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Anielle Franco

Nessas eleições, apoie candidatas negras

Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

05/10/2020 04h00

Nas últimas semanas, tenho utilizado este espaço para revisitar reflexões que venho acumulando nos últimos anos. Essas reflexões perpassam por vivências, experiências de dor, de alegrias, mas também de perspectivas otimistas sobre o futuro que queremos construir. Em maio, por meio do Instituto Marielle Franco e em parceria com o movimento Mulheres Negras Decidem, lançamos uma pesquisa que buscou respostas sobre a pergunta "para onde vamos". Nesta pesquisa, identificamos quais caminhos estão sendo construídos e liderados pelo ativismo de mulheres negras e o que essas mulheres estão propondo para o futuro. Se esses caminhos estão sendo pavimentados por nós, mulheres negras e estamos propondo soluções, por que ainda é tão difícil avançar no fortalecimento de pessoas negras que querem ocupar alguns espaços de decisão?

Bem, acertou quem respondeu que a principal barreira é o racismo estrutural presente em nossa sociedade. Porém aprofundando os efeitos e impactos desse sistema de opressão que se combinam com outras estruturas (como o patriarcado ou a questão de classe), eu quero avançar nas formas sutis e perversas que esse racismo se manifesta sobre, especificamente, as candidaturas de mulheres e homens negros que estão concorrendo ao pleito deste ano.

Primeiro, não é novidade o árduo caminho que nossa população precisa traçar para se jogar no tabuleiro eleitoral. Mais difícil ainda, é garantir a elegibilidade dessas mulheres e homens negros, ou seja, garantir que ao entrarem na disputa eles tenham chances reais de se eleger. A primeira barreira encontrada é justamente a ausência de representação efetiva que faça impulsionar o desejo de pessoas negras de ocupar estes espaços, e para falar disso, não tem como lembrar da luta e presença efetiva de Marielle no parlamento. Seu corpo e política atravessaram barreiras geográficas e sociais. O fato de uma mulher como ela ter estado na posição de parlamentar fez florescer novas ideias de ocupação e são nessas ideias e ideais que me seguro hoje.

Mas, além da ausência de representação, produto estrutural das desigualdades raciais desse país, precisamos avançar no debate sobre recursos para essas candidaturas. Para vocês terem uma ideia, ao analisarmos os dados da plataforma do movimento Mulheres Negras Decidem, notamos que apesar de mulheres negras serem 27,8% da população brasileira, representam apenas 5% das vereadoras no país. Além disso, ao observarmos estudo da Fundação Getúlio Vargas (2019) sobre representação nas eleições de 2018, vemos que mulheres negras representavam 12,9% do total de candidaturas ao Congresso Nacional, mas a elas foram destinados apenas 5,7% do total de recursos para realização das campanhas. Enquanto isso, homens brancos, representavam 43,1% do total de candidatos, e obtiveram 61,4% de recursos.

Ou seja, sem distribuição justa de recursos, não há possibilidade de eleição destes corpos tão importantes para a efetivação da democracia brasileira. Mas, por que é tão difícil conectar a barreira dos recursos com a estrutura do racismo que molda as relações e instâncias de tomada de decisão do nosso país? Uma das maiores contribuições do movimento negro brasileiro para o debate das eleições nos últimos meses foi evidenciar justamente que, a ausência de apoio direto para a ocupação desses corpos na política é um efeito direto do racismo, então, o cálculo do apoio a candidaturas negras tem que estar ligado à luta antirracista, caso não esteja, não há formas de se afirmar que existe uma democracia verdadeiramente representativa no Brasil.

E se não existe democracia sem racismo, a grande jogada do tabuleiro das eleições de 2020 é fortalecer as narrativas e ações que apoiem candidaturas de negros e negras, combatendo todas as estratégias externas que tentam minar que essas pessoas conquistem o pleito este ano. Estar do lado destes corpos é estar do lado da luta antirracista no país, e como o rapper Rincon Sapiência gosta de cantar em suas músicas, eis o tempo em que iremos reforçar que: "os pretos são a chave, abram os portões". Ou o derrubaremos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.