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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um dia para celebrar a luta das mulheres!

Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

08/03/2021 04h00

O mês de março para mim começou a ter outros contornos desde o assassinato de minha irmã, em 2018. Antes disso, como feminista, celebrava essa data sempre repensando as conquistas alcançadas pelo movimento de mulheres até ali, e a luta presente na vida de todas nós diariamente. Após o fatídico dia 14 de março, passei a ressignificar o significado da luta pela vida das mulheres no Brasil, e o enfrentamento aos mais diferentes tipos de opressões existentes.

Neste 8 de março, o primeiro "8M" em uma pandemia que já tirou mais de 260 mil vidas de brasileiras e brasileiros e já impactou milhares de famílias ao redor do mundo e o primeiro março longe das ruas e das minhas companheiras de luta, é impossível pensar em outra forma de falar da luta das mulheres sem ser falando da luta daquelas que estiveram nas diversas linhas de enfrentamento da pandemia em todo o país. E, reforço as "diversas" linhas de frente porque, por mais que saibamos a importância das trabalhadoras da saúde que ajudaram a cuidar de todas as pessoas acometidas pela covid-19, reconheço que, diante dessa grave crise social e política, uma série de outras pandemias foram mostrando sua cara no Brasil. As pandemias da violência contra a mulher, da fome, da pobreza, da LGBTfobia, do racismo, entre outras.

Chamo atenção, em especial para a situação das mulheres negras nesta pandemia e para a luta das mesmas na busca por soluções, por entender que as opressões que perpassam a vida de mulheres negras são distintas das demais e por isso, relembro Lélia Gonzalez em um de seus escritos ao falar das especificidades da condição da mulher negra no Brasil, para reforçar que, essas desigualdades que atravessam nossos corpos, são há anos tratadas pelo movimento de mulheres negras brasileiros e nossas intelectuais negras:

(...) Em uma sociedade onde o racismo e o sexismo, enquanto fortes sustentáculos da ideologia de dominação, fazem dos negros e das mulheres cidadãos de segunda classe, não é difícil visualizar a terrível carga de discriminação a que está sujeita a mulher negra.

Diante disso, e entendendo a importância da movimentação de coletivos e grupos de periferia e de mulheres para garantir alimento e o mínimo de dignidade para todos neste quase um ano de pandemia no Brasil, relembro alguns desses esforços desempenhados, e que foram traduzidos nos projetos do Instituto Marielle Franco no último ano de luta e resistência. Desde o último 8 de março, muita coisa aconteceu e com o início da pandemia, o Instituto Marielle Franco junto a parceiros desenvolveu importantes iniciativas para o reconhecimento e fortalecimento das mulheres negras, indígenas e LGBTQIA+ que estavam à frente do combate à crise.

O projeto Agora É a Hora, desenvolvido com a ONG Criola em parceria com lideranças e coletivos do Rio de Janeiro, conseguiu garantir os direitos de mulheres negras e suas famílias durante a pandemia, por meio da distribuição de cestas de alimentação e suporte ao cadastramento do auxílio emergencial do governo federal. Neste projeto, mobilizamos dezenas de lideranças da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro e conseguimos produzir dados sobre a situação enfrentada pelas famílias desses territórios durante a pandemia.

O #BrasisPandêmicos, resultado do Mapa Corona Nas Periferias desenvolvido com o Favela Em Pauta, contou a história de diversos movimentos e lideranças de todo o Brasil. Aqui destaco a atuação de Edna Xipaya, uma Cacica do Povo Xipaya, do Pará, próximo de Altamira, considerado o município mais extenso do Brasil, é a cidade mais próxima do povo. A Cacica Edna, em meio a pandemia e numa tentativa de proteger seu povo, determinou o isolamento total das aldeias da região e bloqueou a entrada e a saída das mesmas, recebendo apenas os profissionais do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei). Esse foi apenas um dos exemplos trazidos da resistência de mulheres frente à pandemia durante todo 2020 e agora, mais uma vez, nesta nova crise em 2021.

Por último, o relatório "Mulheres Negras Decidem - Para Onde Vamos" trouxe uma nova proposta narrativa para a luta das mulheres negras e sem dúvidas, ressignificou e potencializou a importância da luta que desempenhamos não apenas durante a pandemia, mas ao longo da história da democracia brasileira. Fortalecendo a visão apresentada por todas que vieram antes de nós, de que são as mulheres negras que movem nossa sociedade e vivenciam os mais diferentes problemas, mas também são elas, ou melhor, somos nós que pensamos, construímos e implementamos as soluções para as crises da nossa sociedade.

Diante de toda essa trajetória até o 8M de 2021, fico com a certeza de que, com a energia, disposição e trabalho das mulheres negras, mesmo diante de um cenário ainda tão ruim de crise, estamos mais perto de ter "dias mulheres". Uma sociedade que acredita e fortalece a luta das mulheres, é uma sociedade que cresce junto e ganha com todo esse fortalecimento coletivo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL