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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em defesa da democracia e de saúde para todos

Manifestação do Movimento Negro Unificado, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo, em 1978.    - Jesus Carlos
Manifestação do Movimento Negro Unificado, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo, em 1978.
Imagem: Jesus Carlos
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

05/04/2021 06h00

Na última semana, escrevi nesta coluna sobre a campanha #TemGenteComFome e hoje, mais uma vez, abro espaço para falar sobre os últimos acontecimentos do Brasil. Por mais que quisesse falar sobre outros temas como as conquistas e encontros do mês de março no Instituto Marielle Franco ou mesmo, sobre a minha qualificação no mestrado de Relações Étnico-Raciais do CEFET, que contou com a presença de mulheres incríveis em minha banca, como Sueli Carneiro e Bianca Santana. Mas, a coluna de hoje não será sobre minhas vitórias, mas, sim, sobre minhas preocupações, uma vez que obviamente eu não poderia me abster dos últimos acontecimentos do nosso país.

Antes de mais nada, nos últimos dias tivemos momentos de risco para democracia, como por exemplo o malabarismo feito pelo presidente da república Jair Bolsonaro com trocas ministeriais e uma tentativa frustrada de escalada autoritária. Já na pandemia de covid-19, tivemos novos recordes batidos, nos aproximando da marca de 4 mil mortes por covid-19 em 24h e uma média móvel de mortes que, pela primeira vez, superou a marca de 3 mil.

Ainda assim, tivemos boas notícias vindas do SUS, como a aprovação do uso da vacina contra covid-19 da marca Johnson & Johnson, que diferente das demais que requerem 2 doses para que a pessoa esteja imunizada, essa, conta com uma tecnologia onde apenas 1 dose já é suficiente para que a imunização ocorra. Nesses últimos dias também, o Brasil registrou a marca de mais de 1 milhão de pessoas vacinadas contra covid-19 em um único dia, marco que é resultado do trabalho de instituições científicas brasileiras renomadas, como a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan e de milhares de trabalhadores da saúde que tem se dedicado diariamente para vacinar o maior número de brasileiros por dia.

Então, posso dizer que o que vivenciamos nos últimos dias foi uma gangorra de sentimentos e preocupações distintos, não apenas com nossa vida e daqueles que amamos, como vivenciei nesta semana com familiares do meu marido com covid-19, mas de preocupações com relação a nossa própria democracia.

Se por um lado, tínhamos a esperança na vacinação finalmente tomando um ritmo adequado, por outro lado, a evidência científica de que as novas variantes que estão circulando são mais perigosas e que, ainda que tenhamos um bom desempenho na vacinação, estamos em abril e não chegamos nem a 10% da população vacinada. Além disso, ainda há muitas dúvidas com relação a duração da proteção, além de claro, sabermos que apenas a vacina neste momento, não é suficiente, uma vez que os hospitais continuam abarrotados e os números de novos infectados parecem não diminuir.

Se por um lado tivemos um dia 31 de março marcado com a mobilização da sociedade civil brasileira e de movimentos sociais relembrando o horror que foi o período da ditadura no Brasil e rechaçando qualquer comemoração pelos 54 anos, do que sabemos ter sido um dos períodos mais violentos da nossa história, por outro, precisamos ver mudanças ocorrendo em Ministérios estratégicos às vésperas do aniversário do golpe militar e sentir medo do que está por vir.

Ainda que Bolsonaro não conte com o apoio das forças armadas brasileiras, essas, que hoje, contam com comandos que parecem saber seu papel dentro da estrutura do Estado, o que Bolsonaro fez na última semana, pode nos dar pistas do tamanho do desafio que será enfrentado por todos os brasileiros em uma futura tentativa de reeleição do mesmo. Sua única preocupação, mais uma vez, parece ser com ele mesmo e seus familiares e isso, não parece que irá mudar.

Enquanto trabalhamos incansavelmente para garantir segurança alimentar para milhares de brasileiros e defender os direitos sociais que conquistamos a duras penas no Brasil, hoje, quero deixar uma mensagem de esperança para meus leitores. A luta política que travamos diariamente pelo respeito à constituição, a liberdade de expressão, a saúde universal para todas, todos e todes não pode e não deve sucumbir aos ataques diários daqueles que não respeitam e não enxergam a importância da democracia para o funcionamento do nosso país. Isso tudo irá passar e quando tudo passar, teremos ainda mais certeza do nosso papel na história do Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL