diante de tudo que aconteceu comigo e minha família desde o assassinato de minha irmã, a verdade é que saber que "conseguimos carregar" essa e tantas outras dores, inclusive agora, a dor de um câncer em minha mãe, não torna as coisas mais leves.

Por isso mesmo quero usar esse espaço, para que de forma muito simples eu possa fazer um apelo a todas as mulheres que me leem: cuidem-se. E para falar sobre cuidado e em especial com o cuidado com nossa saúde física, resgatei um texto que escrevi para minha coluna em 2020, pouco antes do "outubro rosa" falando de câncer de mama. Naquela época, eu nem sonhava em estar vivendo um caso em minha própria família, quem dirá com minha mãe, mas alguns pontos daquele texto foram importantes para refletir sobre o cotidiano da luta contra o câncer de mama, e a necessidade de uma periodicidade com os cuidados, de forma que não fique restrita a um único mês do ano.

Naquele ano, escrevi que é necessária uma convocação para repensarmos e priorizarmos o cuidado com nós mesmas, fora de um ideal e a partir de uma realidade possível. Pensar no nosso cuidado, é também garantir o bem-estar das pessoas ao nosso redor. Olhar para si deve estar além de um privilégio ou de uma obrigação de saúde que nos lembram a cada 12 meses. Sigo com essa mesma perspectiva por aqui, e talvez hoje, mais que nunca.

Ainda sobre posicionamentos do passado que hoje se atualizam, no último ano, quando participei do programa Roda Viva, ao ser perguntada sobre o que fazia para me cuidar e abstrair, citei meus momentos com o esporte e dedicados exclusivamente a minha família, hoje, qualificaria esses momentos comigo mesma aos momentos em que escolho me cuidar, cuidar da minha saúde, não abrir mão do meu sono e descanso, e que escolho olhar para mim mesma de forma mais atenciosa.

Atenção: Por geralmente detectar a doença apenas em estágios avançados, o autoexame das mamas não é mais uma estratégia preconizada para a prevenção e rastreamento precoce do câncer de mama. Apesar de ser importante nos percebemos e nos tocarmos, desde 2018 o Ministério da Saúde adota como estratégia de rastreamento o exame de mamografia a cada dois anos em mulheres de 50 a 69 anos e a consulta ginecológica anual para mulheres de todas as idades, além, é claro, de termos atenção aos sinais de nosso corpo. Consulte sempre sua médica ginecologista ou médica de família e comunidade, e se informe em fontes seguras.