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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem Carnaval, Brasil sufoca tempo de amor, esperança e expressão política

Campeã Viradouro desfila sob chuva na Sapucaí - Luciola Villela/UOL
Campeã Viradouro desfila sob chuva na Sapucaí Imagem: Luciola Villela/UOL
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

14/02/2021 14h19

O dia em que seu Juracyr de Oliveira dos Santos partiu desta vida, há quase dois anos, foi exatamente como pediu aos netos: cheio de samba. Ele queria uma caixa de som grudada em seu caixão. Teve um velório alegre misturado com o choro da saudade. Ele era referência na vila, que ainda respeita os mais velhos e reverencia a ancestralidade. Deixou instruções para o dia da partida. Não queria a solidão da morte. Preferiu a celebração da vida, assim como é o Carnaval. Assim como é boa parte da alma brasileira, que agora segue em suspenso, imersa em luto.

Seu Juracyr tinha uma vendinha com as cachaças artesanais que produzia. Nascido em 9 de agosto de 1932, uma terça-feira, às quatro da tarde, num vilarejo ao sul da Bahia, ele plantou música, cultivou cultura, cuidou dos 13 filhos, criou mais dois, encantou os 43 netos, os 58 bisnetos e os 5 tataranetos. De coração partido (domingo era dia de se reunir com o avô), os netos deram conta de seu pedido final. E assim foi: o velório aconteceu na vendinha a noite toda, uma caixa de som esteve ao lado do caixão tocando samba. Pela manhã, o cortejo levou na estrada de terra o esquife e o som sintonizado no samba. Atrás, na caminhada, o povoado seguiu seu Juracyr.

Para chegar ao pequeno cemitério, era necessário atravessar o rio, em mais um degrau em sua passagem para o outro mundo. Na margem oposta, os músicos esperavam com zabumba e pandeiro para receber seu Juracyr e tocar o samba ao vivo. Na travessia, de canoa, a caixa de som continuava a seleção de sambas. Fogos anunciavam a sua partida. Teve riso e teve choro. E foi lindo. O relógio marcava mais ou menos 9h, uma manhã de sol de julho.

Ao aportar do outro lado, foi levado de carroça até a igrejinha centenária. Lá dentro não teve missa. Teve samba ao vivo, diante dos padroeiros São Sebastião e Nossa Senhora do Brasil. Uma benção. Quando todos chegaram ao cemitério, nos minutos que antecederam o barulho da terra sobre o ataúde, tocou seu derradeiro desejo musical. Dos instrumentos, da caixa de som e do coro dos presentes, o refrão finalizava a despedida mais amorosa possível. Um abraço em todos. E então, o cemitério se encheu do clássico composto por João do Violão e Luis Antônio, interpretado por Elizeth Cardoso, de 1973:

Tem gente que já 'tá com o pé na cova
Não bebeu e isso prova
Que a bebida não faz mal
Uma pro santo, bota o choro, a saidera
Desce toda a prateleira
Diz que a vida 'tá legal

Eu bebo sim
Eu bebo sim eu 'to vivendo
Tem gente que não bebe
E 'tá morrendo

Foliões curtem Daniela Mercury no bloco Pipoca da Rainha, na rua da Consolação, em São Paulo - Nelson Antoine/UOL - Nelson Antoine/UOL
Foliões curtem Daniela Mercury no bloco Pipoca da Rainha em 2020
Imagem: Nelson Antoine/UOL

Neste ano de não Carnaval — uma pausa que faz falta de todas as maneiras ao povo brasileiro, tão sofrido e enlutado; que contrasta com os decretos de ampliação do acesso a armas pelo governo Bolsonaro — cabe pensar quem somos nós. Teimo em acreditar que somos o povo que aceita o descaso com a vida, a crueldade, a violência, as violações de direitos humanos, a enorme vulnerabilidade em que vivem milhões de nós. Para mim, o brasileiro é esse ser musical, que dança, que curte o Carnaval, que explode amor para segurar o resto do ano, que samba na rua com chuva e tudo e ao mesmo tempo também protesta por um país mais justo. Nos desfiles das escolas de samba, nas fantasias dos blocos, o Carnaval se expressa politicamente. Tem Carnaval no Brasil inteiro. A nossa sorte é que é feito por gente que semeia esperança.

No vilarejo de seu Juracyr, quando alguém mais velho se vai, há um luto de três dias. São dias de silêncio. Antes de morrer, ele pediu que o luto na cidade fosse cancelado.

Juracyr - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Juracyr
Imagem: Arquivo pessoal

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL