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Programa da Nasa para evitar acidente com asteroide é falho, diz ex-diretor da Microsoft

Nos últimos dois anos, Nathan Myhrvold, ex-chefe de tecnologia da Microsoft, irritou a pequena comunidade de cientistas de asteroides dizendo que eles sabem menos do que pensam sobre esses objetos espaciais que ameaçam a Terra - Evan McGlinn /The New York Times
Nos últimos dois anos, Nathan Myhrvold, ex-chefe de tecnologia da Microsoft, irritou a pequena comunidade de cientistas de asteroides dizendo que eles sabem menos do que pensam sobre esses objetos espaciais que ameaçam a Terra Imagem: Evan McGlinn /The New York Times

Kenneth Chang

27/06/2018 04h01

Apesar de as probabilidades de um asteroide cair na Terra serem pequenas, uma colisão, por menor que seja o objeto, pode explodir com energia semelhante à de uma bomba atômica.

Por isso, cientistas da Nasa examinam o céu em busca de perigo. Se algum deles estiver em rota de colisão com o nosso planeta, informações sobre o tamanho e sua composição seriam essenciais para desviá-lo, ou para calcular a destruição que causaria, no caso de nosso planeta ser atingido.

Nos últimos dois anos, Nathan P. Myhrvold, ex-diretor técnico da Microsoft, com doutorado em Física pela Universidade de Princeton, tem irritado a pequena e homogênea comunidade de cientistas que estuda asteroides, dizendo que seus integrantes sabem menos do que pensam sobre esses objetos que flutuam próximos à Terra. Myhrvold argumenta que a valiosa coleção de dados da Nasa, da qual os cientistas dependem, é falha e não confiável.

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Imagem artística da sonda Wide-field Infrared Survey Explorer da NASA, que foi lançada em 2009 e se tornou a base para o projeto Neowise, que estudou 158.000 asteroides desde 2011
Imagem: Nasa
Desde 2011, um projeto da Nasa, conhecido como Neowise, cataloga o tamanho e a refletividade de 158 mil asteroides, e alega que a estimativa do diâmetro das rochas estava dentro de uma margem de 10% do tamanho real. Myhrvold disse que as incertezas eram muito maiores, em grande parte porque os pesquisadores da Nasa utilizavam de dados de um satélite projetado para observar objetos distantes, não asteroides próximos. "A ciência é terrível", disse ele.

    Agora, seus argumentos foram publicados na Icarus, uma das publicações sobre ciência espacial de maior prestígio.

    "Comecei a convencer as pessoas de que estava certo", disse Myhrvold.

    Quando ele revelou sua pesquisa pela primeira vez, em 2016, a Nasa disse que ela não havia passado pelo crivo da comunidade científica. Dois anos mais tarde, a agência ainda defende os resultados de sua missão.

    A equipe Neowise confia em seus dados e nas descobertas científicas que foram publicadas em vários artigos de periódicos reconhecidos pela comunidade científica" 

    Nasa, em comunicado.

    "A Nasa tem convicção de que os processos e análises realizados pela equipe Neowise são válidos, fato que já foi verificado por pesquisadores independentes".

    Veja também:

    Por e-mail, Edward L. Wright, cientista da UCLA que foi o principal investigador no Wide-field Infrared Survey Explorer, ou Wise, a missão que deu origem ao Neowise, contestou alguns aspectos técnicos do artigo de Myhrvold. Ele disse que uma das seções sobre a análise de erro foi "um desperdício de papel".

    Ele não respondeu outros e-mails.

    As descobertas de Myhrvold representam um desafio para uma missão de descoberta de asteroides proposta pela Nasa e chamada Neocam, abreviação de Near-Earth Object Camera, que provavelmente custaria centenas de milhões de dólares. Um comitê do Congresso americano que controla os gastos da Nasa incluiu apenas US$ 10 milhões (cerca de R$ 38 milhões) a mais no projeto de lei orçamentária para o desenvolvimento da Neocam.

    A cientista Amy Mainzer do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, Califórnia, é a principal investigadora de ambos os projetos – Neowise e Neocam. A Nasa disse que ela não estava disponível para comentar.

    Pelo menos um cientista da Nasa reconheceu o mérito da pesquisa feita por Myhrvold. David Morrison, cientista planetário do Centro de Pesquisa Ames da agência espacial, em Mountain View, Califórnia, comentou as questões científicas levantadas nos artigos: "Acho que Myhrvold tem razão em grande parte de seus argumentos".

    "Acho válido que alguém inteligente, de fora, analise tais dados, que têm tanta importância”, disse Morrison, que não esteve envolvido na pesquisa de Myhrvold, me, no projeto Neowise. "Isso ajuda a ciência. Não pode ser uma coisa ruim". 

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    Imagens de radar de um asteroide próximo da Terra. Desde 2011, um projeto da NASA chamado Neowise estudou 158.000 asteroides
    Imagem: Nasa

     "Coisas idiotas" dos dados

    A disputa gira em torno dos dados coletados pela espaçonave Wise da Nasa, que começou a inspecionar o céu em 2009, tirando fotos de centenas de milhões de galáxias e estrelas distantes.

    Os asteroides sobrevoavam o campo de visão da Wise e o projeto Neowise foi criado para analisá-los.

    Pela observação do calor irradiado pelos asteroides é possível estimar seu tamanho e a reflexão de sua superfície. Os dados coletados pelo Neowise são de longe a maior coleção existente e centenas de artigos científicos citam essas descobertas.

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    Impacto de asteroide na Terra pode ser mais intenso do que de uma bomba atômica
    Imagem: Nasa
    Quando Myhrvold fez suas alegações iniciais, os cientistas do Neowise zombaram de alguns erros, como uma equação que misturou o raio e o diâmetro.

