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Por que indústria automotiva foi conservadora ao projetar vendas em 2020

Rodrigo Paiva/Folhapress
Imagem: Rodrigo Paiva/Folhapress
Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

04/12/2020 04h00

Muito se falou, principalmente em abril, maio, junho e julho, que a indústria automotiva brasileira seria nocauteada pela pandemia. Especulou-se na época que a "fuga de dinheiro dos cofres" das montadoras com a perda de faturamento por causa da paralisação da economia seria de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões. Nesse cenário o mercado interno teria um tombo de 40%, terminando 2020 com pouco mais de 1,6 milhão de unidades comercializadas. Um desastre.

Pois chegamos ao fim de novembro com 1,8 milhão de veículos vendidos, queda de 28,1% sobre o desempenho de 2019. O que houve de inusitado - fora a pandemia por si só - para justificar uma diferença tão elástica dos números projetados aos realizados pela indústria?

Antes que o leitor possa se equivocar, imaginando que é melhor comemorar desempenho mais positivo que o esperado, é preciso esclarecer que projeções servem para programar produção, comprar insumos, peças e componentes, aumentar ou diminuir as horas trabalhadas, os turnos de produção, planejar a logística e também definir os preços dos veículos que chegam ao consumidor levando em consideração a variação do dólar no período. Ou seja, "errar para baixo" pode ter duras consequências para os planos de negócios dessa intricada cadeia automotiva.

Nos eventos promovidos por AutoData nas últimas semanas, todos online, identificamos que começaram os problemas no abastecimento das linhas de montagens, sobretudo no segmento de caminhões e implementos rodoviários. Alguns executivos disseram que faltam pneus e especificações de aços importados, dentre outros itens importantes para a montagem desses produtos.

Os reajustes de preços de automóveis continuam silenciosamente acontecendo. E demissões já estão no radar de algumas montadoras. Esses são apenas alguns efeitos que o conservadorismo no auge da pandemia pode ter causado. Claro que o dólar, o mercado paralisado alguns meses, pequenas empresas fechando as portas, desemprego, dentre outros fatores, também são argumentos relevantes.

Mas a posição conservadora da indústria, que oficialmente até a publicação da coluna mantém a estimativa de que o mercado interno em 2020 será de 1 milhão 925 mil unidades, ainda obriga muitos empresários a fazer, eles mesmos, suas apostas para planejar o futuro.

Alguns presidentes de montadoras, no entanto, disseram em outubro para AutoData que estavam mais otimistas do que a projeção oficial da indústria e esperavam um resultado muito, muito próximo de 2 milhões de unidades. E que diante das circunstâncias esse desempenho demonstraria a força do mercado interno e o trabalho intenso das empresas para atender a essa demanda. Quem apostou nisso lá atrás certamente se preparou melhor para este momento.

Em novembro foram vendidas 225 mil unidades, o melhor resultado deste ano. Resta para dezembro, tradicionalmente um dos meses mais fortes em vendas, 110 mil unidades para chegar à projeção oficial da indústria. Ou pouco mais de 185 mil para fechar com 2 milhões de unidades. Alguém aí tem um palpite de como fica esse bolão das vendas no Brasil?

Otimismo. Reservadamente alguns ex-executivos que frequentaram posições importantes nas montadoras afirmam que a falta de protagonismo da indústria nas mesas de negociações com os governos explica esse tipo de comportamento conservador.

No escuro. O problema é que os líderes estão dirigindo sob forte neblina, figura de linguagem usada por eles mesmos para expressar o quanto não estão a par de fatores importantes como a reforma tributária. Ou como o governo encaminha as demandas da indústria, como a postergação, ou não, da norma Proconve P8 para veículos comerciais. No passado a indústria teve maior proximidade com o Executivo e o Legislativo e não viajava no escuro.

Protagonismo. Outro executivo da indústria, este na ativa, credita a situação à falta de protagonismo dos líderes do setor junto ao mundo da política brasileira. O tal do lobby, que não é institucionalizado mas sempre ocorreu. Essa é uma lição de casa que pode ajudar a limpar a neblina do caminho.