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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se tem gente com fome, dá de comer

Divulgação
Imagem: Divulgação
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

29/03/2021 06h00

"Tantas caras tristes querendo chegar
em algum destino
em algum lugar
[...]

Tem gente com fome
Se tem gente com fome
Dá de comer"

Com essa poesia de Solano Trindade inicio meu artigo desta semana com a única reflexão possível para se fazer em meio ao caos que estamos vivendo. Tem gente morrendo e tem gente com fome, e se tem gente com fome, o que vamos fazer?

De Maria Carolina de Jesus a Solano Trindade, passando por Conceição Evaristo e Sueli Carneiro, e chegando a Marielle Franco, a luta por uma vida digna para a população brasileira tem sido o foco de mulheres e homens brasileiros que sabem o peso que a desigualdade tem para milhares de pessoas. Sabem que não são apenas palavras, números ou algo intangível. Quando falamos de morte e fome, estamos falando de vidas que são diretamente afetadas pela omissão de governantes que insistem em não enxergar um povo que só quer uma coisa: viver.

Com a inércia e ineficiência do que vem sendo proposto pelo governo federal, coube à sociedade civil brasileira, aos movimentos negros, grupos e coletivos organizados, que há anos atuam para atender famílias em situação de vulnerabilidade, agora, criar algo ainda maior: uma campanha nacional de enfrentamento a fome, a miséria e a violência em decorrência da pandemia de covid-19. A campanha #TemGenteComFome, que se inspira no poema de Solano Trindade, nasce a partir da iniciativa da Coalizão Negra por Direitos, uma coalização de organizações e movimentos negros brasileiros da qual o Instituto Marielle Franco faz parte, e tem o intuito de levar comida e dignidade a 222.895 famílias brasileiras enquanto durar a pandemia.

Sim, o objetivo é grandioso, por isso mesmo, estou usando meu espaço em Ecoa para divulgar essa importante iniciativa e falar desse desafio que não é só de algumas organizações, mas de todos nós. A campanha pretende entregar a essas 222.895 famílias cestas básicas, material e produtos de higiene, equipamentos de proteção contra a covid-19, além de realizar ações sociais complementares como apoio e socorro à defensores de direitos humanos que estão desde o início da pandemia vivenciando situações de vulnerabilidade e desamparo por parte das autoridades brasileiras. Além disso, o valor que está sendo arrecadado também inclui a produção de materiais, comunicação, transporte e alimentação para a realização dos mutirões de solidariedade que até então, estavam sendo feitos em todas as regiões do Brasil, com recursos dos próprios coletivos.

Nesse momento, mais que nunca, a pandemia de covid-19 deve se agravar. No dia 25 de março, batemos um recorde de infectados chegando a 97 mil novos casos de covid-19 em apenas 24 horas. Isso significa que nas próximas semanas, ainda mais pessoas devem morrer. Significa também que o isolamento social imposto por causa da pandemia, vai agravar ainda mais o cenário de desemprego e fome que vivenciamos, e precisamos entender que essas não são lutas distintas.

Enquanto trabalhamos para que o número diário de novos casos de covid-19 diminua, também nos articulamos para que as pessoas possam ficar em casa com dignidade, tendo o que comer e como morar. O desafio é gigantesco, mas a nossa solidariedade e senso de coletividade também é. Seguimos juntas e juntos, construindo um futuro para o Brasil que não seja o de morte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL