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'Praia dos Ossos' é retrato de como Brasil trata mulheres 'livres demais'

Angela Diniz - Acervo UH/Folhapress
Angela Diniz Imagem: Acervo UH/Folhapress
Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do UOL

16/09/2020 04h00

Até a última semana, eu desconhecia a história do assassinato da socialite mineira Ângela Diniz, morta no verão de 1976 — dentro da própria casa em Búzios (RJ), por seu próprio namorado, com quatro tiros no rosto. Foi por causa do sucesso do recém-lançado podcast "Praia dos Ossos", da Rádio Novelo, que descobri, entre outros dados assombrosos, que o caso de Ângela sacudiu o país e serviu de inspiração para a série "Coisa Mais Linda", da Netflix.

A morte de Ângela aconteceu há mais de 40 anos, mas poderia estar em qualquer noticiário atual. A gente sabe disso porque acompanhou, nos últimos anos, outras histórias célebres de mulheres que foram assassinadas pelos próprios companheiros ou ex-companheiros, como aconteceu com Eliza Samudio, Eloá Cristina e Sandra Gomide.

Olhando de perto, nenhuma história de morte se parece com outra — assim como nenhuma história de vida pode ser alvo de comparações. Mas o que elas guardam em comum é a ideia tenebrosa (e, infelizmente, ainda atual) de que mulheres são, muitas vezes, consideradas parte do patrimônio de seus parceiros.

Muita gente pode argumentar que homens que cometem feminicídio são exceções à regra ou "monstros", mas o trabalho competente, delicado e respeitoso de "Praia dos Ossos" mostra que o problema não é isolado, coisa do passado ou fatalidade: atualmente, o Brasil ocupa a 5ª posição no ranking mundial de feminicídios. Existe uma questão cultural importante nesse dado, e o podcast explica, em grande parte, essa mentalidade. No final dos anos 1970, Ângela Diniz passou de vítima do parceiro a algoz do próprio assassino — ou, ao menos, foi assim que a opinião pública tratou sua memória quando o autor dos disparos, o playboy paulistano Doca Street, se queixou das dificuldades de conviver com uma mulher que não andava na linha para os padrões da época.

Série policial, mas sem perder a ternura

"Praia dos Ossos" traz para os ouvintes um paradoxo interessante: apesar de ser uma série policial, trata dos detalhes do caso com cuidado excepcional. Muitos envolvidos no caso (amigos, testemunhas, advogados) ajudam a traçar o perfil da vítima e de seu assassino, de modo que é possível escutar relatos de pessoas que nutriam simpatia ou rancor pelos protagonistas da história.

É mesmerizante ouvir os detalhes de como o assassino ganhou popularidade no país: por onde passava, Doca recebia o carinho da população, suspiros de mulheres comovidas com seu relato sobre como Ângela teria partido seu coração, de como estava sendo difícil para ele superar o amor por ela. Até homenagem em cardápio de restaurante ele recebeu — em um item que levava quatro balas na receita, aludindo aos quatro disparos no rosto da parceira.

A sucessão de choques que a narrativa proporciona, já no primeiro capítulo, só é suspensa quando a apresentadora Branca Vianna explica como e por que o caso de Ângela Diniz marcou sua vida. É o tipo de delicadeza que não aparece nos programas policiais que anunciam assassinatos como quem narra gols em uma partida de futebol. Não existe êxtase em "Praia dos Ossos"; há o bom tom de sinalizar, pouco a pouco, que crimes não deveriam virar entretenimento popular, como aconteceu em 1970 e segue acontecendo diante dos olhos de qualquer espectador atento.

Poucos meses após sua morte, Ângela foi acusada de ter sido uma destruidora de lares, alcoólatra, usuária de drogas, adúltera, vulgar, enfim, de uma infinidade de predicados pouco condizente com o depoimento de pessoas que realmente a conheciam — e que, de todas as formas, não serviriam como justificativa para que ela fosse morta pelo companheiro com quatro tiros no rosto. Além do mais, ela foi morta justamente por tentar terminar a relação e se retirar da vida de seu assassino — o que prova que as pessoas compram narrativas desse tipo apenas por ódio de mulheres livres, mesmo. Se fosse por pena do agressor, teriam perguntado, em alguma altura, por que ele não ficou aliviado quando ela quis romper o namoro com Doca.

O esforço de toda uma nação para culpabilizar Ângela não é novo e, infelizmente, parece que nunca fica velho. Mulheres como ela — que gostam mais de si mesmas do que de seus parceiros, como é o natural — ainda provocam os piores instintos em homens com expectativa de obediência, submissão e renúncias nos relacionamentos.

As "mulheres devotadas" são uma parcela cada vez menor da população feminina. Lamentavelmente, isso faz com que homens frustrados e agressivos se multipliquem na mesma proporção em que sumimos das vidas deles. Em algum momento, será inevitável perguntar, coletivamente, se a culpa das agressões não vem a ser do agressor. Enquanto a consciência sobre o assunto não bate em todas as portas do Brasil, "Praia dos Ossos" abre algumas janelas importantes pra gente continuar respirando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL