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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Francia Márquez e a violência política de gênero e raça na América Latina

Francia Márquez e Anielle Franco, na Colômbia - Arquivo pessoal
Francia Márquez e Anielle Franco, na Colômbia Imagem: Arquivo pessoal
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

11/04/2022 06h00

No mês passado, eu e mais algumas representantes do Instituto Marielle Franco, Mulheres Negras Decidem e outras organizações negras, tivemos a oportunidade de conhecer de perto a campanha de Francia Márquez na Colômbia.

Francia Márquez-Mina é a primeira candidata mulher negra à presidência da história da Colômbia a disputar as primárias — eleições prévias que acontecem dentro do próprio partido para saber quem será o candidato no período eleitoral — e agora está com grandes chances de se tornar a próxima vice-presidenta pela coalizão de esquerda Pacto Histórico. Com uma votação de mais de 700 mil votos nas primárias, ela ultrapassou políticos tradicionais, como Sergio Fajardo, que já foi três vezes candidato à presidência. Com essa votação expressiva, cumpriu-se o acordo feito com o seu partido para as eleições presidenciais e ela se tornou candidata à vice-presidência com Gustavo Petro, que é o candidato que está na frente nas pesquisas.

Militante pelo meio ambiente, contra o racismo ambiental e feminista antirracista, Francia nasceu na região de Cauca, no oeste da Colômbia, e começou a ser conhecida ao denunciar a mineração ilegal do ouro, que afeta o ecossistema do rio Ovejas e mais de 250 mil pessoas. Em 2018, Francia convocou 80 mulheres da sua região a caminharem por 10 dias cerca de 350km até Bogotá, para fazer com que as autoridades ouvissem as demandas do movimento. Devido a esse ato, ela ganhou o Prêmio Ambiental Goldman 2018, conhecido como Nobel Ambiental.

Infelizmente, hoje, a atual candidata à vice-presidência da chapa da esquerda está sofrendo difamações e ameaças, configurando mais um caso de violência política de gênero e raça. Ela já recebeu ofensas racistas, calúnias e ameaças de morte. Esse é mais um caso de violência política de gênero e raça. E não é à toa. Apesar de revoltante, não é difícil identificar de onde vem esse ódio.

Francia é uma mulher negra que teve como mote de campanha o "Mudança pela vida", e, entre as suas bandeiras, estão o fim da desigualdade econômica das mulheres, a descriminalização do aborto, enfrentamento ao racismo estrutural e preservação do meio ambiente e da Mãe Terra.

Nos meus estudos e nas trocas que tenho com pessoas incríveis como Francia, venho reforçando o quão importante é a prática decolonial e a escolha de representantes que de fato entendem e combatem o racismo e toda estrutura que o construiu. Há algumas semanas escrevi o texto "Nem tiro, nem enchentes, o povo negro quer viver!" aqui na coluna. E agora, ao escrever sobre os ataques à Francia, me vejo voltando a tal texto. Francia é uma mulher negra e o seu movimento se chama "Soy Porque Somos", a mesma filosofia do Ubuntu que Marielle evocou na sua campanha. Filosofia essa que se compromete com uma representatividade que surge a partir das demandas dos movimentos negros e de mulheres ngeras, , e não alçada sem grandes feitos para que se forje uma diversidade ilusória.

Queremos estar mais próximos das articulações antirracistas afrolatinas e diaspóricas porque fazemos parte desse espaço e, principalmente, porque reconhecemos que temos muito a trocar e a aprender. Contudo, ainda é angustiante notar que passamos pelos mesmos problemas. É ainda mais preocupante constatar que a violência política de gênero e raça é uma questão na América Latina como um todo. Escrevo hoje, então, novamente, para dizer que queremos o povo preto vivo.

Estamos nos articulando, aprendendo umas com as outras a nível internacional. Compartilhando nossas dores e lutas. Francia Márquez-Mina é um expoente fundamental para a solução dos problemas que enfrentamos.

Queremos poder trocar muitos conhecimentos e vitórias, queremos poder discutir sobre o meio ambiente, o racismo, as estruturas, os mecanismos de proteção às mulheres.

Queremos fazer isso vivas e juntas.

No encerramento da campanha de Francia Márquez, que tive a honra de participar desse momento emocionante e estar ao seu lado no palco, Francia reafirmou que trazemos no corpo uma força coletiva do povo, feminista e antirracista, e é com essa força que precisamos fazer política pela vida. E é por isso que não seremos interrompidas. É por isso que nós estamos prontas!