    "É uma pena que Myhrvold não utilize a política liberal do Google para encontrar falhas. Se o fizesse, eu estaria rico", Wright falou à Scientific American.

    Mainzer também disse na época: "Acreditamos que, neste momento, é melhor permitir que o processo de revisão por pares avance, pois é a base do processo científico".

    Myhrvold teve um caminho profissional eclético desde a saída da Microsoft, há quase duas décadas. Ele ganhou notoriedade por um livro de receitas de seis volumes chamado "Modernist Cuisine", e foi desprezado pelo trabalho de sua empresa, a Intellectual Ventures, que compra patentes e recolhe taxas de licenciamento. Ele também é um ávido escavador de fósseis de dinossauros, com uma série de artigos de paleontologia publicados.

    No início deste ano, a Icarus publicou o primeiro artigo de Myhrvold sobre como a reflexão de luz solar afeta a medição dos asteroides, quando medidos pelas curtas ondas infravermelhas do Wise. A mesma publicação científica aceitou um segundo artigo no mês passado contendo as críticas feitas por ele aos dados da Nasa sobre os asteroides.

    Entre eles está o caso dos números copiados.

    O modelo dos pesquisadores do Neowise foi calibrado com os diâmetros de cerca de cem asteroides medidos que foram ou medidos por radar, por visitas de espaçonaves ou pela passagem de um asteroide em frente a uma estrela distante.

    Quando os cientistas divulgaram suas descobertas, não incluíram as estimativas produzidas por seus modelos, o que teria dado uma ideia da precisão. Em vez disso, incluíram as medições anteriores.

    Outros astrônomos concordaram que os cientistas do Neowise não foram claros em relação aos números que estavam publicando.

    "Eles fizeram algumas coisas idiotas", disse Alan W. Harris, perito em asteroides já aposentado da Nasa, que foi um dos revisores do segundo artigo de Myhrvold.

    Myhrvold acusou os cientistas do Neowise de entrar em um arquivo da Nasa que dispunha resultados planetários mudando alguns dos números copiados e excluindo outros sem qualquer aviso prévio.

    "Eles voltaram atrás e reescreveram a história. O que mostra que estiveram mentindo até agora. E ainda não se explicaram", falou ele.

    Harris disse que não viu um comportamento nefasto dos cientistas do Neowise, mas concordou: "Essa história ainda está estranha".

    Myhrvold também sustenta que o Neowise estabeleceu regras arbitrárias para decidir quais dados manter e quais desconsiderar. Criticou também o fato de não descrever seus métodos em detalhes suficientes para que outros cientistas pudessem replicá-los.

    Rancor e réplica

    A desavença se espalhou de conferências e revistas científicas para cartas litigiosas de advogados. Myhrvold acionou a lei de liberdade de informações para ter acesso a informações e algoritmos que disse serem necessários para a verificação correta dos resultados obtidos pelo Neowise.

    Myhrvold disse que a Nasa e o Congresso devem suspender o planejamento da nave Neocam, que pode ter as mesmas deficiências do Neowise. "Por que eles conseguem evitar um exame mais profundo e ainda assim obter dinheiro diretamente do Congresso?", questionou.

    Ele também disse que um observatório que está em construção aqui na Terra, o Large Synoptic Survey Telescope, conseguirá realizar grande parte do que foi planejado para a missão Neocam.

    Em seu e-mail, Wright disse que Myhrvold tem uma abordagem "antagonista". Este, por sua vez, pontuou os comentários depreciativos anteriores de Wright.

    A rixa intriga outros pesquisadores de asteroides.

    "É uma história estranha. Eu nunca tinha passado por nada do tipo na minha área", disse Morrison.

    Os editores da Icarus agora antecipam uma refutação de Mainzer, depois que ela não aceitou o convite para escrever um artigo há vários meses.

    Em junho, a Nasa divulgou uma notícia sobre um artigo diferente, também aceito pela Icarus, desenvolvido por uma equipe de cientistas europeus. Eles usaram um método mais sofisticado para calcular os tamanhos de mais de 100 asteroides e os resultados em grande parte correspondem às estimativas do Neowise.

    Mas a análise se limitou aos asteroides com as medições mais precisas baseadas em ondas de longo comprimento feitas pelo WISE, uma fração minúscula dos 158 mil analisados pelo Neowise.

    Em uma pesquisa relacionada, ainda em desenvolvimento, Myhrvold pretende mostrar como o trabalho do Neowise poderia ser melhorado. Ele começou a colaborar com Jean-Luc Margot, o chefe do Departamento de Ciências da Terra, Planetárias e Espaciais da UCLA e um colega de Wright. (Myhrvold doou US$ 350 mil à universidade, sua alma mater. O dinheiro vai apoiar a pesquisa de estudantes de pós-graduação no departamento de Margot, embora não necessariamente em asteroides).

    Margot disse que no trabalho preliminar, ele e seus alunos já reproduziram alguns dos resultados de Myhrvold.

    Ao contrário de Myhrvold, Margot disse que teve conversas produtivas com Wright e outros pesquisadores do Neowise. "Não percebi qualquer desconforto. Início da suposição de que todos querem os melhores resultados dos dados", disse Margot.

    Myhrvold acha que há boas descobertas nos dados produzidos pelo Neowise e que teriam sido escondidos no meio do que foi descartado durante a análise. "Talvez existam novas classes de asteroides lá fora. Estes talvez sejam os únicos resultados que teremos por um longo tempo. É melhor que façamos direito", concluiu.